
Com um pessimismo implacável, Orwell retrata o desespero humano no universo da distopia, recriando um totalitarismo que submete e controla a sociedade, em que a liberdade dá lugar à anulação do indivíduo e a linguagem é manipulada de forma a estruturar os pensamentos e percepção que cada indivíduo tem da realidade.
“Tornar impossíveis todos os outros modos de pensamento”, eis o perfeito mecanismo de controlo, elaborado pelo estado totalitário, que Eric Arthur Blair (1903-1950), o pseudónimo literário de Orwell, retrata em 1984. Mas como é que se consegue manipular os nossos próprios pensamentos, algo tão interior e difícil de ser escrutinado por quem nos é exterior?
Antes de mais, imagine um país onde existem os ministérios do Amor, da Paz e da Verdade. E, ainda, um líder que se denomina de “Grande Irmão” (Big Brother, na versão original). Este é um cenário quase idílico, quiçá saído de um conto de fadas. Contudo, já se sabe que as aparências enganam e que as palavras podem ludibriar, escondendo a realidade.
Não é de admirar, portanto, que no mundo sombrio que Orwell delineou o Ministério do Amor tenha, afinal, a missão de espiar e manter sob controlo apertado a população, com o Ministério da Paz a zelar pela manutenção da guerra, enquanto o Ministério da Verdade censura e manipula (altera) toda a informação e literatura que circula – bem ao jeito de “o que ontem era verdade, hoje é mentira”, e assim criando o mito de que o Estado está sempre certo naquilo que decide e faz.

Liberdade? O que é isso?
Quanto ao Grande Irmão, cuidado com ele, pois na verdade mais não é do que um ditador omnipresente e vigilante – aliás, a propaganda do estado bem avisa que “o Grande Irmão está a observar-te” (Big Brother is watching you).
“Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força”. Eis o principal lema do Grande Irmão. Ao exaltar tanto a guerra como a ignorância e ao desacreditar a liberdade, pretende-se esconder os verdadeiros conceitos que lhes são intrínsecos – a guerra é destruição, a liberdade é força e a ignorância é escravidão. A realidade acaba por ser distorcida e reconstruída, ajudando a perpetuar o status quo e o poder de quem exerce o controlo absoluto. Maquiavélico, relativamente eficaz, mas ainda assim com algumas lacunas.
Eis por isso, e indo ao encontro da visão “orwelliana” de que nenhuma forma de controlo é impossível, que o estado totalitário de 1984 vai desenhar e impor uma linguagem artificial e minimalista – a Novilíngua –, destinada, em grande parte, a suprimir diversas palavras e expressões, assim como muitos dos conceitos que lhes estão associados.
Usando um pouco do hocus pocus da censura, a palavra liberdade, por exemplo, acaba por ser suprimida do vocabulário, pelo que as gerações futuras jamais conhecerão e compreenderão o próprio conceito de liberdade, a essência de pensamentos e actos que estão adstritos a esta palavra. Eis como se fabrica um novo mundo... que dispensa a liberdade.
Basicamente, a Novilíngua actua como um mecanismo perfeito que limita e aprisiona o intelecto do indivíduo, funcionando como arma de controlo sobre ele, num domínio que não necessita do uso da força para prevalecer, já que os cidadãos nunca terão consciência de que estão a ser manipulados e reconstruídos a partir do seu interior.

Adolf Hitler foi extremamente hábil em usar a rádio para difundir os seus discursos de propaganda, construindo ideias e "verdades" que serviam os interesses da ideologia nazi.
Mentiras que soam a verdade
Em 1947, o alemão Victor Klemperer (1881-1960) publicou A linguagem do Terceiro Reich, livro no qual denuncia, detalhadamente, a forma como o partido Nazi controlou os alemães… controlando precisamente a linguagem.
O que Kemplerer fez, muito simplesmente, foi estudar a forma como a propaganda Nazi alterou a língua alemã, de modo a que os alemães assimilassem o Nationalsozialismus (a ideologia Nazi). Tal como escreveu no seu livro:
“[O] nazismo permeou a carne e o sangue das pessoas através de palavras, idiomas e sintaxes que lhes foram impostas num milhão de repetições, as quais foram interiorizadas de forma mecânica e inconsciente […]. A linguagem não é algo que simplesmente escreve e pensa por mim; também dita, de forma crescente, os meus sentimentos, ao mesmo tempo que governa todo o meu ser espiritual […]. As palavras podem ser como pequenas doses de arsénico: são engolidas sem se dar conta, aparentam não ter um efeito, mas eis então que, após algum tempo, a reacção tóxica instala-se de uma vez por todas.”

Para Michel Foucault, aquilo que consideramos como "a verdade" mais não é do que uma construção, sendo que ela emerge daquilo que é dito e escrito em determinados contextos históricos.
Tal como caucionou o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), a produção do discurso (da linguagem) está relacionada com as próprias técnicas e dispositivos de poder. No entanto, as palavras são muito mais do que um mero meio para atingir um fim, pois o discurso é em si um poder: “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas é aquilo pelo qual e com o qual se luta, é o próprio poder de que procuramos assenhorear-nos”.
Eis o poder das palavras, uma força tão poderosa que levou George Orwell a temer pelo futuro, pois são elas que dão forma aos nossos pensamentos. Tal como chegou a descrever, a linguagem pode ser usada “para fazer as mentiras soarem como verdadeiras, o assassínio respeitável ou para dar a aparência de solidez ao puro vento”.
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comments powered by DisqusPedro Varela
Com olhar sociológico do Foucault o autor do artigo complementou ainda mais a excelência do artigo, os meus parabéns
Pedro
É incrível o poder das palavras tanto para nos mostrar como para nos esconder, quase sempre prefiro ler o que não esta diretamente no texto
Pedro
Orwell(1984) e kafka (o processo) dois livros para se pensar e pensar
PortoMaravilha
Excelente artigo que foca o essencial do texto de Orwell. Concordo : O texto de Orwell é uma reflexão sobre a língua. E a alienação.
Penso que o artigo tem razão em lembrar, a alienação, a partir da língua.
Guimarães Rosa em "Grande Sertão Veredas", brinca com a língua, criando um mundo novo, enraízado na língua e metáforas do passado ( romance de cavalaria, diadorom, etc. )
Uma anti-alienação, pois.
Sem linguagem não há pensamento. Parece-me evidente ; E Orwell é, para mim, uma leitura que continua a ser uma leitura de referência.
Todavia : Afastando-se Foucault, que nunca foi muito claro quanto ao desempenho do surrealismo ( o que não invalida o que escreveu sobre a loucura ), não deixa de ser questionante que o rapp, os fic, os slam... são uma novlíngua que, com outros suportes, não é redutora, quando à redução do pensamento humano.
Não sei. É algo que me questiona. E que é contradictório !
Nuno
PortoMaravilha
No meu último comentário,já que citei Guimarães Rosa,esqueci-me, completamente, peço desculpa, de apontar para um facto importante. Nas edições Olympio, a obra do referido escritor remete no final para o símbolo do infinito. Tal já não é caso com a editora nova fronteira que não apresenta o símbolo do infinito.
Se o debate é a Novlangue, não deixa de ser interessante ( maneira de escrever ) que edições mudem configurações : quer da capa da obra quer do texto... É que, quanto G. Rosa, quanto a mim, o texto perde muito sem essa referência ao símbolo do infinito que não é nem positivo nem negativo.
Nuno
Clóvis Santana
Eis o "vernáculo"... O verbo. A literatura bíblica nos diz que "a palavra mata mas o espírito vivifica". Da obra, 1984, então surgem várias questões envolvendo as significações e os sentidos que se atribuem à realidade atual. Então surgem mitos, conspirações e questinamentos quanto nossa realidade e nossa liberdade. Agora, porque se atribuem tantas teorias baseadas em obras que publicam periódicamente. Tantos prognósticos não são feitos basicamente em decorrência de livros publicados como em 1984, Os senhores do mundo e tantos outros. Cito aqui o livro Caos. Esse sim me causou estranhamento e, assim como também com um dos personagens da obra, um frio na espinha. Para onde caminhamos e o que podemos conceituar como verdade? Se nos comunicamos através, basicamente, do conceito que temos da coisas e do mundo. Todavia, mesmo se tratando de uma distorção da realidade que se julga antecipadamente, o que existe de real nisso? Nossa realidade está mudando e o que temos visto pode ser uma manifestação de uma realidade que nos torna cegos em não querer vê-la. Buscar elucidade e extrair a verdade de tudo quanto se lê é a forma mais inteligente de se assegurar de uma possível realidade que não se percebe que pode nos tirar a liberdade. Se em todos os contextos históricos a humanidade foi capaz de lidar com seus demônios (aqui trascrevo com o sentido do grego, de conhecimento), seus conhecimentos, de certa forma, os enganaram em suas previsões que ocorreram. Sumiços da noite para o dia de civilizações inteiras e a extinção de populações que ocorreram do nada... como a ciência não explica isso de forma coerente até hoje? São tantas questões que envolvem o ser humano em busca da verdade que garante liberdade que ele perece em sua antecipação da pior das realidades que poderá sobrecair à humanidade. Temos loucos na história que nos mostra isso e temos os piores conflitos religiosos ainda acontecendo no mundo. Então, como se pode garantir a liberdade quando se morre uma língua ou quando se unifica nações. Caminhamos para isso. Os pensamentos são vagos, a cultura morre gradativamente, o que seria ser crítico na atualidade das informações desencontradas e da cultura do tédio? Haverá alimentos para mais de 7 bilhões de pessoas no mundo? O banco mundial não resistirá a mais uma crise mundial... Mas nada disso, "eles" subirão ao norte através da democracia... o peixe morrerá pela boca.
Clóvis Santana
Aí que absurdo!
Aí que loucura! Que encerramento de texto confuso e sem nexo.
Yuri Righi
1984 é um livro para se pensar, e muito!