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Johnny Cash: canto solitário, conto provinciano, voz sepulcral

publicado em musica por | 14 comentários

Um verdadeiro bad boy ao melhor estilo da época – protestante rebelde. Previsível, andava com Elvis. Um conquistador ao melhor estilo galã do country music a flertar com o rock'n roll – evidente, andava com Jerry Lee Lewis. Sua atitude era irreverente, polêmica e tempestuosa, como qualquer rockabilly zelasse por seu nome. Mas, sobretudo, era um homem triste. E foi exatamente sua tristeza que o levou a protagonizar uma das mais emocionantes histórias de amor: com sua música, intensa.

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Jonhnny Cash e a sua segunda mulher June Carter.

Um amigo garantiu-me, curvando-se em minha direção e sacudindo com uma das mãos um CD de Johnny Cash, enquanto eu repousava o copo de vinho na mesa: “Música boa. Eu prefiro ouvir tomando cerveja, há pessoas que ouvem tomando uísque – o que acho muito justo –, mas eu não gosto de uísque, então ouço bebendo cerveja mesmo. Você pode ouvir bebendo o que quiser, como este vinho barato aí. Mas ouça! Depois você vem falar comigo.” Sem questioná-lo acerca da necessidade de estar em estado etílico para ouvir Johnny Cash aceitei a recomendação. Ouvi. E ouvi sóbria. E ouvi de novo, e mais uma vez. E, depois, contei a ele que jamais devolveria aquele CD.

Não desejo traçar um perfil de Cash, ou discorrer sobre seus discos, suas letras ou sua história. Prefiro conversar acerca de como a música de Cash me aborda, e como eu a percebo. E senti nesta música muito mais do que uma vontade de colocar esporas nas botas e fazer as vezes de quem mastiga mato de beira de estrada. Não falo do ritmo do seu country legítimo dos primeiros anos. Nem de sua fase rockabilly, ou da nova roupagem que seu estilo ganhou nos anos 90, com a American Recordings. Mas falo do espírito de sua música - que sempre foi o mesmo, independente das fases de sua carreira.

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Jonhnny Cash, 1969.

Johnny Cash teve contato com a música desde muito cedo. Cresceu entoando hinos protestantes na igreja, ou enquanto ajudava a família na colheita. Porém, foi somente adulto, já casado e com filhos, que se entregou, de fato, à música, podendo expressar toda a carga emocional que carregou desde sua infância, quando viu seu irmão morrer em um terrível acidente de trabalho – circunstância que refletiria em tudo o que decidiu fazer na vida.

A música de Johnny Cash é uma música de sobrevivência, cantada com pesar. Uma música tão carregada de emoções a ponto de sentirmos vontade de deitar à cama e abusar de nossa cota de autocomiseração. É lamuriosa, com aquele timbre grave que só ouvimos em nosso subconsciente quando em crises existenciais. Existe na voz de Johnny Cash algum sentimento profundo o suficiente para nos fazer sentir. Eu tenho a impressão que posso mais tocá-la do que simplesmente ouvi-la, tamanha sua densidade.

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Jonhnny Cash em Bremen, Alemanha, 1972.

Nos palcos, acompanhado por sua banda de apoio, os Tennessee Two, Cash se apresentava com um sucinto Hello, I'm Johnny Cash, e sempre vestia preto. Seu estilo fúnebre o levou a ser chamado de “Homem de Preto” pelos seus fãs e pela mídia.

Sua voz sepulcral, somada a uma personalidade imponente, o levou ao posto de um dos mais respeitados artistas de todos os tempos. Com uma carreira de cinco décadas, e com todas as suas variações, Johnny Cash assinou seu nome no estandarte da boa música, como um homem de feição melancólica, de canto solitário sobre contos provincianos.

Morreu em 2003 e em 2006 foi lançado um box com quatro CDs, contendo materiais inéditos, como um emotivo álbum gospel e versões de algumas músicas. O último lançamento póstumo aconteceu em 2010, com o CD American VI: Ain't No Grave, contendo as últimas gravações do artista.

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Um filme sobre a vida de Cash foi produzido em 2005: Walk the Line (no Brasil, Johnny e June). O roteiro foca o início de sua carreira e o seu envolvimento com June Carter – amiga e companheira de palco, que viria a ser sua segunda esposa e grande amor de sua vida.

Quanto a mim, caminhando desprevenida, a vagar de um lado a outro do meu pensamento, de repente ouço um som distante, saio de meu estado de introspecção e reconheço – com um sorriso infantil no rosto – a voz e o violão de Cash. E o som vem de algum lugar distante de onde estou. Um som enfermo, com alguns ruídos, daqueles de rádio a pilha em cima de um balcão qualquer. Mas que vai ecoando, sofrido, até atingir meus passos pela rua. Isso aconteceu apenas uma vez. Eu espero a segunda. Pois não há nada mais delicioso do que quando as músicas boas em vozes tristes nos encontram assim: ao acaso.

 

rejane borges gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros. Saiba como fazer parte da obvious.

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Nádia

Belíssimo texto... uma ótima descrição do que os fãs de Johnny Cash sentem ao ouvir suas músicas. Obrigada por redigir o que nossos corações gostariam de dizer sobre esse maravilhoso músico.

Michel

Muito Bom!! Parabéns Rejane!!
Sempre achei estranho o fato de ser difícil encontrar um fã de Cash. Não sei se pelo seu estilo único e atemporal em relação aos seus contemporâneos ou se é exatamente por essa lugubridade (que por sinal é o que me agrada mais, assim como a você).
Ouvir Cash, chega a provocar sensações que só senti ouvindo "Bolero" de Ravel (não que sejam comparáveis em estilo, é claro!).
O fato é que não sei citar nenhum cantor/compositor que tenha conseguido expressar tanto sentimento e de forma tão clara como ele.
Pra quem não conhece, experimente ouvir "Hurt"... vai entender bem o que foi e o que é Johnny Cash!!
Obrigado mais uma vez Rejane!!

Alex

Genial texto! Reflete com maestria o som de Johnny Chash!
Quando soube que Personal Jesus tocada por Depeche Mode era dele, eu passei a admirá-lo ainda mais.

Gabi

Amei o post. Sempre ouvia falar de Johnny Cash, mas ainda não tinha tirado um tempo para ouvi-lo. Esse post me incentivou e tive uma ótima surpresa, estou encantada com a voz e me arrepiei ao ouvir a primeira música. Muito obrigado!

Lu.Moraes

Quase não conheço Johnny Cash.mais esse post me deu uma profunda e estranha vontade de conhece-lo.

Sergio Luiz Falcetti

Para mim um dos maiores artistas que o mundo já viu.

Sergio Falcetti

Na verdade Alex, Personal Jesus foi feito pelo Depeche Mode em 1989 e regravado pelo Cash em 2002. :)

Alex

Cara! Bom saber que Personal Jesus é originalmente do Depeche! Sinal de que J. Cash, além de bom cantor, tem ótimo gosto musical! rs!

abraço!

Vania

Abordagem espetacular, sempre fã do seu ponto de vista!

Tão emocionante quanto ouvir Johnny é ler sobre ele desta maneira, fiquei muito emocionado mesmo com sua descrição, parabéns pelo blog.

Pablo

Johnny é muito bom! Comecei pelo [redentor] álbum "At Folsom Prison" há alguns anos, recomendo! Massa o texto.

Chris

Belíssimo texto, vou fazer um PowerPoint com o material...

dricamelo

O artigo me levou a Johnny Cash, por sinal de sutil sensibilidade, pesquisei algumas letras e virei fã... o vídeo de "Hurt" é incrível e sua letra expôe a "condição humana"... o site é excelente, bem como seus colaboradores, textos inteligentes e contemporâneos. Parabéns!!!!

Volp75

Digo sempre que a música de J. R. Cash é o maior exemplo que peso não é sinônimo de distorção, Redemption, por exemplo, que você gloriosamente escolheu para ilustrar seu ótimo post, é mais pesada e densa do que qualquer metal extremo jamais sonhará em ser e com apenas um violão e a voz de trovão.
Definitivamente isso não é para qualquer um.
Hail Mr. Cash.

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