Bernard Herrmann, o compositor noir

Welles, Hitchcock, Scorcese e Herrmann - dir-se-ia que o intruso aqui é o último, já que nunca foi realizador. Compôs, contudo, as bandas sonoras de filmes icónicos como "Citizen Kane", "Psycho" e "Taxi Driver", ajudando definitivamente a moldar toda uma era do cinema através da música.



bernard, cinema, driver, herrmann, hitchcock, musica, oscars, psycho, taxi

O prodígio do compositor norte-americano Bernard Herrmann revelou-se cedo; com apenas 22 anos, formou a sua própria orquestra. A partir daí, construiu um currículo verdadeiramente invejável, ao trabalhar junto de alguns dos nomes maiores de Hollywood e também de François Truffaut, figura incontornável da nova vaga francesa. Há, por isso, quem defenda que nenhum outro compositor contribuiu de forma tão rica e irrefutável para o cinema: a sua primeira banda sonora acompanhou o filme "Cidadão Kane" (1941), de Orson Welles; a última foi para "Taxi Driver" (1975), de Martin Scorcese.

Herrmann foi um compositor prolífico - criou sinfonias, uma ópera e várias peças radiofónicas, uma delas para a transmissão da "Guerra dos Mundos", na emissora CBS, em 1938 -, mas o seu génio criativo florescia naturalmente na sétima arte: "A música é inerente à natureza do cinema [...] Numa história contada em forma de filme, torna-se imperativo que exista música", declarou Herrmann numa entrevista cujos excertos podem ser vistos no documentário Music for the Movies: Bernard Herrmann (1992).

O tom obscuro que predomina nos seus temas destacou-se sobretudo numa época em que Hollywood atravessava a chamada "idade de ouro", graças às estrelas que o grande ecrã imortalizou - Humphrey Bogart, Greta Garbo, Clark Gable e Grace Kelly são alguns exemplos. Muitos consideram que o contraste simboliza o desprezo que Herrmann nutria pelo star system norte-americano, mas foi esse elemento mais negro da sua sonoridade que ajudou a forjar uma das mais emblemáticas e bem sucedidas parcerias da história do cinema.

"O Terceiro Tiro" (1955) marcou o início da colaboração entre Herrmann e Alfred Hitchcock, o cineasta britânico que deu continuidade à sua carreira nos Estados Unidos a partir da década de 1940. Seguiram-se o remake de "O Homem que Sabia Demais", "O Homem Errado", o aclamado "Vertigo" e cinco outras longas metragens.

O temperamento impestuoso dos dois artistas acabou por arruinar a sua relação pessoal e profissional, mas deu também origem a alguns dos seus maiores sucessos. Em "Psicose", por exemplo, Hitchcock pediu a Herrmann que não musicasse a cena do chuveiro, cujo único som deveria ser a água a correr. O compositor ignorou a instrução e, dispondo de um orçamento bastante limitado, recorreu apenas a um conjunto de violinos para criar a inconfundível e gritante sequência musical que mais ninguém iria esquecer. Perante a aprovação de Hitchcock à sua desobediência, Herrmann mostrou-se surpreendido - "Sugestão descabida, meu rapaz, sugestão descabida", respondeu o cineasta.

François Truffaut e Brian de Palma foram dois dos mais notáveis realizadores com que Herrmann trabalhou nos últimos dez anos da sua carreira. A derradeira obra foi composta para "Taxi Driver", em 1975 (de alguma forma bizarra, Herrmann parecia sabê-lo, já que faleceu apenas horas depois da última gravação ter terminado). O seu estilo entrava já numa nova fase, predominada pela pesada instrumentalização de sopros e percussão e pela afinidade com a linguagem do jazz.

No entanto, a maior virtude das composições de Herrmann manteve-se intacta: a sua capacidade em traduzir musicalmente a agitação emocional dos personagens. O carácter obsessivo de Travis Bickle (um fenomenal Robert DeNiro) e o seu nojo pelos "animais nocturnos" da cidade de Nova Iorque é magistralmente captado em temas como "Thank God For the Rain" e "Cleaning the Cab", em que a iminência do clímax é interrompida por momentos de acalmia, quase como uma reprodução melódica dos exercícios de inspiração e expiração que impedem um ataque de fúria.

"A música provoca uma resposta emocional no público e a obra de Benny [Herrmann] - tal como as melhores composições para cinema - é a perfeita expressão do estado psicológico de um dado personagem numa determinada cena", confirma Elmer Berstein, também ele compositor.

A repetição é um dos recursos mais utilizados por Herrmann para atingir esse efeito, reforçando o estado de suspense dos espectadores, que assim se desprendem de uma certa "resolução emocional" e observam uma narrativa em aberto que pode ser reescrita ao gosto de qualquer um, muito para além dos créditos finais.

Apenas uma das bandas sonoras de Herrmann foi premiada pela Academia - "O Julgamento do Diabo". Nenhuma das suas composições para Hitchcock mereceu sequer uma nomeação, mas a história ensinou-nos a duvidar dos critérios para a atribuição das estatuetas douradas...

débora cambé

; Nunca foi nerd, mas gostava de o ser. Mesmo assim, acredita ser capaz de dar um ou outro bitaite sobre uma série de assuntos relativamente interessantes.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
v1/s
 
Site Meter