Alexander Rodchenko: o dever de experimentar

Suas obras e influências continuam vivas nos dias de hoje. Alexander Rodchenko era um mutante. Fotógrafo, escultor, pintor, designer. Sua versatilidade expressa bem o que foi a época em que viveu: uma conturbada cena política e social. Mesmo anos após a sua morte, podemos encontrá-lo por todo o lado: de capas de álbum a campanhas presidenciais.


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Pesquise sobre Alexander Rodchenko (1891-1956). Este texto não terá espaço suficiente para contar tudo. Você verá coisas como “Rodchenko mudou a fotografia”, “Depois de Rodchenko a arte moderna não mais foi a mesma”, “O design gráfico antes e depois de Rodchenko”. Leia cada notícia. Valem a pena. Rodchenko realmente mudou o espaço da arte.

“Nosso dever é experimentar”. Este era seu slogan. Figura central do construtivismo russo, ganhou notoriedade pelo uso da composição diagonal na fotografia, com ângulos extravagantes, muito de baixo ou muito de cima, jogos de sombra e luz. Imagens perturbadoras da sociedade soviética, numa altura em que 70% da população não sabia ler nem escrever e a fotografia se tornou um meio poderoso. Um viés crítico à estética do realismo socialista. Ora retratados com louvor, ora com certa ironia. Antes do construtivismo nenhum movimento da arte moderna tinha colocado a função social da arte como uma questão política de forma tão explícita. Os construtivistas defendiam que a arte deveria ter um papel prático, socialmente útil, como uma faceta da produção industrial. A produção de máquinas, a engenharia arquitetônica e os meios gráficos e fotográficos estavam muito ligados ao construtivismo, que acreditava que o artista podia contribuir para suprir as necessidades físicas e intelectuais da sociedade.

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O termo construtivista foi introduzido pela primeira vez por Kazimir Malevich (pintor abstrato e mentor do suprematismo, que teve grande influência nas primeiras obras de Rodchenko) para descrever o trabalho do artista. Sua proposta inovadora teve repercussões em toda a arte moderna. Rodchenko trabalhou com a pintura durante anos. Até que as fotomontagens dos dadaístas alemães chamaram sua atenção, a ponto de ele começar suas próprias experiências e dar início à sua jornada na produção gráfica para cartazes, livros e filmes. Seus incomuns trabalhos publicitários e comerciais foram o estopim para uma era de inovação gráfica.

Em sua obra publicitária, Rodchenko teve parceiros importantes, com Dziga Vertov, cineasta e jornalista precursor do cinema direto – um gênero documental que visa tratar a realidade tal qual como é. E também Vladimir Mayakovsky, de quem ilustrou um poema. Destes trabalhos resultou uma parceria revolucionária no design e no layout de jornais.

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Certa vez, Rodchenko declarou: “Parece que somente a câmara é capaz de refletir a vida contemporânea” e, assim, assumiu a arte da fotografia. Suas primeiras fotos não passaram do casual: uma pequena casa de madeira no meio rural, retratos de seus amigos... Mas os anos passaram e ele ficou obcecado por ângulos. Artisticamente suas imagens eram um trunfo, mas politicamente eram mal julgadas. No início dos anos 30, as autoridades soviéticas deixaram de precisar de uma personalidade. Queriam pessoas que fossem direcionadas. Disse Olga Sviblova, curadora de algumas exposições de Rodchenko pelo mundo: “ele insistia em fotografias individuais de forma individual”, recusando se encaixar naquela categoria. “Quero fazer fotos incríveis, nunca feitas, da própria vida, absolutamente reais, fotografias simples e complexas ao mesmo tempo, que espantarão e arrebatarão as pessoas. Preciso realmente fazer isso. Assim valerá a pena trabalhar e lutar pela fotografia como uma forma de arte”, escreveu Rodchenko em seu diário em 14 de março de 1934. Sua primeira exposição de fotografias, na Rússia, e o primeiro passo para restabelecer sua reputação como fotógrafo só vieram em 1957, um ano após a sua morte. Mestre em sua arte, Rodchenko acabou sendo perseguido pelo sistema, acusado de formalismo e enfrentando dificuldades financeiras. Só 50 anos depois de sua morte Sviblova presenteou o mundo e o próprio Rodchenko com sua primeira exposição individual.

Ainda hoje as artes e a propaganda recuperam esse legado de Rodchenko. Dois exemplos: o retrato mais divulgado na campanha de Barack Obama para presidente em 2009 - um pôster com seu rosto nas cores vermelha, azul e branca, da autoria Shepard Fairey - tem uma iconografia com influência clara do construtivismo de Rodchenko. E a banda Franz Ferdinand tem duas capas inspiradas em seu trabalho, para além de o vídeo do single “Take me out” trazer ícones famosos do movimento construtivista. Rodchenko vive.

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mariana carrillo

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