Top Gun: não há filme para adolescentes como o primeiro

Não é possível, mas é verdade: o filme "Top Gun" estreou há 25 anos. Vamos colocar a questão de um ponto de vista filosófico (afinal, estamos a falar de um dos grandes êxitos dos anos 80): o que é "Top Gun"? É um "filme de aviões". E é um filme com dois grandes aviões, um pró menino e um prá menina: Tom Cruise e Kelly McGillis. Quem não amou o filme que atire a primeira pedra. Mas vai falhar.



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Aqueles que como eu estavam na sua primeira ou média adolescência quando estreou Top Gun (Ases Indomáveis), em 1986, ainda falam do filme com um sorriso agitado. E isto mesmo quando, como eu, reconhecem hoje que ele é uma sequência insuperável de clichés de todos os tipos, com uma estética de pastilha elástica. Há o duelo entre o bom e o mau, entre o louro e o moreno. Há tragédias, há traumas e crises superadas. Há hormonas que chegam para pelo menos cinco filmes de Twilight. Maravilha, tudo isto.

É claro, só se pode ver Top Gun numa certa fase da vida, como só se pode gostar da Barbie numa certa fase da vida. Feita esta reserva, não há que ter vergonha. topgun_poster_600x.jpg

Vamos aos factos: o filme, realizado por Tony Scott, conta a história dum ambicioso jovem, Pete "Maverick" Mitchell (Cruise), piloto de caça da Marinha dos Estados Unidos que, por entre algum mistério pessoal, envolve-se num difícil amor com Charlotte (McGillis) e tem de provar ao seu rival (Val Kilmer) que quem manda, em terra e no céu, é ele. Receita infalível do cinema hollywoodiano: um pouco de romance, um pouco de adrenalina, alguma rivalidade e um casal jovem e belo protagonizando uma excitante cena de sexo. O final: feliz, obviamente. Aquele em que o herói conquista a honra e a glória. E, de brinde, leva o coração da sua amada.

No entanto, se me perguntarem hoje qual era a história, a minha ideia é bastante vaga. Sim, há a rivalidade entre Cruise e Val Kilmer, e no fim os apaixonados ficam juntos. Mas as imagens fixadas na minha memória são outras, e por elas se vê que quem fez o filme sabia muito da arte. É o sorriso de Tom Cruise, a transbordar de magníficos dentes (e não apareceu desde então mais nenhuma dentadura como a dele no cinema). É a saia justa da monitora Kelly McGillis a entrar na sala de aula (e o olhar de desdém dos machos militares a quem dava instrução). É a famosa cena de sexo a contra-luz (aquilo era a sério? eles estavam mesmo, ou…?). É Cruise a subir para a mota muito triste, de óculos de sol, a pedir o nosso conforto, e nós tão longe. É a cena inútil, 100% videoclipe, com os cadetes a jogar vólei ao som de Kenny Loggins, de jeans muito justos e troncos muito suados. Hormonas, de novo.

É claro, é o som de Take My Breath Away, dos Berlin, que ocupou os tops e os corações semanas e meses a fio, embora não fosse o slow ideal para as festas de garagem.

Os homens escolherão outras cenas, quase todas com Kelly McGillis, e terão razão. Poucas actrizes encheram os sonhos dos adolescentes da época como ela. Não conheço um homem da minha geração que ao seu nome não faça um sorriso tonto. Foi sol de pouca dura: Kelly não voltou a papéis de grande êxito (excepto como advogada em Os Acusados, de 1988). E aqui fica o golpe de misericórdia: em 2009, depois de dois divórcios, assumiu que era lésbica. Posso rir? Posso. Afinal, ela era rival de todas nós.

Já a carreira de Cruise foi o fenómeno que sabemos. Os dentes continuam lá, e que Deus o conserve assim. Por mim, depois de Top Gun, Cruise pode fazer o que quiser da vida.

Uma pesquisa rápida no Youtube mostra inúmeros remixes e paródias a cenas do filme, provando o seu estatuto de objecto pop. E numa das histórias de Sleep with me (1994), Quentin Tarantino, no papel de chato-da-festa, tenta demonstrar que se trata, no fundo, de um filme subversivo gay...

Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
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