Let it Be: o filme, o fim

Uma vez eu falei a um amigo: Let it Be, o filme, possui a pior história de terror de todo o cinema. A hipérbole se justifica. Em aproximadamente uma hora e vinte de fita, o que vemos é o maior grupo de todos os tempos se esfacelar, perder pouco a pouco o brilho e a alegria de criarem juntos.


beatles maccartney lennon ringo george harrison let it be

A idéia era a seguinte: filmar o processo criativo da banda, a maneira como iam compor as canções para as primeiras apresentações ao vivo do grupo desde que eles decidiram não mais fazer turnês, em 66. O nome do projeto era Get Back. Eles já tinham superado a fase colorido-experimental do Peppers com o sombrio White Album e perceberam que o caminho era voltar às raízes. O mais entusiasmado com o projeto era Paul McCartney, que, diga-se, sempre fora contrário ao fim das turnês e sentia falta desse contato com o público. A prática, entretanto, esteve longe de captar qualquer vibração que o projeto pudesse ter. Serviu apenas para insinuar que o fim da banda estava mesmo muito, muito próximo.

Nas primeiras semanas de ensaios e filmagens no Twickenham Film Studios, John, Paul, George e Ringo trabalharam em cima de impressionantes 52 canções — muitas das quais foram parar no Abbey Road e nos seus trabalhos solo posteriores. Apesar do mau ambiente, os Fab Four continuavam criativos e geniais. Porém, salvo alguns momentos de descontração, como na cena em que Ringo e Paul dividem uma música ao piano ou quando a filha de Paul visita os estúdios da Apple, paira sobre todo o filme um clima apático e fúnebre.

Mesmo com um punhado de grandes canções na manga (datam dessa época “Get Back”, “Across the Universe”, “Something”, “The Long and Winding Road”, entre outras), parece que todo entusiasmo em tocá-las se perdeu. Apenas Paul tenta desesperadamente manter a banda viva. Mas até mesmo seu desespero pode ser entendido como um ponto tácito de que os Beatles iam acabar. Como um enfermo em suas agonias finais.

O filme deixa claro isto. Através de cenas como aquela em que George apresenta a Paul e aos outros uma canção recém composta ("I me mine") e lhe diz com profunda ironia e ressentimento: “é uma valsa pesada, talvez não encaixe no seu show”. Em outra cena, George dispara contra Paul: “Eu não me importo, se você quiser que eu não toque, eu não toco. Só faço o que você quiser.”

Há poucos sorrisos e muitas caras emburradas. A alegria que os motivava a criar música juntos dá lugar a uma espécie de responsabilidade em não deixar que o mito dos Beatles se esvaneça. Como uma empresa onde é preciso ir todos os dias trabalhar, mesmo que a custo do bom humor.

Como as canções não ficaram prontas a tempo e, mais do isso, ninguém estava com a mínima vontade de fazer o show acontecer (excetuando Paul), sabe-se lá que gênio da produção sugeriu à banda que fizesse uma pequena apresentação no telhado da Apple. Assim finalizariam o filme, com o famoso “The Rooftop Concert”.

Pois então, no telhado da Apple, os Beatles fizeram sua primeira e última apresentação ao vivo desde 66. As ruas próximas ao prédio foram pouco a pouco tomadas por curiosos e fãs, que não faziam idéia do que se passava. Inquirida, uma típica senhora britânica responde: “Isso não faz sentido para mim!”. Uma linda jovem diz, no entanto, mais animada: “Eu acho ótimo, deixa o trabalho no escritório mais excitante”. Elas representam (cada uma em um extremo) as reações do público.

Logo após o final da última canção do concerto (que é também o final do filme), John Lennon brinca: "Agradeço em nome do grupo pela audiência e... espero que tenhamos passado no teste". Não sei exatamente a que tipo de teste ele está se referindo. Não importa. O fato é que eles passaram para a eternidade após desligarem suas guitarras ali no telhado do prédio da Apple. Passaram no teste.

beatles maccartney lennon ringo george harrison let it be


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/música// @obvious, @obvioushp //Ederval Fernandes
Site Meter