Em homenagem ao poeta Ronaldo

A Obvious não poderia deixar passar em branco um acontecimento tão importante: o dia em que Ronaldo Fenômeno dirá adeus à Seleção Brasileira e ao futebol.


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O cineasta e ensaísta italiano Pier Paolo Pasolini esboçou uma teoria sobre o futebol que, em linhas gerais, diz o seguinte: o futebol é uma linguagem e, como tal, podem-se detectar traços de poesia e de prosa na maneira de jogá-lo. O estilo europeu seria prosa, por representar uma maneira taticamente rígida, um controle pragmático da bola e das ações de ataque e defesa. A poesia seria o futebol praticado na América do Sul, e especialmente no Brasil: o estilo de jogo que está intrinsecamente ligado ao improviso, ao drible e ao rebuscamento no trato com a bola, pouco afeito a táticas rígidas.

Fico um pouco descontente em ter que generalizar uma teoria tão refinada e inteligente, que identifica variações como a prosa estetizante italiana e a prosa realista inglesa, entre outras sutilezas que o amante do esporte bretão ficaria muito contente em saber. Um dia eu volto com um texto sobre este assunto, eu prometo, mas agora vamos ao que interessa: se Pasolini se referiu ao futebol brasileiro como um futebol de poesia, num silogismo simples concluo que nossos jogadores são poetas. E são, de fato.

Hoje, 7 de junho de 2011, precisamente às 21:50 (horário de Brasília) um dos nossos grandes poetas escreverá seus últimos versos no histórico estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembú, em São Paulo - onde curiosamente está o nosso Museu do Futebol.

Ronaldo Luís Nazário de Lima, o Ronaldo "Fenômeno", o maior centro-avante nascido no planeta Terra, entrará em campo pela última vez vestindo a camisa canarinho, que tanta falta sentirá do jogador que imortalizou a camisa 9, assim como fez Pelé com a 10 e Romário com a 11.

Após o apito final ou no caso de uma possível substituição, Ronaldo deixará para sempre de pisar num estádio como jogador profissional. Será um momento histórico, e eu tenho certeza que muitos irão às lágrimas, emocionados.

desporto, fenomeno, futebol, ronaldo, seleçao Entrevista coletiva do futebolista brasileiro, no Ministério da Educação.

Quem pôde acompanhar sua trajetória como jogador, como eu (como muitos), presenciou inúmeros prêmios e títulos, e gols e dribles que desafiaram a lógica do jogo e uniram em deslumbramentos os povos mais variados. Presenciou como a fama desmedida pode custar caro para qualquer pessoa, talvez mais para um jovem de vinte e poucos anos de origem pobre - ser a maior estrela do futebol mundial o derrubou numa crise nervosa horas antes da final da Copa de 98, na França.

Presenciou como o jogador conseguiu pelo menos três vezes durante a carreira renascer das cinzas e provar a tudo e a todos que, em toda história da humanidade, poucos darão aos pés "astúcias" de mãos como ele deu. Sua precisão, seu toque de gênio, sua incomparável facilidade de prever a jogada posterior são daqueles mistérios que, por mais que tentemos decifrar, jamais chegaremos a uma resposta.

Quando, em 14 de fevereiro deste ano, Ronaldo anunciou numa coletiva de imprensa a sua aposentadoria, houve uma comoção nacional: nos bares, nos jornais, nas esquinas não havia outra notícia. "Eu perdi para o meu corpo", foi com essa frase que ele terminou o anúncio do fim da sua vitoriosa carreira.

Seu corpo, como sabemos, virará adubo - não agora, um dia, quando ele falecer. Seus gols, dribles e jogadas, como também sabemos, flutuarão infinitamente como pólen: alastrando, pelos ares, a poesia do futebol.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
Saiba como escrever na obvious.
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