Labirintos: a magia da epopeia sem retorno

Segundo a mitologia, foi da relação anti-natura entre Pasifae, mulher do rei Minos, e um belo touro branco que nasceu o Minotauro - monstro que foi aprisionado no centro do famoso Labirinto de Cnossos. Uma exposição em Barcelona tentou reunir o fascínio por esta construção, o arrepio da fuga à linha de segurança, o caminho por trilhar sem novelo de lã: uma viagem da mitologia grega à actualidade, uma epopeia sem retorno no universo dos labirintos. No fim, se conseguir, volte para trás.



pasifae minos dedalo touro minotauro labirinto cnossos mitologia grega barcelona Jason Hawkes (Maze at Longleat House, Wiltshire)

Podemos ver a vida como um dédalo. Andamos sempre às voltas, perdidos, para chegar a lado algum e, quando lá chegamos, outro nenhures se alumia e vislumbramos um novo emaranhado de caminhos, vazios de destino. Esta pode, porém, ser também a beleza da vida.

Comecemos por reflectir desde já sobre a ideia de que quando “perdemos o Norte” ganhamos uma sensação de uma outra liberdade, uma espécie de fuga ao destino, à tirania do percurso traçado, ausente de pontos cardeais. No labirinto, símbolo de iniciação para os gnósticos, ao percorrer o emaranhado de percursos o peregrino ascende à salvação e iluminação, quando atinge o centro. No mais importante - o caminho - perde o sentido do mundo exterior, ganhando uma desejada quietude mental, num encontro com a verdade.

pasifae minos dedalo touro minotauro labirinto cnossos mitologia grega barcelona Leberinto de espejos (Pepo Segura - CCCB, 2010)

pasifae minos dedalo touro minotauro labirinto cnossos mitologia grega barcelona Pepo Segura - CCCB (2010)

pasifae minos dedalo touro minotauro labirinto cnossos mitologia grega barcelona Espacio Laberintos Unicursales (Pepo Segura - CCCB, 2010)

O labirinto como construção e símbolo está presente em variadas tradições culturais. Acredita-se, por exemplo, que os labirintos pré-históricos serviam como armadilhas para espíritos malévolos ou como caminhos que definiam danças rituais. Umberto Eco (autor da introdução ao catálogo desta exposição no CCCB de Barcelona) explica que “os milhares de anos de história desta figura revelam o fascínio que sempre despertou na humanidade, representando um aspecto da condição humana: existem inúmeras situações em que é muito fácil entrar, mas das quais é muito difícil extrair alguém.

Há uma clara distinção entre labirintos de um só sentido (tecnicamente referindo-se ao esquema de caminhos unidireccionais – que sempre chegam ao centro) e labirintos com várias opções de caminhos (“Dédalos” – referindo-se a estruturas que visam confundir o incauto viandante com inúmeras entradas e saídas). Em inglês encontram-se distintamente os dois conceitos: “Labyrinth” e “Maze”, respectivamente. Ou seja, o Labirinto só tem uma entrada e uma saída, enquanto o Dédalo pode ter várias saídas e várias entradas. “Entrada” – o sítio onde Teseu deixou preso o fio que Ariana lhe entregara juntamente com a espada com que foi chacinado o Minotauro.

pasifae minos dedalo touro minotauro labirinto cnossos mitologia grega barcelona Teseu a lutar contra o Minotauro (Jardins Tuileries, Paris)

A História do Touro de Minos, da mitologia grega, é deveras interessante. A saber, resumida e simplificadamente: tudo se passa na ilha grega de Creta. Como sinal de aprovação pela conquista do trono da ilha e do seu reinado, o rei Minos pediu ao deus do mar, Posídon, que lhe enviasse um touro branco como a neve. O problema é que o touro enviado por Posídon deveria ser sacrificado. Ora, tendo este touro uma extrema e encantadora beleza, Minos decidiu adoptá-lo e estimá-lo.

Aqui entra em cena a mulher de Minos, Pasífae: como Afrodite não gostou que Minos tivesse desobedecido às ordens de sacrificar o animal, fez com que Pasífae se apaixonasse perdidamente pelo touro. E que decide então a mulher de Minos fazer? Nada mais do que pedir ao artesão Dédalo para construir uma vaca de madeira para poder copular com o touro, confortavelmente escondida lá dentro! E assim foi.

Desta relação “anti-natura” nasceu o Minotauro. Este, muito bonito enquanto pequenino, ficou aos cuidados da sua “mãe”. Porém, quando cresceu, começou a apresentar sinais de fealdade, ferocidade e de um apetite voraz. Ou seja, o pobre híbrido tinha que comer sete mancebos e sete donzelas de oito em oito anos. Ora, que se pode fazer? Manda-se Dédalo, o artesão, e seu filho, o famoso Ícaro, construir um gigantesco e complexíssimo labirinto para aprisionar o Minotauro. Note-se que este estava tão intrincadamente feito que nem mesmo os seus construtores conseguiam de lá sair depois de terminarem os trabalhos (o resto da história de Ícaro é bem conhecido).

Finalmente, quando já ninguém controlava o animal, surge o herói Teseu, misturado em mais uma remessa humana de pequeno-almoço para o Minotauro, com a missão de assassiná-lo. Astuto, Perseu prendeu a ponta de um novelo de lã à entrada do labirinto (que a sua namorada, Ariadne, lhe deu), matou o meio-touro-meio-humano com uma espada (que a namorada lhe deu), e seguiu o fio de volta para encontrar a saída. É quando a lã vence o labirinto.

E foi assim. Repleta de moral, esta história revigora Cnossos, em Creta, onde repousam 1300 compartimentos labirínticos. Alegadamente, foi este o possível albergue do Minotauro – o célebre Labirinto de Cnossos. É então que a realidade se mistura com a fantasia mitológica num intricado dédalo de acções-ficções.

A exposição Per Labirints terminou a 9 de Janeiro de 2011, mas os elementos essenciais podem ser consultados no site do CCCB ou através da encomenda do catálogo.

pasifae minos dedalo touro minotauro labirinto cnossos mitologia grega barcelona El ojo que llora (detalhe, Lika Mutal, 2006, Alameda de la Memoria, Lima)

pasifae minos dedalo touro minotauro labirinto cnossos mitologia grega barcelona Labirinto de Franco Maria Ricci em construção. Fontanellato, Parma, 2010. Cortesia de Franco Maria Ricci, Italy

pasifae minos dedalo touro minotauro labirinto cnossos mitologia grega barcelona Oscar Tusquets Blanca (Casa de Laberintos. Sant Vicená de Montalt, 1999. Cortesia de Oscar Tusquets, Barcelona)

miguel oliveira

; possui o cérebro na ponta dos dedos. Pinta palavras em ecrãs de computador com aquilo que sintetiza do mundo e diz possuir um rádio no lugar da cabeça.
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