Quando não há despedida

Graciliana tinha uma tristeza que tomava conta das ideias grandes e pequenas. E que circundava o quintal e a bicharada igual dia abafado e denso. Ela não falava da tristeza pros filhos de modo que cresceram achando que ela tinha aquele ar seco e taciturno por causa da pouca comida e das dificuldades do lugarejo.



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Então assim se diz que foram felizes. Os filhos. Uma alegriazinha contada que repartiam para dar um pouco todo dia, deixando sobras para aniversários e quermesses. 

Quase não se via que no arregalo maior da noite Graciliana chorava seco. De não cair nem uma lágrima. Vinha segurando o coração na mão desde que o marido sumira nas terras do João Alabastro. Há coisa de alguns anos. Elas, as mãos, tinham o aspecto de fruta seca, vestígio de ameixa ou uva-passa, que o patrão dele enviara de presente no dia do Bom Jesus, em uma época de fartura e fazer filhos em cangote de cavalo. 

Tiveram sete. Dois se foram antes do primeiro ano e eles enterraram nos fundos do cemitério para não pagar o lote que custava dinheiro de um ano de trabalho. Outros sobreviveram coisa de sete estrelas e depois, já meninotes, morreram de pneumonia, tuberculose e raiva. Cada um com a sua sina. Sobrou uma menina, a Ingracia; e um menino, o Graciliano. Quando pequeno, menor que uma roseira, adorava segurar a mão da mãe e apertar a pele cheia de veias e dobras. Andava atrás dela feito bezerro que não quer desmamar. Numa insistência custosa. Graciliana não ligava e tocava os seus afazeres devota, sem emitir um resmungo. Sem entoar uma reza.

A força da paisagem selvagem exercia um peso sobre a vida da família. Eram os bichos ou eles. O calor ou o de comer. Vida e morte em constante entrave. Quando Graciliano adoeceu, o bando todo ficou à guisa do pior, beirando a cama dele em turnos de três em três horas, marcando o tempo como as estações marcam o ano.  A tosse havia sugado todo o  pulmãozinho dele e o lábio roxo aflito causava aperto.

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O pai fez das tripas coração. O seu repertório de simpatias dava para curar o povoado e mais quem fosse. A primeira que tentou foi a do gato. Tinha que cortar as unhas da mão direita com unhas do pé esquerdo do menino e colocá-las dentro da boca de um peixe, costurar e dar para um gato comer. E vigiar o gato era crucial. Vigiar como quem vigia uma presa. Mas não encontraram gato nenhum, batendo desânimo geral.

Nos idos da semana alguém se lembrou do benzedeiro. E tinha o cabrito amarrado no portão. Parecia coisa armada. Graciliana recolheu aquele monte de bola seca que o bicho dispensava sem esforço algum, já quase sem cheiro, e levou pro homem do povoado vizinho. O Seu Mequelelem era conhecido pelos seus patuás. Costurava como quem reza com fervor e a relíquia que criava tinha poderes. Assim dizia e não se contestava. Ele vivia numa cabana escura com um fio de luz pendurado no meio. Era quase aquilo, imagina, um fio de luz do céu no meio da casa. Comia aquilo que traziam, forma de pagamento, e não passava miséria. Tinha ares grandes, modo que Graciliana o olhou de soslaio, com respeito. Ela esperou do lado de fora. O sol rachava a terra e um pouco d'água, resto de chuva, evaporava penosa.

O menino passou as noites seguintes com o patuá apertado na mão, segurando com força como quem tem a vida por quase nada. A tosse ia e vinha, ia e vinha. Às vezes tentavam lhe tirar a relíquia da mão, temiam que o suor pudesse afetar o efeito, mas quem disse. Esperança tem quase tronco na gente. E a Ingracia, era ela quem passava as tardes com ele quando a mãe não podia, numa saudade tamanha da companhia do irmão lá fora. Trazia pedrinha e pena de pássaro, inclusive o estilingue bem do lado dele na cama para ele não se entregar e se esquecer da alegriazinha que eles tinham de cuidar.

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Foi na sexta-feira Santa com o menino quase bom. O pai mais calado do que nunca teceu a última simpatia do ovo e da galinha. Era como voltar as origens. Graciliana sentiu o ar úmido e imaginou que o sal estava a formar pelotas. Nuvens cinza tomavam o céu no meio-dia. Chamou o marido que de longe fez sinal para ela entrar. Em seguida apareceu com o ovo na mão. Com cuidado fez um furo de prego no ovo e ali depositou as unhas do Graciliano. Pendurou o ovo num alpendre e entrou. Ingracia queria saber. Ficou olhando o ovo pendurado balançando com o vento. Passou horas assim. Arregalava o olho quando achava que ia cair. Bocejava quando nada acontecia. Agora o ovo e o seu conteúdo precisava secar. E secando, secava também a tosse. Pondo fim naquela angústia. 

O pai foi embora semanas depois. O menino já estava bom. Ingracia tinha voltado à rotina de futucar terra e ninho de passarinho. Ninguém não viu a hora, ficaram sem a partida. Graciliana  acordou com metade da cama fria. A bota não estava na porta nem o chapéu. Imaginou coisa de saída rápida. Andança pela redondeza, mas no fundo sabia pois que sentia um aperto seguido de um vazio. Quando as crianças perguntavam do pai ela dizia que tinha ido fazer serviço nas terras do João Alabastro. Na cabeça das crianças virou serviço grande e importante. E faziam planos pra quando ele voltasse, até que devagar já não o mencionavam mais. Graciliana entrou num estado de saudade aguda de um tempo que eram só os dois. Às vezes sonhava com ele e o choro que se seguia era primitivo.

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Fontes das imagens: 1.

isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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