O clássico de uma década: o rock de Is This it

Abrindo a porteira para a onda retrô que tomou de assalto a década passada, o disco de estreia do Strokes vai muito além de uma construção midiática. Ele representou a volta às origens do rock e recolocou o ritmo revolucionário no topo da música pop.


the strokes musica rock

Peço permissão para começar este artigo com um pequeno relato pessoal. Desejo que, a despeito da tortuosa alusão ao acontecimento, no fim eu possa ter sido feliz na escolha da analogia - é que eu passei dias pensando na maneira de começar este texto, e esta me pareceu a mais honesta.

Em 2002 eu e mais alguns amigos fomos expulsos de uma requintada festa de "15 anos". Isso aconteceu porque esvaziamos a boate da festa por dançarmos loucamente Hard to Explain do Strokes. Pais, tios, tias, avós ficaram horrorizados com a nossa audácia. Fomos carregados até a porta da casa de eventos pelo colarinho e despejados na calçada. Lembro que um de nós teve o óculos quebrado e um pequeno corte no rosto. Nada muito grave. O sangue manchou-lhe a gravata apenas, mas ele pouco ligou. Foi ele que puxou o coro: "I'm too young, and they're too old!".

Too young. Tínhamos, se muito, 18 anos incompletos. Estivemos presentes na festa por uma conjunção de falta de vergonha na cara e espírito roqueiro. Queríamos escandalizar aquela festa tola e conservadora. "Que se dane a valsa", eu bradei. Todos estávamos devidamente arrumados e bêbados - uma esquina antes tratamos de secar duas garrafas de vodka ordinária como se aquilo fosse refresco de manga. Um amigo tinha no bolso uma cópia do Is This It. Com muita determinação, conseguimos que o DJ colocasse uma faixa do disco para tocar: foi quando deitamos a boate abaixo.

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Saindo do particular para o universal, creio que muitos jovens no começo da década passada fizeram suas pequenas transgressões tendo as onze canções deste disco como trilha sonora. Incansável, o rock tinha revivido de novo - para o bem de todos.

O quinteto nova-iorquino The Strokes foi o primeiro fenômeno musical do século XXI. Quem tinha um computador e um modem razoável no começo do século - e estava ligado às novas maneiras de compartilhar música pela internet: mp3, Napster... - teve o privilégio de acompanhar quase que simultaneamente os capítulos que transformaram o Strokes de banda promissora a fundamental dentro do mundo pop atual.

Desde os primeiros singles (The Modern Age foi considerado "single da semana" pela londrina New Music Express em janeiro de 2001) até o primeiro disco, que superou em pedidos antecipados o All That You Can't Leave Behind, novo álbum do poderoso U2. Tudo se podia saber daquela estranha novidade amparada por dinossauros do rock - ouvindo qualquer uma de suas músicas, podíamos perceber as claras influências de Stooges, Velvet Underground, Kinks e Television, mas nada soava datado, pelo contrário. Nada mal para as paradas de sucesso tomadas por baladas, nu-metal e música eletrônica.

Um amigo historiador, anos depois, me contou empolgado que se esse tipo de música se refletisse na juventude, teríamos de volta aquele espírito revolucionário dos anos 60 e 70. Bom, ao menos esteticamente isso aconteceu, sem dúvida. O visual da banda foi imitado à exaustão pelos jovens, e essa a volta estética ao passado virou o espírito da década. Não sei o quanto isso se deve ao Is This It, talvez nem seja o caso de encará-lo como deflagrador desta "volta para o futuro", mas sim como um raio-x desse estranho momento histórico.

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O fato é que nenhuma dessas especulações faria sentido se o disco não fosse realmente bom. Se suas músicas não fossem poderosas o suficiente. E neste caso nenhuma canção do álbum soa menor. Se Hard to Explain, Last Nite e posteriormente Someday foram escolhidas como as canções de trabalho, não podemos tomar por isso que o resto das canções cumpre tabela.

Tomemos como exemplo a poderosa Barely Legal, com seu refrão pulsante; tomemos como exemplo o balanço melódico de Soma ou mesmo a agressividade e o barulho de NYC Cops. E ainda há The Modern Age, Alone Together... O entrosamento entre um baixo pesado, guitarras cortantes e uma bateria vigorosa (como poucas nos últimos anos) fez o paredão musical para Julian Casablancas cantar as agruras e os prazeres dos jovens das grandes cidades. Difícil não se identificar.

Is This It foi considerado por muitas revistas especializadas o disco da década. Se você teve entre 16 a 24 anos no começo dos anos dois mil, sabe que isso está longe de soar como armação ou bajulação midiática.

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Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
Saiba como escrever na obvious.
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