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Game of Thrones: o triunfo da narrativa na TV

publicado em artes e ideias por | 10 comentários

Primeiro foram os épicos gregos, depois as sagas medievais, a época de ouro do romance, o triunfo de Hollywood e agora… a televisão. Não sou eu quem o diz, é o premiado escritor Salman Rushdie, autor de romances como “Os Filhos da Meia-Noite”, “Os Versículos Satânicos” ou “Shalimar, o Palhaço”. Por narrativa longa, entenda-se o que era domínio tradicional do romance e, depois disso, do filme de longa-metragem.

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Rushdie está aliás a escrever uma série de televisão (ver notícia no Guardian), para o canal americano por cabo Showtime, uma história de ficção científica que tem como nome The Next People. Não vale a pena o espanto: este movimento de valorização da série televisiva como forma de contar histórias não é coisa nova.

Tradicionalmente, a televisão privilegiou os formatos curtos, de consumo rápido, não exigindo memória de um episódio para o outro, de semana para semana. Era o reino do sitcom ou de determinados formatos que ainda hoje claramente dominam e têm o maior sucesso. Veja-se o exemplo do C.S.I.. Cada episódio pode ser visto e percebido isoladamente e recompensa o espectador com a resolução imediata da história.

Foi provavelmente a HBO quem começou a estimular o surgimento de uma nova forma de contar histórias em televisão, com séries como Os Sopranos ou Sete Palmos de Terra. As personagens cresciam em profundidade, evoluíam de episódio para episódio e o arco narrativo era multidimensional: valia no episódio, na temporada e na própria série completa, transformando a narrativa televisiva em algo de grandioso, exigindo um tipo de escrita novo e um investimento nos meios de produção e na qualidade da representação nunca antes visto.

O modelo foi um sucesso de crítica e, no universo dos canais por subscrição, também um sucesso de público. Uma nova geração de criadores surgiu e, com ela, novas obras audiovisuais que pareciam conquistar um novo público que o cinema desprezava cada vez mais, um público adulto, que procurava entretenimento em drama de qualidade, bem escrito e bem representado. Surgiram assim séries como Mad Men ou The Wire, por muitos considerada a melhor série de televisão de sempre.

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A HBO continuou a investir no modelo, claro, e mostrou, por exemplo, que o mundo de vampiros e lobisomens não era exclusivo da adolescência tonta e púdica da saga Twilight, mas podia ser o mundo de sexo e violência de True Blood - afinal, aquilo que estas criaturas sempre representaram na mitologia ocidental.

Tudo isto me ocorreu por ter acabado nos Estados Unidos no domingo a primeira temporada da magnífica série Game Of Thrones, baseada no livro do mesmo nome de George R.R. Martin, de A Song of Ice and Fire, uma saga em sete volumes, dos quais cinco já foram publicados.

É uma história num mundo de fantasia que não confia nos efeitos especiais para se sustentar, mas antes na força da trama e das personagens. Em alguns momentos, o jogo político é quase shakespeariano, noutros, o sexo e a violência (cá estão eles outra vez), contribuem para um realismo cru num mundo irreal (sim, a contradição resulta).

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Game of Thrones é tudo o que uma série de televisão hoje deve ser: valores de produção inatacáveis, personagens desenvolvidas na sua espessura emocional e intelectual, uma realização inteligente, uma trama de muitas linhas cruzadas que se consegue descobrir apesar de tudo com clareza, fidelidade à história em que é baseada (cujo autor é aliás também produtor executivo) e um ritmo certo, de episódio para episódio, em dez horas de saga que acabam a abrir o apetite para a temporada seguinte. Em Portugal, teremos de esperar pacientemente pela primavera de 2012.

lsoares
Sobre o autor: luis soares escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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Silva

não entendi, tu fez uma imensa introdução para falar míseros três parágrafos da série e mesmo assim, dizer o óbvio, quase nada, muito pouco dos elementos presentes na obra..

mas, sim, a série é fantástica...

Silva, leu o título do artigo?
Se sim o título do artigo, dá para perceber que ele não é sobre a série - que a série é um exemplo de um fenómeno.

Olá Silva :) Não é uma introdução. O "Game Of Thrones" foi só um pretexto para falar do triunfo da narrativa épica na televisão e não o contrário. Um dia talvez fale mais em pormenor da série, mas para já acho que vale a pena sobretudo vê-la.

Vi hoje de manhã os dois últimos episódios da primeira temporada, e os 9.5 pontos no imdb são inteiramente justos. Personagens com densidade, cenários e fotografia muito acima da média, e um desenrolar da história como há muito não via.

Eduardo

Luis,

Escreveu sobre de uma nova forma de contar histórias em televisão com "Os Sopranos" ou "Sete Palmos de Terra". Eu iria uns anos mais atrás com Hill Street Blues (cá em Portugal chamava-se "A Balada de Hill Street).

Abraço

Eduardo, acho que estamos a falar de coisas diferentes. É verdade que "Hill Street Blues" ou outras séries de Steven Bochco, nos anos 80, mudaram a televisão, com o seu estilo de escrita mais adulto e cru, mais directo, menos fantasista. Estava ainda longe, contudo, do estilo narrativo de que estava a falar aqui. Sim, era útil conhecer as personagens e o contexto. Sim, as personagens evoluíam, mas não havia como aqui a vontade de contar uma longa história, histórias de 10 ou 60 horas. Cada episódio era auto-contido e tinha aliás uma estrutura semelhante que começava com o "roll call" matinal e acabava com o Comandante Furillo na cama.

De fato, só nos resta esperar.
Narrativas assim tornam praticamente irresistível aguardar pelo próximo episódio.

Curiosamente comecei a apreciar este formato televisivo quando a própria televisão começou a evoluir tecnicamente. Não sei até que ponto ambas as coisas estão interligadas. Por um lado, com o explosão da televisão por cabo - primeiro nos US, agora na Europa - foram também criadas condições para uma cadeia de valor que suporta a produção deste tipo de conteúdo. Adicionalmente, hoje em dia, é possível agendar a gravação das séries com um único click no controle remoto.

Para mim enquanto espectador, valorizo o serviço de cabo, se ele me permitir, por um lado, assistir a narrativas desde género, mas também se me permitir faze-lo de uma forma simples e sem que interfira na agenda do meu dia-a-dia.

Eunice

só uma correcção até à data foram publicados 8 livros desta saga sendo de esperar mais dois, sendo que o 9 saiu este mês nos Estados Unidos.

Olá Eunice.

Em Portugal é verdade que os livros têm sido divididos em mais volumes, talvez para fazer render o peixe, mas nos Estados Unidos e no original foram editados os seguintes:

- Book One: A Game of Thrones
- Book Two: A Clash of Kings
- Book Three, part one: A Storm Of Swords: Steel and Snow
- Book Three, part two: A Storm Of Swords: Blood and Gold
- Book Four: A Feast for Crows

Dia 12 de Julho nos Estados Unidos é editado

- Book Five: A Dance With Dragons

Segundo o próprio site oficial do autor, ficam a faltar dois volumes, a saber:" The Winds Of Winter" e "A Dream of Spring"

Tudo isto e muito mais aqui: http://georgerrmartin.com/

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