Casais Monteiro: a herança dum humanista teimoso

Ninguém passou pela II Guerra Mundial em vão. Muitos artistas, pensadores e críticos colocaram então a si mesmos perguntas fundamentais sobre a natureza do homem, a ideia de sociedade e o significado da palavra "evolução", numa Europa que tão facilmente tombara na barbárie. Adolfo Casais Monteiro, professor e crítico português (1908-1972), foi um desses homens, e o seu espírito combativo acentuou-se na luta contra a ditadura de Salazar.



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Casais Monteiro destacou-se pela vontade de intervir na sociedade e na política portuguesa e, depois, no Brasil, para onde foi viver em 1954. Escreveu artigos e obras subversivas durante o regime de Salazar, desejando que este se abrisse à liberdade e respeito pelo povo, sem repressão. Defendia mais sensibilidade e um espírito humanista mais intenso em todos. Tais ideias, segundo Casais, valorizariam o ser e a vida humanas e representariam o modelo de sociedade que desejava.

O humanista teimoso

Casais Monteiro estudou Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade do Porto. Foi poeta, professor e crítico de diversas matérias (política, teatro, cinema, artes plásticas mas, essencialmente, literatura). Desdobrou-se em diversas actividades e manteve uma visão teimosa, obstinada (que suavizou do ponto de vista do trato pessoal, desde que emigrou para o Brasil), em direcção ao seu ideal de modelo social. Já na juventude se mostrava contra o regime político salazarista, fundado em 1933, tendo inclusive sido preso algumas vezes. Começou a tornar-se uma figura incómoda: homem de difícil temperamento, primeiro, pelas revelações públicas do seu pensamento e das suas opções políticas (democrata e socialista) e, segundo, pela sua escrita. Casais colaborava na revista literária modernista “Presença”.

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Na década de 40, em Lisboa, colaborou em diversos periódicos, escreveu romances, antologias mas, principalmente, poesias e ensaios como “De Pés Fincados na Terra” (1941), “Canto da Nossa Agonia” (1942), “Europa” (1946) e “Simples Canções da Terra” (1949). A sua reflexão política, exprime, sobretudo, a sua visão humanista.

Após a partida para o Brasil, em 1954, continuou a desenvolver a sua crítica e reflexão, tendo lá encontrado aquilo que desejaria para todos (ou, pelo menos, para si), sem interrupções: autonomia espiritual, liberdade de acção e de expressão. Colaborador habitual do “Globo”, “Estado de S. Paulo” e “Portugal Democrático”, dedicou-se mais à literatura, sem deixar a crítica política. Neste último periódico, tentou chamar a atenção do mundo para a situação portuguesa e para o movimento anti-salazarista. A sua obra escrita, a sua personalidade nervosa e estas tentativas de intervenção na sociedade são o que nos restam de Casais Monteiro.

A Europa: "De que é feito um homem?"

Em “Europa”, Casais relata o impacto da II Guerra Mundial na Europa (“Canto da Nossa Agonia”, acerca da Guerra Civil de Espanha). Para ele, a evolução, fosse material ou humana, teria sempre que passar pelo interior das pessoas, com a criação entre elas de uma união e de uma entreajuda reais. Esta evolução era imprescindível para responder à pergunta que deixa na obra, citando um trecho de diálogo de um filme: “De quoi est fait un homem, monsieur le comissaire?” ("De que é feito um homem, senhor comissário?").

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O horror de ver uma Europa completamente oposta à que ele idealizava - mortífera, repulsiva, incompreensiva - incitou-o a colocar essa questão e a despertar dúvidas nos leitores. A sua “Europa”, bem como o ideal humano pelo qual lutava, caracterizavam-se pela consciência e pela abertura mental dos povos através da sensibilidade e do espírito humanista. Daqui surgiriam a compreensão e a solidariedade. Estas seriam as bases do desenvolvimento humano pessoal e material, desembocando na instauração da democracia (socialista, atenta ao povo). Assim seria a Europa que o autor ambicionava, capaz de evitar desastres como o da II Guerra Mundial.

Casais Monteiro não viveu o processo crescente de globalização, o surgimento dos computadores e da “net”, a estabilização política democrática, nem, mais recentemente, a criação das redes sociais. É provável que algumas destas mudanças lhe trouxessem um alento que, no seu tempo, dificilmente teria. A evolução material contribuíu para esse cenário.

Ainda assim, só Casais saberia se o mundo caminhava na direcção que ambicionava. As questões por ele colocadas mantêm-se hoje. Quereria Casais uma Europa mundial, à semelhança dele próprio? E o mundo, segue o mesmo conceito de evolução que Casais defendeu?

adolfo, casais, critica, europa, humanismo, literatura, monteiro, professor © Foto de Jorge (Shark), Charquinho

luís pereira

. Segundo José Saramago, "sempre chegamos aonde nos esperam."
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