O que o homem de si mesmo não sabe

Três fragmentos costurados procuram descrevem aquilo que a vida do Menino prometia ser. Do seu apogeu na infância até a sua queda no início da juventude, alçar vôo parece mais fácil que compreender um átomo da nossa própria existência.


conto ficcao menino

A decolagem, começo dos começos

Com gravetos de Ibirapitanga emendou o vôo do pássaro e, em seguida, ajeitou a camiseta surrada dentro da bermuda. Marcas de cola pelas mãos e no céu pipas frouxalargando nuvens - num abundante efeito de alegria e gracejo para modos da cena fotografia. Sentado no sofá estampado-migratório, bem na frente do espelho, o Menino mirava o centro que não se olha e a moldura lhe conferia um ar de estátua de mármore - adorável como aquela que a sereia quis um dia, tão pequena. O rosto esférico, total, preenchia a sala e o espaço das lembranças do livro das coisas que alargam o imaginar. E assim como a cara, a sala também era esférica, limitada por arcos de círculos sociais. Para nada não se perder entre desvios e comentários intermitentes. Entreaberto o sonho do Menino que era plural e empinava para o espaço estupefato.

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O vento forte, caminho que se desvia do princípio

Levou-me. Livrou-me da gaiola sem que eu percebesse. Porque as distâncias encerram a paisagem e a vontade que ficou de possuir as coisas e gentes remotas. Porque a culpa-flor guarda o pássaro enclausurado dentro de um estado atmosférico que não é reversível. Em frente ao quadro "O Peixe e a Natureza Morta" a mãe anunciava imperceptível as glórias e derrotas do Menino, enquanto avós ofereciam água com açúcar para call-Marias. No telefone, excitações nervosas e perguntas incongruentes sobre a escola e o caminhar dele, que era limitado. E assim, soube das galopadas com ímpeto e da tentativa de encontro com as estrelas. Destemido. Dos desejos e rotas desvianinhos e da falta ou lembrança triste e suave que guardávamos com raridade. Para cima do normal, o redemoinho. Disco voador. 

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O pouso e a vista da casa, morrer demais

Foi num domingo desses em que falta vento e sol que ele derrubou a caixa de madeira e encontrou dentro dela renúncias e fragmentos. Os gravetos, a cola e o papel de seda cheios de poeira e vestígio. A escultura de madeira do cavalo no chão e o rosto que havia perdido a lua e um pouco alongado arrastava, se arrastava nesse meio indefinido. O Menino não quis saber, não virou a cara para olhar. No pequeno armário embutido, de porta de vidro estreita e secreta, a vida que a mãe e a avó guardaram a sete chaves, subtraindo dele de sempre em sempre sugar-sugar. E no agora, tão longe que está, só mesmo cartas, palavras-abraços. Preocupações invisíveis que sobrevoam sentimentos entornados. Entregou-se e se fez escorregar: declives nas veias vultos.


isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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