
Aqueles que como eu estavam na sua primeira ou média adolescência quando estreou Top Gun (Ases Indomáveis), em 1986, ainda falam do filme com um sorriso agitado. E isto mesmo quando, como eu, reconhecem hoje que ele é uma sequência insuperável de clichés de todos os tipos, com uma estética de pastilha elástica. Há o duelo entre o bom e o mau, entre o louro e o moreno. Há tragédias, há traumas e crises superadas. Há hormonas que chegam para pelo menos cinco filmes de Twilight. Maravilha, tudo isto.
É claro, só se pode ver Top Gun numa certa fase da vida, como só se pode gostar da Barbie numa certa fase da vida. Feita esta reserva, não há que ter vergonha.

Vamos aos factos: o filme, realizado por Tony Scott, conta a história dum ambicioso jovem, Pete "Maverick" Mitchell (Cruise), piloto de caça da Marinha dos Estados Unidos que, por entre algum mistério pessoal, envolve-se num difícil amor com Charlotte (McGillis) e tem de provar ao seu rival (Val Kilmer) que quem manda, em terra e no céu, é ele. Receita infalível do cinema hollywoodiano: um pouco de romance, um pouco de adrenalina, alguma rivalidade e um casal jovem e belo protagonizando uma excitante cena de sexo. O final: feliz, obviamente. Aquele em que o herói conquista a honra e a glória. E, de brinde, leva o coração da sua amada.
No entanto, se me perguntarem hoje qual era a história, a minha ideia é bastante vaga. Sim, há a rivalidade entre Cruise e Val Kilmer, e no fim os apaixonados ficam juntos. Mas as imagens fixadas na minha memória são outras, e por elas se vê que quem fez o filme sabia muito da arte. É o sorriso de Tom Cruise, a transbordar de magníficos dentes (e não apareceu desde então mais nenhuma dentadura como a dele no cinema). É a saia justa da monitora Kelly McGillis a entrar na sala de aula (e o olhar de desdém dos machos militares a quem dava instrução). É a famosa cena de sexo a contra-luz (aquilo era a sério? eles estavam mesmo, ou…?). É Cruise a subir para a mota muito triste, de óculos de sol, a pedir o nosso conforto, e nós tão longe. É a cena inútil, 100% videoclipe, com os cadetes a jogar vólei ao som de Kenny Loggins, de jeans muito justos e troncos muito suados. Hormonas, de novo.
É claro, é o som de Take My Breath Away, dos Berlin, que ocupou os tops e os corações semanas e meses a fio, embora não fosse o slow ideal para as festas de garagem.
Os homens escolherão outras cenas, quase todas com Kelly McGillis, e terão razão. Poucas actrizes encheram os sonhos dos adolescentes da época como ela. Não conheço um homem da minha geração que ao seu nome não faça um sorriso tonto. Foi sol de pouca dura: Kelly não voltou a papéis de grande êxito (excepto como advogada em Os Acusados, de 1988). E aqui fica o golpe de misericórdia: em 2009, depois de dois divórcios, assumiu que era lésbica. Posso rir? Posso. Afinal, ela era rival de todas nós.
Já a carreira de Cruise foi o fenómeno que sabemos. Os dentes continuam lá, e que Deus o conserve assim. Por mim, depois de Top Gun, Cruise pode fazer o que quiser da vida.
Uma pesquisa rápida no Youtube mostra inúmeros remixes e paródias a cenas do filme, provando o seu estatuto de objecto pop. E numa das histórias de Sleep with me (1994), Quentin Tarantino, no papel de chato-da-festa, tenta demonstrar que se trata, no fundo, de um filme subversivo gay...
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comments powered by DisqusSem dúvida um artigo que me fez mergulhar na nostalgia. Nem queria acreditar que o filme fez 25 anos. As tuas descrições são otimas mas, deixa-me complementar com algumas coisas que fizeram os jovens vibrar. Nesse tempo, para um teenager masculino havia várias coisas que faziam a diferença.
Ser piloto aviador era, sem dúvida, o sonho de qualquer rapazinho do secundário... Em Portugal, imaginar pilotar um avião era o expoente máximo... pegar nele e fazer uma razia à escola secuntária onde andávamos e deixar a meninas todas de boa aberta, era o nirvana de qualquer macho!
Depois há a moto... poucos tinham moto nesses tempos de secundário. Poder imaginar, again, aquele motor possante e barulhento no contexto estudantil era irresistível.
O casaco de cabedal, com todas aquelas insignias, de aviões e bases americanas era impressionante. Durante anos sonhei ter um casaco daqueles. Comprei um quando fui com o meu Pai ao Brasil... só foi pena que quando voltei era verão em Portugal... useio pela primeira vez numa manhã de verão, na aula das 8h am em que parecia estar mais fresco.
Como bem referes, "Take my Breath Away" andava sempre numa daquelas cassetes com coletâneas... ainda hoje acho a canção gira. Era uma canção perfeita para slows, ao contrário do que referes.
O volei nunca foi tão popular como naqueles tempos... esse videoclip inserido no filme fez toda a diferença.
tajana
Então quer dizer que houve 'Take my breath away' naquela famosa festa cuja foto vi há tempos :) Mas mantenho que não acho que fosse o slow ideal. Slows em que eles começam a gritar a meio...
Ora bem, aqui estão os contributos masculinos para o fascínio do filme, e obrigada. No filme, além do Tom Cruise, não há grandes objectos de desejo para meninas. Motos, aviões e casacos de cabedal não nos enchiam as medidas (pelo menos, não a mim). Mas o Cruise compensava tudo o resto.
Thaíse
Engraçado, hoje mesmo me deu vontade de ouvir "Take my breath away" e vi sobre o filme no YouTube. Eu não sabia que tal música era tema desse filme porque, aliás, eu nasci em 95. Então, fui perguntar à minha mãe se ela já ouviu falar de "Top Gun" e a resposta foi: "Claaaaaro!!! Tom Cruise, lindo daquele jeito, Ave Maria!! Eu assisti milhões de vezes, todas as adolescentes da época adoravam." Então minha tia, que estava em outro cômodo, gritou: "Top Gun? Eu amava aquele filme! Quando ele andava de moto... que 'homão', viu?!" kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk