Beleza Americana e Crash: a histeria de romper com o mundo

Há regras na vida: ou você as segue, ou será devorado – esta é a máxima de dois excelentes filmes que retratam este estilo de vida mais conhecido e propagado como american way of life. Refiro-me à Beleza Americana (American Beauty, EUA, 1999) e Crash – No Limite (Crash, EUA, 2004). Tenho comigo que se pudéssemos fazer o mundo parar de girar por um instante, perceberíamos tudo o que está fora do eixo, de rota, de rumo. Mas é impossível, na velocidade em que estamos.


american, cinema, cotidiano, frustracao, psicose, quotidiano, sociedade, way "Crash" (2004).

Hoje, somos impessoais demais, e tornamo-nos seres programados - e, o que é triste, programados uns pelos outros. Temos regras, condições e metas a serem cumpridas. Temos prazo e estatísticas. Não temos tempo.

Somos aquelas personagens triviais - com vidas e empregos triviais - com problemas clichês. Nosso dia-a-dia é, geralmente, o ordinário que beira a monotonia, para não dizer o patético. Personagens em um cotidiano torturante, não por ser agitado, mas por abusarmos do nosso lado mais sádico, miserável e hipócrita. No trabalho, no lar e na rua. Olhe bem de perto: assim somos todos nós. E nossas vidas.

Os modos mais adequados de ser e estar estão aí - as regras de conduta - todas prontas a devorar-nos todos os dias. O sistema a observar-nos. Os vizinhos, os amigos, a família. Mas, disciplinados, encontramos as respostas das charadas e colocamos nossas máscaras para manter a aparência de sucesso a todo custo. Um estilo de vida herdado, cobiçado e seguido.

american, cinema, cotidiano, frustracao, psicose, quotidiano, sociedade, way "Beleza Americana" (1999).

Beleza Americana (American Beauty, EUA, 1999) e Crash - No Limite (Crash, EUA, 2004), dos diretores Sam Mendes e Paul Haggis, respectivamente, tratam do assunto com muito sarcasmo e realismo. Levaram ambos o Oscar para casa. Mendes por "Melhor Diretor" e Haggis por "Melhor Roteiro Original", já que também foi roteirista do longa.

O termo american way baseia-se na procura da felicidade. Mas, não da maneira romântica e corajosa que lemos nos clássicos romances. A procura da felicidade, aqui, é um caminho trilhado que sacrifica a própria sanidade, seguindo freneticamente palavras de ordem como "prosperidade" e "sucesso", difundido há muitos anos em terras americanas. Estilo de vida herdado por praticamente todo o ocidente, e que mais parece um tratado invisível e universal que adverte: não fracasse.

Ambas as tramas expõem o avesso de uma sociedade influenciada por tal regra, expondo todas as fendas e retalhos. Expondo todas as falhas e pecados de um comportamento artificial, mas aceito e considerado livre e íntegro. Por isso tornamo-nos neuróticos, compulsivos, obsessivos. E obviamente a frustração seria o resultado de tamanha exigência, do seu embate com a natureza humana, pois é uma exigência que não aceita o erro, a dúvida, as vias escorregadias, que são dessa natureza.

Os roteiros de Sam Mendes e Paul Haggis mostram personagens que deixam escapar a sujeira por debaixo do tapete, os esqueletos dos armários. Pessoas inseridas numa realidade tão histérica e remendada como suas próprias sanidades, muito bem disfarçadas com gramas verdes, tortas de maçã e carteirinhas de clubes.

american, cinema, cotidiano, frustracao, psicose, quotidiano, sociedade, way "Crash" (2004).

american, cinema, cotidiano, frustracao, psicose, quotidiano, sociedade, way "Crash" (2004).

Os filmes retratam uma cultura que, a cada dia, conecta uns aos outros por meio das mais variadas formas de frustração, em uma cadeia infinita de conseqüências pessoais e sociais, gerando um efeito dominó. Crash salienta o individualismo - fator que leva a outras vertentes deficientes da sociedade como preconceito e violência, instaurando a cultura do medo. Já Beleza Americana salienta a crueldade com a qual o sistema pune quem não se adapta aos seus mecanismos - os dispensáveis, aqueles que se tornam indivíduos que saltam à margem dessa sociedade por romperem com as fórmulas prontas, com as idéias manipuladas. E esses indivíduos têm surtos histéricos porque sabem que serão punidos. Por mim, por você, por eles.

No final das contas, vivemos em um mundo no qual somos extensões da dor e da frustração do outro. Talvez tenhamos que aprender a disfarçar toda nossa indignação com o otimismo estampado no rosto em forma de sorrisos seguros. Ou de risadas altas. Aquelas que abafam o som angustiado dos gritos que saltam ao nosso peito.

american, cinema, cotidiano, frustracao, psicose, quotidiano, sociedade, way "Crash" (2004).

Vemos uma rua, como qualquer outra. Vemos um homem, como qualquer outro. Vemos uma família, como qualquer outra. Achamos que conhecemos as pessoas. Achamos que sabemos quem somos. A verdade é que não fazemos a mínima idéia. E seguimos obcecados com tudo, inclusive, com a velocidade a que o mundo gira. É a beleza da vida.


rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //rejane borges