
Não vale a pena dizer «Não posso crer!» que o nível do mar está a subir. Se o nível do mar está a subir, logo menos espaço terrestre nos sobra – aos incautos humanos e às cândidas outras criaturas. Ora, numa espreitadela futurista saltamos sobre o invasor e passamos a habitá-lo. Fiquem a conhecer por dentro e por fora le nouvel Ark Hotel.
A arquitectura deparou-se com um periclitante novo paradigma. O mundo hoje não suporta mais repentinas ventanias e está cada vez mais semelhante a um castelo de cartas. Os tempos idos comprovam ciclos naturais marcados por apoteóticas catástrofes e, alegam uns e comprovam as estatísticas da frequência de calamidades, um novo ciclo está iminente.
Concordemos que de tempos a tempos todo o ser inteligente se livra das impurezas e que o dilúvio bíblico não é o único relato de um duche planetário. Hoje em dia, o ser humano detém a tecnologia suficiente para, pelo menos, adiar este exorcismo. Podemos parar de fazer comichão e sermos nós próprios a purificar, a enxugar, o planeta. Está na altura de reunir esforços para um futuro mais estável. Ou não. E é da fria Rússia que chega o protótipo flutuante – o Sputnik dos hotéis.


A Rússia nunca desejou manter uma paz fingida e já ninguém tem paciência para birras bélicas. É precisamente desta neve que chega o calor do futuro, da preservação da espécie humana – sem fronteiras, sem selecção, sem geopolitik. É um projecto aberto ao mundo, open source, onde cabemos todos, sem a artificialidade selectiva de um perecido Noé, ou pseudo-conspirações hollywoodescas 21/12/2012. É hoje, na Rússia, que nasce o Ark Hotel.
Imerso nesta tomada de consciência, o escritório de arquitectura Remistudio desenvolveu, dentro no âmbito do programa Architecture for Disaster Relief, o conceito de um hotel flutuante, com uma bela e extravagante estrutura em forma de arco e uma parte inferior semelhante ao casco de um navio, aguentando marés fortes e desastres “naturais” (vamos jogar ao jogo vamos-enumerar-recordações-de-catástrofe-naturais a ver se isto faz sentido).



A arquitectura deste hotel permite a sua construção na água ou em terra firme. Quando em terra firme, o Ark Hotel pode ser utilizado em zonas de grande incidência de terramotos, porque o seu esqueleto de cabos de aço e arcos de madeira comprimidos permite que a energia do terramoto seja distribuída por todo o corpo do edifício. O Ark Hotel ergue-se a cerca de 30 metros de altura.
Uma eco-construção de tal estatura foi pensada como um conjunto de etapas sequenciais. Uma unidade de transformação de energia térmica em energia eléctrica é o suporte central energético de onde toda a disposição recebe a energia necessária. Segue-se a montagem da coluna vertebral, feita de arcos de madeira e cabos de aço comprimido, e de seguida a cobertura, transparente como convém à maximização da penetração da luz natural - 3200 metros quadrados de área cobertos por uma película mais leve que o vidro, o etileno tetrafluoretileno. O Ark Hotel é uma bonita estrutura, em forma de concha.
O edifício é retro-alimentado com um sistema de reutilização de água da chuva e placas fotovoltaicas instaladas na cobertura. É claro, isto é um hotel – tem quartos, distribuídos em quatro andares. Quando se acorda de manhã e se sai de sonhos levemente ondulantes para o pequeno-almoço atravessa-se o jardim interno – uma biosfera tipo estufa –, povoado por uma flora luxuriante e animais, toda esta natura escolhida de acordo com as diversas características de compatibilidade, reprodutibilidade, fornecimento de fontes de alimentação, eficiência de produção de oxigénio, etc.. Os pássaros voam livremente dentro deste hotel e as tulipas não morrem lentamente em jarras de cristal.
Esta estrutura futurista destaca-se pela autonomia, ou, como diz Alexander Remizov, do Remistudio, ao Daily Mail, pelo “sistema de suporte de vida independente”, garantindo aos seus “hóspedes” sobreviver (viver) a bordo durante meses seguidos. Talvez tempo suficiente para os presentes tempos.



De preferência, que não tenhamos a necessidade de colocar o pé nesta apetecível e pacífica arca, mas, de qualquer forma, é bom saber que temos um poiso na praticamente inevitável curva exponencial de suicídio colectivo. A tomada de consciência ou foi ontem, ou não foi. E não nos enganemos mais. Não é catastrofismo, é o tapete encardido que estendemos para nós próprios. Cada um de nós, mea culpa.
Por fim – enquanto nada de definitivo resulta das nossas acções para pacificar a relação com o único habitat que temos, há que encontrar soluções urgentes e simbióticas. Esta mini-utopia é uma manifestação de que é possível coexistirem humanos e restante natureza no mesmo planeta. O exemplo é excelente – eco-friendly é possível. Felizmente, temos “hotéis-arca”: um sítio agradável para passar as mais longas férias da história da humanidade.
Todos a bordo!
Mais trabalhos no site do gabinete Remistudio, criador do projecto.
Nota: não confundir este projecto com um outro Ark Hotel, edifício anti-sísmico construído em Changsa, China
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comments powered by Disqusmario queiroz
Simplesmente espetácular, sem comentários.....
PauloDiaas
Bacana! Gostei do artigo!!
Pedro Simões
Olá Miguel, gosto da tua verbe, é solta, cinética e ao mesmo tempo objectiva, quase "obvious".
Parabéns pelo artigo.
Vou estar atento.
Pedro
Ana João
O Homem transformado em peixe a viver num aquário?
Esta possibilidade não me agrada muito, se o Homem não respeita o Mundo vai respeitar o Hotel? e quantos hotéis serão precisos para toda a gente entrar...o critério de selecção será um tanto ao quanto diferente daquele que fez Noé...
No entanto, é bom saber que os er humano é inteligente o suficiente para criar e reinventar a "sobrevivência" e fazer do habitat (mesmo que artificial) um local aprazivel.
Bom texto Miguel.
Marc3lo
sensacional.. como é bela a capacidade do homem de criar coisas tão lindas e usuais !
adorei o artigo!
Diego
Excelentes dicas !! Obrigado por compartilhar !! Grande abraço !
João
Olá,
esta arquitetura ficou linda e sensacional, espero um dia poder fazer uma dessas.
Pois serei um ARQUITETO.
até mais!
Sr Darci Ferreira Holanda
Admirando isso, percebo que ainda continuo "em busca das dimensões da adequação humana" (dfholanda,1986).
Verónica Daniel
Como designer que sou, tenho de saber apreciar como criticar.
Concordo que é uma boa invenção, será que tem sistema de reaproveitação e filtragem da água já usada?
E no caso de um furacão, estilhaços não partirão o tal artigo fino de nome complexo que substitui o vidro?
E o lixo? Seria depois deitado para a agua do mar? Icinerado?
Normalmente tudo o que é muito a frente, também tem os seus problemas de funcionamento...
Léo henrique
Bom, um projeto interessante, mas penso que seria mais interessante que nós propuséssemos meios para evitar estes transtornos, subida dos níveis dos mares e afins, mas no geral, um bom projeto, com embasamento e espessura.
Danórton Tadeu
Fantástico. Tenho algumas perguntinhas:
Quando sairá da prancheta. quanto custará a diária...
Granade Miguel, gostei do seu modo de escrever, objetivo, informativo e dinamico. Parabens.
vanka
claro que é possível... como sempre, somente para os milionários, para os donos do mundo não se sentirem culpados com a destruição do planeta... patético
Adriana
Excelente artigo, mas duvido que seja possível transformar tal idéia em realidade!