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Eduardo Souto Moura: os sonhos inventam-se.

publicado em arquitetura por | 12 comentários

A sua arquitectura não é óbvia, frívola ou pitoresca: está imbuída de inteligência e seriedade, requer um encontro intenso, em vez de um olhar rápido. Como a poesia: tem a capacidade de comunicar emoções àqueles que despendem tempo para escutar.

eduardo souto moura premio pritzker arquiteto estadio
foto: © Francisco Nogueira

Os seus edifícios apresentam uma capacidade única de conciliar, simultaneamente, o poder e a modéstia, a coragem e a subtileza, a ousadia e a simplicidade. Estas foram as palavras utilizadas pelo júri ao anunciarem o nome do vencedor do Pritzker Prize 2011 - considerado o Prémio Nobel da Arquitectura. É português e chama-se Eduardo Souto Moura (1952).

Formado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, Eduardo Souto Moura iniciou a sua carreira no atelier de Álvaro Siza Vieira. Em 1981, recém-formado, surpreendeu a comunidade dos arquitectos ao vencer o concurso do projecto do Centro Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, no Porto, que viria a lançá-lo, dentro e fora de Portugal, como um dos mais importantes arquitectos da nova geração. O seu reconhecimento internacional foi reforçado com a conquista do primeiro lugar no concurso para o projecto de um hotel na zona histórica de Salzburgo (1987).

Diz-se que, na sua carreira, existem duas fases: uma mais próxima de Mies van der Rohe, e outra, mais cénica. Sobre esta questão, Souto Moura confessa que essa mudança talvez faça parte de um processo natural: passou anos a trabalhar escalas pequenas e a usar uma determinada linguagem. O urbanismo é um mundo diferente: os instrumentos que usava até então já não davam resposta; as inibições, as censuras e as manias deixam de fazer sentido com a idade, confessa o arquitecto. Sentiu, então, que não fazia sentido continuar a alimentar a assumida fobia de fazer portas e janelas.

Agrada-lhe a tensão entre o natural e o artificial, como se houvesse uma continuidade, e define a arquitectura como arte social, um desafio sem meio-termo, algo que, quanto melhor é, mais disponível pode ser. Nunca foi, contudo, a paixão da sua vida: se não fosse arquitecto, seria muitas outras coisas. A arquitectura “é uma profissão interessante, mas os arquitectos são todos obstinados e obcecados. Nós temos a possibilidade de alterar o mundo, para melhor” (entrevista ao Jornal Sol).

Acredita que os sonhos se inventam e confessa-se um homem com muitas dúvidas, que acredita numa osmose universal, numa energia: “Tenho um sentimento mais tipo Sísifo, da falta do sentido das coisas” (entrevista ao Jornal Sol). É um contador de histórias, simples e directo, gosta de contradições, de inquietude e da palavra “desassossego” de Fernando Pessoa. Para si, as obras têm que ser simples, sem serem simplistas, e belas, sem serem apenas bonitas.

Diz-se obstinado e adora fazer casas porque as considera o melhor laboratório para ensaiar soluções. Compara os arquitectos aos médicos e aos padres: conhecem as regras de intimidade. Para fazer uma casa precisa saber de que móveis gosta quem a vai habitar, quem se levanta primeiro, onde comem e, na garagem, qual o carro que fica atrás ou à frente: “As casas estão acima das pessoas, são intemporais. E isso é a lei universal da arquitectura” (entrevista a Notícias Saint-Gobain Glass).

eduardo souto moura premio pritzker arquiteto estadio
foto: © Luís Ferreira Alves

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foto: © Luís Ferreira Alves

Das suas obras, a que destaca como preferida é uma obra única, fruto do encontro entre diversos saberes e talentos e que motiva excursões de arquitectos e engenheiros vindos de várias partes do mundo. Encaixado numa antiga pedreira, o estádio do Braga, o AXA (2000-2003), é uma das obras incontornáveis de Souto Moura e o mais carismático dos estádios que foram construídos aquando do Euro 2004. Para se inspirar, visitou estádios de Sevilha, Bari e Paris e discutiu com a UEFA. Considera-a a sua obra mais completa: do ponto de vista de intervenção paisagista; de coerência de linguagem; do sistema construtivo e de material, e pelo desenho de pormenor e rigor: “Toquei em todas as teclas necessárias, em todos os pontos arquitectónicos” (entrevista a Jornalismo Porto net).

Sobre o conceito de “sustentabilidade”, é peremptório: define-a como “uma variante da má arquitectura, um problema dos maus arquitectos, que se preocupam sempre com temas secundários.” Para si, a arquitectura, para ser boa, já é, implicitamente, sustentável: “Nunca haverá uma boa arquitectura que seja estúpida. Um edifício em cujo interior as pessoas morram de calor, por mais elegante que seja, será sempre um fracasso. Não se pode elogiar um edifício por ser ‘sustentável’. Seria como elogiá-lo por ficar de pé” (entrevista ao El Pais, traduzida por Parq Magazine).

Aos prémios, olha-os como motivação. Da sua lista de galardões constam já o Prémio Pessoa (1998), o Prémio Secil de Arquitectura (1992 e 2004), o 1º Prémio da Bienal Ibero-Americana (1998), o Prémio Internacional da Pedra na Arquitectura (1995), a Medalha de Ouro Heinrich Tessenow (2001) e o Prémio Internacional de Arquitectura de Chicago (2006).

Algumas obras:

eduardo souto moura premio pritzker arquiteto estadio
foto: © Luís Ferreira Alves

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foto: © Luís Ferreira Alves / Casa no “Bom Jesus”, Braga, Portugal (1989-94)

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foto: © Luís Ferreira Alves / Pousada de Santa Maria do Bouro, Amares, Portugal (1989-97). Por fora, um imponente mosteiro; por dentro, um edifício com 900 anos que é o espelho da obsessão de Souto Moura pelo pormenor e pelo despojamento.

eduardo souto moura premio pritzker arquiteto estadio
foto: © Luís Ferreira Alves / Edifício Burgo, Porto, Portugal. Dois enormes módulos de forma geométrica simples, com traços de linhas rectas, rompem a paisagem arquitectónica e albergam o maior edifício de escritórios da cidade.

eduardo souto moura premio pritzker arquiteto estadio
foto: © Luís Ferreira Alves / Casa na Arrábida, Portugal (1994-2002).

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foto: © Luís Ferreira Alves / Estação de Metro da Trindade, Porto, Portugal (1997-2005).

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foto: © Luís Ferreira Alves / Casa Manoel de Oliveira, Porto, Portugal (1998-2003). Para o histórico realizador de cinema português, o arquitecto desenhou um edifício cinematográfico, aberto aos olhares curiosos e à luz.

eduardo souto moura premio pritzker arquiteto estadio
foto: © Luís Ferreira Alves / Casa das Histórias Paula Rego, Cascais, Portugal (2005-2009). As chaminés de betão pigmentado a rosa emergem das linhas horizontais, cumprindo a missão que lhes foi confiada: criar um espaço despretensioso.

Com um vasto curriculum de obras em quase toda a Europa - de que são exemplo um estádio e um museu na Suíça, um crematório na Bélgica, dois edifícios em Bordéus, o Metro em Nápoles ou o mais recente concurso que ganhou num país do Médio Oriente, Souto Moura considera que este é o melhor momento da sua carreira. O Pritzker Prizer representa, para si, um gratificante reconhecimento de trinta anos de trabalho. É o segundo arquitecto português a receber este prémio, depois de Álvaro Siza Vieira ter vencido em 1992, e junta o seu nome a uma lista de outros grandes arquitectos mundiais, como Oscar Niemeyer, Frank Gehry, Jean Nouvel e Rem Koolhaas.

Créditos de imagens: Francisco Nogueira

 

marisa antunes apaixona-se por tudo e pelos nadas e passa a vida a sonhar acordada. Tem uma assumida tentação pelo abismo e pelas quedas livres - sem rede - e acredita que tudo é possível. Saiba como fazer parte da obvious.

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elton santos

Com Eduardo Souto Moura e Álvaro Siza Vieira, grandes expoentes da arquitetura portuguesa e mundial,descobre-se que diplomas e gosto pelo belo são coisas do passado. Quer ser um grande arquiteto? Basta comprar uma régua...

Elton, todos podemos fazer juízos de valor sobe a obra de qualquer arquitecto. Mas o seu comentário não apresenta senão uma opinião pessoal e de natureza estética sobre estas obras, não esclarece nada do ponto de vista da arquitectura. Se dissesse 'que feio!', ia dar ao mesmo...

Tarcisio

Não sou arquiteto. Nem é necessário ser, para observar o quanto a realidade física se torna desagradável quando se ignora a estética. Edificar considerando-se somente o preenchimento do espaço físico, é por-se abaixo da mediocridade. Somente a utilização racional do espaço físico não é suficiente para bem edificar. Por que cidades que não são belas, são, em geral, desagradáveis? Certamente os que as edificaram desprezaram a estética. Buscaram, somente, a funcionalidade na utilização do espaço físico. Obras como as que acima se veem devem ser amplamente divulgadas. Talvez possibilitem muitos arquitetos reflitirem melhor.

mariza decker

Depois de conhecer este grande arquitetos aprendi a vislumbrar o maravilhoso e ultrasofisticado desenho das caixas de sapato.

alfie

Para se gostar de qualquer coisa é preciso conhece-la.
O mesmo se passa com a arquitectura: quem não a conhece desgosta-a.
A casa de Manoel de Oliveira é uma delicia!

Tarcisio

Conheço caixas de sapato esteticamente agradáveis. Pena não terem desenhos maravilhosose ultrasofisticados. Ou eu não consigo vislumbrá-los. Paciência...

Paulo Sérgio

Juro por Deus que adoraria saber onde está a beleza desses bunkers.

Muito bom seu artigo , parabens

Cyrom

Um belo exemplo de Arquitetura feita só para arquitetos admirarem. Duvido que o próprio more numa coisa dessas.

Tam

Orgulho em um prémio Pritzker ter vindo para Portugal, ainda para mais para um Portuense. O estádio de Braga é uma maravilha.

Vargas

Como em toda a arte houve fases mais exibicionistas e outras mais sóbrias. E na arte nao existe verdades, logo nao existe uma única solução correcta, na arquitectura acima da arte em si, esta o problema q precisa ser resolvido, e tal como um quadro em q o pintor pinta o q sente, devido as suas influencias, o arquitecto tem o mesmo papel, tem um terreno q precisa de "pinta-lo" e pinta-o com as suas influencias. Nunca uma obra de arte deve ser avaliada pelo gosto, pois o gosto é variável e manipulável! tirando qualquer critério a uma avaliação sobre arte. E uma coisa excepcional acerca deste pritzker é o seguinte, ao contrario dos outros q sem duvida tmb sao génios da arquitectura, este apresenta uma solução extremamente naturalista e uma preocupação com o local em si. Outra particularidade é q para haver arquitectura é preciso dinheiro, e muitas das vezes o orçamento nao chega para fazer essas tais obras geniais q uns tanto gostam, mas hey estamos em portugal e nao ha dinheiro para investir num projecto arquitectónico como o guggenheim de bilbao, daí ser ainda mais facisnante como este humilde arquitecto com uma solução mais simples e sobretudo mais barata consegue mesmo assim fazer arquitectura de um calibre internacional de modo a coloca-lo entre os melhores arquitectos da actualidade. Porque acima do gosto pessoal de cada um, ha q tentar perceber as diferentes perspectivas e acima de tudo elogiar o q é nosso.

Haiduc

Talvez estes críticos comentadores estejam disponíveis para a seleção e atribuição do prémio Pritzker dos próximos anos, já que, pelo que escrevem, implicitamente desacreditaram o júri anterior.

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