Jesus Christ Superstar: venha a nós o vosso show

Para desespero dos conservadores, surgia nos anos 70 um musical que trazia uma visão humanizada e contundente dos últimos dias de Cristo, dando espaço a personagens controversos e explorando questões políticas e sociais. Jesus Christ Superstar superou as críticas e o teste do tempo, e suas canções ecoam até os dias de hoje.



Broadway Christ Cristo Jesus Superstar

My mind is clearer now – at last all too well I can see where we all soon will be If you strip away the myth from the man You will see where we all soon will be

Judas, em “Heaven in Their Minds”

Música e religião. Eis aí dois temas perigosos de abordar, seja pelas paixões que despertam ou pela linha íngreme entre o sublime e o enfadonho em que ambos caminham. Logo, não deixa de surpreender que um musical sobre os últimos dias de Jesus Cristo tenha alcançado tamanho êxito, como é o caso de Jesus Christ Superstar.

Desde sua primeira apresentação nos palcos em 1971, o espetáculo já contabiliza dezenas de montagens nas mais diferentes línguas (incluindo uma versão em português, traduzida por Vinícius de Moraes), um número semelhante de álbuns gravados e duas versões cinematográficas, a mais famosa realizada em 1973 e que ajudou a propagar ainda mais o evangelho contracultural concebido por Andrew Lloyd Webber e Tim Rice.

Não que as coisas tenham sido simples de início para a produção. Assim como Jesus foi um líder espiritual incompreendido em seu tempo, a ideia de um espetáculo musical que privilegiava a perspectiva de um Judas negro, que contestava as atitudes de um Cristo com atitude rocker e sua companheira (groupie?) Maria Madalena não agradou em nada os religiosos da época, principalmente nos Estados Unidos.

As metáforas e críticas às questões políticas e raciais que estavam em ebulição no continente americano e no resto do mundo naquela altura tampouco ajudaram na empatia com o público. Um elenco multirracial em meio a soldados romanos com metralhadoras, tanques de guerra cruzando o deserto e um templo onde se traficavam drogas e prostitutas: assim era a Israel representada nos cânones de Jesus Christ Superstar. Um microcosmo propositalmente exagerado, mas com um apelo inegavelmente realista.

Broadway Christ Cristo Jesus Superstar

O Jesus que Webber & Rice apresentam é o "cara", ídolo das multidões de Jerusalém, mas que antes de tudo é humano e repleto de medos e anseios pelo que acontece - e ainda acontecerá - à sua volta. Cenas-chave como a postura descontraída na funky "What's the Buzz?", a demonstração de fúria em "The Temple" ou o momento contemplativo em Gethsemane mostram estas nuances de um personagem que foi magistralmente interpretado (nas versões da Broadway e no filme de 1973) por Ted Neeley, mas que teve um intérprete mais famoso associado: Ian Gillan, do Deep Purple. Se sua performance representa luz e vitalidade, seus antagonistas estão no espectro oposto: os fariseus têm voz grave, pausada e quase monocórdica, maquinando o destino de Jesus em meio a arranjos fúnebres.

Da mesma maneira, os outros personagens de destaque em Jesus Christ Superstar vão além do maniqueísmo. Mais do que um mero traidor ou um hipster amargurado por seu movimento ter caído nas graças do povo, Judas possui motivações políticas genuínas e uma crítica feroz ao culto à personalidade de Cristo. Sua interpretação cheia de blues e tragédia (cortesia de Carl Anderson, falecido em 2004) é o contraponto perfeito para as potentes vocalizações de Jesus. Maria Madalena, por sua vez, é resgatada do estereótipo de “mulher impura” e também ganha luz própria ao expor a amplitude de seus sentimentos em relação ao Filho do Homem, nomeadamente em "I Don't Know How to Love Him", uma das mais belas canções do musical.

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Musicalmente, JCS exala (e exalta) o rock and roll dos anos setenta com timbres psicodélicos, guitarras e vocais urgentes, acrescentando uma boa dose de soul music (ouça atentamente a já citada "What's The Buzz", "Simon Zealotes" e "Strange Thing Mistyfing") sem esquecer as tradicionais orquestrações e corais característicos da Broadway.

De fato, se há uma conexão com o divino em Jesus Christ Superstar, ela se dá através das composições e da interpretação do elenco. Por sinal, o musical é objeto de culto entre músicos, cantores e atores até os dias de hoje, o que explica o envolvimento de outros nomes conhecidos do rock e de Hollywood em montagens mais recentes, incluindo Corey Glover (Living Colour) no papel de Judas, Sebastian Bach (Skid Row) como Jesus e até mesmo Alice Cooper como um impagável Herodes.

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É essa conjunção de fatores o grande motivo da longevidade de Jesus Christ Superstar: o casamento entre sagrado e profano, rock e orquestra, o escapismo dos musicais com o dedo na ferida nos problemas e dilemas de nossos tempos. Mesmo se você não for um fã do gênero, é grande a chance de ser arrebatado pelo belo trabalho musical de Mr. Webber e seus intérpretes. (Foi o que aconteceu comigo, aliás: graças a “Jesus”, aprendi a apreciar outros espetáculos clássicos da Broadway.)

Faça o teste, então: caso a sua cabeça não consiga assimilar um grupo de apóstolos dançarinos com roupas coloridas, ouça as canções e letras como se fosse um álbum à parte, sem preconceitos. E não estranhe se sair por aí logo depois, cantando “Hey JC, JC won't you smile at me? Sanna Ho Sanna Hey Superstar!”

fabio machado

ainda não se decidiu se é um jornalista que desenha ou um músico que escreve textos. Enquanto isso, continua fazendo um pouco de tudo.
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