O novo "studio system" da tecnologia

O termo “Studio-System” designa o modo de produção de Hollywood dos princípios dos anos 20 até aos anos 50. Corresponde, de forma simplificada, a uma integração vertical e horizontal: os estúdios eram verdadeiras indústrias, com atores, realizadores, equipas técnicas e artísticas como assalariados, e controlavam a cadeia de valor desde o argumento à exibição em sala. Hoje em dia, surge um novo sistema integrado em que a linha comum é… a tecnologia.


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O modelo do studio system entrou em decadência por intervenção reguladora anti-trust (além, é claro, da crescente popularidade da televisão) e a indústria do cinema nunca mais foi a mesma, embora tenha continuado a crescer em valor económico e presença cultural.

Um gráfico que encontrei no Very Small Array () pôs-me a pensar sobre uma questão que me tinha ocorrido ao olhar para o genérico do mais recente blockbuster de animação, o “Panda do Kung Fu 2”.

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Cinco dos filmes que mais receita geraram no box-office americano o ano passado são animações 3D destinadas sobretudo a um público infantil: Toy Story 3, Despicable Me, Shrek Forever After, How To Train Your Dragon e Tangled. Os outros cinco são em grande parte produto de gráficos por computador: Alice in Wonderland, Iron Man 2, The Twilight Saga: Eclipse, Harry Potter and the Deathly Hallows (pt. 1) e Inception.

Destes todos assinale-se ainda que apenas Inception e How To Train Your Dragon são ideias originais. Todos os outros são sequelas ou adaptações de livros. Tal como na tradição dos seriados do studio system, os filmes por episódios estão na moda. É uma maneira de reduzir o risco do investimento, apostando no reconhecimento de personagens e histórias familiares do público.

Voltando ao tal genérico, lembro-me de ver pelo menos uma meia dúzia de empresas de base tecnológica que trabalharam na feitura do filme. É cada vez mais comum, hoje em dia. Programadores, animadores, técnicos especializados nos quatro cantos do mundo contribuem para dar vida a um filme em que a imagem de síntese é a matéria plástica. E nas salas de cinema, claro, as receitas por espetador crescem com o 3D.

A aposta nos autores e na sua criatividade, na sua autonomia, a nova vaga europeia e os novos autores americanos que marcaram o pós-studio system parecem ter-se diluído num novo sistema integrado em que a linha comum é… a tecnologia. Não é, como nos idos do século XX, um projeto económico e industrial de entretenimento, é uma tendência tecnológica em que a produção e distribuição encontram âncora.

Se olharmos para o gráfico, o número de filmes estreados por género na última década traduz perfeitamente isto. Géneros tradicionais como o drama, a comédia, o thriller, encontram-se em decadência, substituídos por espetáculos visuais onde dominam, evidentemente, os filmes para crianças, a ação, a ficção científica e a fantasia.

Parece-me também óbvio que este novo sistema de produção de filmes alicerçado no poder da tecnologia tende para uma infantilização (e adolescentização) dos públicos, privilegiando o efeito visual, o ritmo frenético, a imagem prodigiosa sobre o diálogo, o trabalho dos atores, a subtileza.

Argumentar-se-á que os melhores filmes são aqueles que conseguem combinar equilibradamente os dois pratos da balança. Podia até começar a falar sobre A Árvore da Vida, de Terrence Malick. Mas isso era outra conversa.

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Luis Soares

escreve e gostava de só fazer isso, mas não pode. Gosta muito de cidades, sobretudo as que têm menos insectos que o campo. É lisboeta inveterado e tem a mania.
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