
Foto: U.S. Navy.
Foi-se o tempo em que a vestimenta militar era a peça central no guarda-roupa dos ditadores. De tão eloquentes e originais na maneira de vestir, acabam por criar para cada um a sua própria Era do Ouro da moda. As escolhas variam, e tendem a ser tão metódicas, rigorosas e extravagantes quanto a maneira de cada um governar: há quem chame ao estilo de revolucionário, mas também progressivo, retro e nostálgico. Se Carmel Snow fosse viva, exclamaria 'This is a new look!'. Enquanto Azzedine Alaia cobriria os seus olhos com Lycra.
E em se tratando de um novo look, nenhum ditador inovou tanto como Moammar El-Gadhafi, que está agora nas bocas do mundo pelos piores motivos. Um look também conhecido como 'dictator chic' no mundo ocidental. Com influências que vão desde Lacroix, passando por Liberace, Phil Spector (penteado) e Idi Amin, o chefe de Estado da Líbia é simplesmente despido de qualquer constrangimento ou pudor quando o assunto é moda.

Muhammar Kadhafi. Foto: U.S. Navy.
Suas escolhas, aparentemente norteadas pelas circunstâncias e ocasiões, não deixam de causar um certo efeito na platéia, pois são, acima de tudo, inesperadas. Em conferências africanas, ou na verdade quando lhe convém, ele segue a tradição do uso de dashikis e kufis bordados, cuja profusão de cores e combinação de tecidos e estampas nos remetem a um dos pontos altos da cultura africana - presença obrigatória nas passarelas internacionais nestes últimos anos.
Em momentos não menos efusivos, como encontros internacionais, ele encarna um espírito mais republicano com um uniforme formal que tampouco dispensa adornos, como a fotografia do herói libanês nacional al-Mukhtar. Óculos Ray Ban, condecorações que quase saíram de uma feira parisiense e chapéus para todos os gostos e estilos compõem a figura deste versátil déspota.
A mais nova tendência da moda incorpora elementos da cultura e política local, sem deixar de lado o carácter utilitário da vestimenta. Pelo menos é assim que Kim Jong-il gosta de imaginar a moda. Figura de destaque na longínqua Coréia do Norte, Jong-il nos últimos anos passou de homem mistério a fashion victim internacional. O seu guarda-roupa oscila entre conjuntos blaser e calça, jaquetas folgadas no vestir, sapato plataforma e óculos de sol. Um colete à prova de balas lhe garante toda segurança que o seu cargo exige, sem contar com a proteção contra mau agouro.

Robert Mugabe. Foto: U.S. Navy.
Desconstruindo a liberdade de imprensa e a moda tradicional, ditadores e líderes assumem a passarela global sem perder, cada qual, a sua identidade. Neste viés, o leitor nunca encontrará o líder Robert Mugabe, cujo conjunto de ternos acumulados vale milhões de dólares, vestindo um terno cuja gravata e lenço não combinem, independente do status do PIB, crescimento econômico e inflacionário que encontre a sua nação. Mas não só de terno vive Mugabe. Em momentos de pura descontração é possível encontrá-lo de boné. Este acessório que há anos deixou de fazer parte exclusiva da cabeça de jogadores de baseball americano.
Entre os ditadores latino-americanos, Hugo Chávez e Fidel (incluindo o irmão deste último, Raúl Castro), vemos repetir sem muita margem para criatividade o modelo "guerrilha encontra o mundo globalizado", com espaço para tradicionais uniformes verde-exército, ternos contidos sem gravatas Mickey e um toque do vermelho marxista para jamais esquecer. Enquanto Chávez procura estabelecer um certo vínculo com o seu povo vez ou outra por meio de camisas e camisetas vermelhas, Fidel desfila bonacheirão com os seus trajes esportivos para efeitos lounge. De acordo com Jeffrey Goldberg, Fidel é o rapaz que se parece com Fidel, se Fidel comprasse na loja L.L. Bean. De duas. uma: ou Goldberg não entende nada de Fidel, ou há mais sobre Fidel que uma guayabera ousa saber.

Hugo Chávez. Foto: Agência Brasil, licença Creative Commons Atribuição 2.5 Brasil
Comentários
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Bruno Carvalho
Considerar Hugo Chávez ditador, um dos políticos que mais passou pela prova das eleições, é de uma grande desonestidade. Se Hugo Chávez é ditador - apesar de os observadores internacionais reconhecerem os resultados eleitorais na Venezuela - então a maioria dos dirigentes políticos terá de ser integrada no mesmo lote.
Antonio Veras
Concordo com você Bruno. Existe uma "mania" de denegrir todos que são contrários à política externa Norte-americana.
Luiz Claudio Franca
Gostei do artigo, mas também preciso discordar quanto à inclusão do Chávez.
Deixo registrado que ele não tem exatamente a minha simpatia, mas é bom ver algum movimento para frear as oligarquias latinoamericanas. O ruim é que não consigo me esquecer do Chávez militar, que tentou um golpe há alguns anos.
Mas no momento ele está no poder pelo voto do povo - não há a menor possibilidade de chamá-lo de ditador. Aliás, no caso da Venezuela, o perigo foi uma guinada golpista de direita para derrubar o presidente eleito...
De resto, achei o texto muito bem escrito, com um fino humor!
Abraço!
Francisco
Será que o Rigoto (à esquerda do ditador) não perdeu as eleições aqui no Rio Grande do Sul por causa desta foto? Desta vez ele estava em má companhia...
Manel do Anzóis
Do Chavez já aqui falado, o mesmo pode-se dizer do Fidel!! Foi um libertador quando os USA tentavam fazer de Cuba um paraiso fiscal, repleto de droga, prostituição, jogo, e manobras militares...a própria Dilma também já foi guerrilheira, não a autora não a colocou no lote...
Edu Leopold
É bom ver reações contra o imperialismo americano, mas para engolir o Hugo Chavez é preciso fazer vista grossa para muita coisa.
Luiz Claudio Franca
Não se pode botar no mesmo balaio Fidel, Chávez, Dilma, Ahmadinejad e Kadhafi.
Fidel saiu do poder, mas sim, atuou como ditador após libertar Cuba do Fulgêncio Baptista, um ditador sangunário. Mas não gostei do Fidel ter se mantido todos esses anos no poder como um ditador.
Chávez foi eleito, e a eleição foi bem acompanhada por órgãos internacionais - diferente do Ahmadinejad, que fraudou as eleições.
Khadafy sempre foi ditador mesmo...
O caso da Dilma, é bom que se veja numa perspectiva histórica. Era época de uma ditadura bárbara aqui no Brasil - a guerrilha era uma forma de se opor a um golpe militar que tirou do poder um governo legítimo. A constituição do país foi rasgada por militares que juraram defendê-la. Ela e outros aqui no Brasil, como aqueles que resistiram com Allende no Chile, ou contra Salazar em Portugal, outros tantos na Argentina, tentaram resistir a uma ditadura. Insistir em Dilma Guerrilheira hoje, a não ser para discutir um momento histórico, não faz sentido.
Obrigada a todos pelos cometários. E pela possibilidade de discutir sobre este tema com civilidade.
É importante que fique claro que este se trata de um artigo sobre moda e que não foi possível incluir todos os ditadores ou se preferirem, governantes (extremamente) autoritários, desta vez. Bush ficaria bem na lista, porém cá pra nós, o seu guarda-roupa não traz nada para ficar. ;)
De qualquer forma, verifiquei no dicionário o termo 'Ditadura', para refrescar, se é que me entendem:
1 governo autoritário exercido por uma pessoa ou um grupo de pessoas, que tomam o poder desrespeitando as leis em vigor, com supremacia quase absoluta do poder executivo, apoiado pelas forças armadas, e com o poder legislativo inexistente ou enfraquecido e subordinado ao poder do(s) ditador(es), o mesmo acontecendo com o judiciário, e onde ger. não há estado de direito, imprensa livre, liberdade de associação, de expressão, nem eleições livres e regras claras de sucessão
2 Derivação: por extensão de sentido.
qualquer sistema de governo em que não sejam respeitadas as liberdades individuais
3 Derivação: sentido figurado.
excesso de autoritarismo; tirania, despotismo
Realmente, NADA disso está em curso na dictasuave ou democradura de Chavez.
Encerro com o Caetano, já que música faz sempre bem para os ânimos e humores e balaios de gato:
"será que nunca faremos senão confirmar
a incompetência da américa católica
que sempre precisará de ridículos tiranos?"
Isabella
Bruno Carvalho
Isabella, é com agrado que a vejo insistir no erro tentando dizer que, afinal, era uma metáfora. Com agrado porque alguém que tenta justificar os erros com esse tipo de respostas não pode ser mais do que um escritor de ficção. E eu que sou um jornalista que dá muito valor à verdade prefere aqueles que não se encerram nas metáforas para lançar mentiras.
Com todo o respeito, e sem a pretensão de ser insultuoso, digo-lhe que Hugo Chávez não cabe sequer no seu sentido figurado. Hugo Chávez não é autoritário, não é tirânico e não é despótico. Conheci poucos líderes eleitos pelo povo na América Latina que escutassem tanto os que o elegeram. Conheci poucos que aceitassem submeter-se a todo o tipo de referendos, incluindo o que foi convocado para o tirar do poder. Conheci poucos que tivessem usado as riquezas do país para as pôr ao serviço dos mais pobres.
Não me cabe fazer propaganda a Hugo Chávez, deixo-o aos chavistas. Mas sendo objectivo tenho de reconhecer que os dados económicos e sociais revelam uma queda abrupta da pobreza, do analfabetismo, da falta de assistência médica.
A América não precisa de tiranos ridículos e também não precisa de quem confunda o povo sobre quem são os verdadeiros tiranos.
Antonio Das Ambujas
Excelente texto! Muito bem escrito, humor fino.
Parabens!!!
Falando nisso, achei esse video do youtube do Fidel e do Hugao sigurando uma pica muito engracado:
http://www.youtube.com/watch?v=a4RIJQVgbn8
Julio Pinheiro
É impressionante como existem pessoas que não querem ver o que está na sua frente, como é o caso do ditador venezuelano. Uma figura que tomou o poder na marra, pareceu que iria ser um defensor do povo, infelizmente ficou igual à todos os outros que apareceram na humanidade. Está acabando com seu país, tudo por um orgulho idiota. Eu não morro de amores pelo americano, mas vamos e convenhamos não é atoa que são os primeiros do mundo. Conheço 75% do planeta, e se não fosse o capitalismo muitos paises estariam na merda. É terrível, mas agradeço por esse mesmo capitalismo ter me ajudado a ver que esses miseráveis como o ditador líbio daqui a pouco, com suas roupas de palhaço estará detonado. Faltam o do Irã, Coréia do Norte e outros mais. Que todos eles vistam a mortalha que é a única indumentária que todos merecem e de quebra, que levem os seus fãs.
Manel dos Anzóis
Caro Júlio, é incrivel como alguém que conhece 75% do planeta ainda pense assim...eu sou europeu (não por opção)e vejo nos povos da América Central / Sul a solução para uma vida e um planeta melhor...o capitalismo é a ruina de todos nós...
Luiz Claudio Franca
Vamos aos fatos: Hugo Chávez foi eleito pelo povo venezuelano, em eleições acompanhadas por vários organismos que a aprovaram. Se ele é o melhor para a Venezuela, isso só os venezuelanos podem decidir.
Toda a história da intervenção americana no Iraque foi prá lá de esquisita. Mentiras, favorecimentos etc etc etc, tudo digno de uma república de bananas (aliás, de onde veio a velha United Fruit mesmo?).
Muita gente ganhando dinheiro - aliás, é o que de melhor a administração americana faz.
Não se pode misturar as coisas: Hugo Chávez, Dilma, Evo Morales são uma coisa. Ahmadinejad, Fidel, Kadhafi, Kim Jong Il são outra coisa bem diferente!
De que adianta ver muitas coisas se pouco é compreendido?
cisco
Proletários de todo o mundo, uni-vos!
Tá na hora de virar esta tropa toda!
Guilherme Almeida
Considerar Hugo Chavez democrático e popular e tão hilário quanto a China que se entitula "República Democrática Popular" ou então ficar em uma fila de banca de jornal em Havana, ancioso por apanhar o folhetim de Fidel para usá-lo no banheiro, haja vista que o papel higiênico por lá custa a bagatela de US$4,oo (unitário).
Me preocupa ver que existam pessoas que acreditam nisto, bem como em meu país, onde o povo acredita que seus governantes são bons por distribuirem "Bolsa-Esmola", ao invés de incentivar a cultura e educação.
Para os governantes mundiais quanto mais burro melhor!
Aqueles que pensam e podem escrever artigos inteligentes e com certo tom de humor, merecem destaque e devem se unir para tentar mudar algo.
Parabéns!!!
rubens cardoso
O texto é muito bem humorado e o nível do debate é bom. Eu não me engano quanto ao Hugo Chávez. O "guia" do povo venezuelano joga o jogo democrático porque não tem opção diante da pressão da dita comunidade internacional. Acho que o personagem tem vocação ditatorial do tipo prende e arrebenta. Engane-se quem quiser. Não gosto de quem gosta de impor a felicidade a um povo nem que a vaca tussa.
Nesse caso, viva a democracia com todos os seus defeitos!
Manoela
Bruno Carvalho, seu comentário merece aplausos. Eloquência e sensatez únicas, coisa de quem consegue enxergar além dessa Matrix que é a nossa mídia e sua massa de manobra.
Abraços
Paulo Luiz Mendonça.
O ser humano.
O poder, é algo perigoso nas mãos de um ser humano, isso logo o transformará em um perigoso predador.
Nunca dê a um ser humano poder absoluto, se o fizer estará criando um ganancioso e tirano ditador.
A ganância humana é ilimitada, por este motivo não podemos confiar em ninguém nem abaixo nem acima da linha do equador.
O ser humano e tão perigoso e imprevisível, que nos leva até a ter cuidado conosco mesmo.
Não se engane com pobre ou retirante, o poder, fatalmente o fará negar em pouco tempo sua origem humilde.
O ser humano, particularmente no Brasil será pobre e descamisado, somente até o dia que a vida lhe sorrir e ele subir a rampa.
O caminho do progresso é como uma escada, cujos degraus são nossos semelhantes. Não há como não apoiar neles para subir.
Não existe eu, existe nós, porque ninguém conseguiria viver neste planeta bastando-se a si próprio.
O eu é tão falho e egoísta que se não fosse por outros semelhantes, eu não teria nem nascido, portanto, nossa dependência começa na cópula, e termina nas mãos calejadas dos coveiros.
Nossa vida pode ser explicada de uma maneira bem simplista, mal comparando, ao nascer saímos de um buraco e ao morrer terminamos entrando em outro que é a cova no cemitério.
Nós humanos pertencemos a um todo, que se chama humanidade, portanto para o nosso bem, não deve haver nenhum tipo de individualismo. Se todos egoisticamente se individualizassem seria fatalmente o fim da raça humana na terra.
Paulo Luiz Mendonça.
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