O sofá bicicleta e a arte de andar sem os pés no chão

O coração humano é ilimitado em sua capacidade de se apaixonar, tanto quanto a imaginação humana é ilimitada em sua sua capacidade de criação. É possível se locomover com paixão, conforto e — talvez — também um pouco de estilo e de poesia.


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Amar -- e tantas outras coisas nessa vida -- é como andar de bicicleta. Não há manual, nem uma maneira correta de se aprender. Não basta -- e nem é essencial -- compreender as leis físicas do equilíbrio e velocidade. É preciso, antes, vivenciar as sutilezas de controlar a si mesmo e seu próprio peso. Não é questão de força, é leveza e se deixar levar. Por isso, andar de bicicleta também pode ser considerado como uma arte: a arte de andar sem os pés no chão.

A singela magia de uma bicicleta é que seu conhecimento se adquire uma única vez, tal como o amor. Mas perdemos a simplicidade em algum momento de nossas vidas. A bicicleta, tão simples em si, aperfeiçoou-se ao longo dos anos para incorporar o espírito competitivo dos tempos atuais. Cada vez mais aerodinâmicas e velozes -- tal qual o amor em muitos casos --, difícil hoje é encontrar a antiga bicicleta de cestinha.   amor, bicicleta, sofa, transporte, vermelho

Na contramão dessa tendência, os designers Jacek Holubowicz e Kazimierz lesnniewski apresentaram no DMY 2011 - Internacional Design Festival, em Berlim, o sofá bicicleta. Imagine retirar o banquinho, tão desconfortável para as donzelas que insistem em usar saias, e, em seu lugar, implantar um sofá de dois lugares assim todo vermelho, com toda a sensualidade e impacto que só o vermelho é capaz de causar. Construído artesanalmente, apresenta oito marchas, teto retrátil para os dias de chuva e um sistema de som alimentado por uma bateria recarregável -- afinal, todos merecem uma trilha sonora na vida. Possui ainda dois pedais com controles independentes e é, como toda bicicleta, ecologicamente correta (o movimento verde agradece e apoia).

amor, bicicleta, sofa, transporte, vermelho   Nada de adrenalina, altas velocidades e manobras radicais. A dois, é preciso a paciência e disposição de acompanhar o outro. Deixar nossa individualidade num canto para se apreciar a experiência de se ser dois, de compartilhar o rumo a ser tomado em cada esquina da vida, pois em dois a sintonia é muito mais importante que a velocidade. E é em slow motion que conseguimos um olhar mais demorado sobre todas as coisas da vida e -- fundamental -- sobre quem está ao nosso lado.

amor, bicicleta, sofa, transporte, vermelho   Inconvenientes, parece haver aos montes. Seu tamanho avantajado não permite ser carregado em carros populares, nem transitar tranquilamente pelas ruas -- já que não há ciclovias apropriadas --, nem aproveitar os atalhos existentes. Haverá buzinas e pessoas gritando pelas janelas de seus carros "seus loucos!", quem sabe até pedestres revoltados por não compreender essa lentidão. Mas o amor também é incompreensível para algumas pessoas.   Daí que o sofá bicicleta cause estranheza, sim, inquietação, um quê de desconfiança de algo inviável. Arriscaria até chamá-lo de desajeitado. Ele é assim, grande demais, vermelho demais, diferente demais. Parece confortável, mas nele falta algo como a beleza, ou o esteticamente correto. Uma sensação de ridículo parece ser a primeira impressão, porém vislumbro algo irresistível ao assistir o vídeo dela em movimento. Temo que ali se iniciou um caso de amor, tenho quase certeza.

Talvez eu tenha perdido, sem perceber, o senso do ridículo -- ou da estética. Brincadeira essa do coração. Pois, inviável e ridículo, assim parece o amor numa primeira olhada. Porém, quem sabe talvez ridículo mesmo seja quem leva a sério demais essas coisas mais singelas da vida -- como uma bicicleta, como o amor -- a ponto de fazer uma crítica sobre algo que é apenas para para subir e andar. Ou para embarcar e desacelerar.


michelli lorenzi

fica pensativa em dias chuvosos, faz aulas de violino aos sábados e tem o péssimo hábito de deixar livros e sapatos espalhados pela casa.
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