Erik Satie: “três partes em forma de pêra”

Conhece aquelas músicas tocadas em espaços públicos, que criam uma certa atmosfera sem assumir o protagonismo, e que raramente se fixam na memória? Algumas das primeiras experiências neste tipo de composição foram feitas no início do século XX por Erik Satie - que não será facilmente esquecido. Compositor, humorista e provocador genial, tinha a sua vertente de excêntrico bem desenvolvida. Ao ponto de criar uma igreja só dele, excomungando quem ousasse discordar das suas opiniões.


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Há sempre um punhado de adjectivos que costumam caracterizar os grandes artistas de que reza a história. Genial, incompreendido, miserável enquanto vivo, excêntrico, são alguns dos exemplos. A caracterização assenta que nem uma luva ao francês Erik Satie (1866 – 1925). Mais do que o precursor da música ambiente – sim, aquela que se ouve em elevadores e passa despercebida aos ouvidos de muito boa gente –, Satie foi um verdadeiro músico do século XX. A inovação, a harmonia na simplicidade das peças e o humor não passam despercebidos na sua obra.

A história da música mundial pode ser particularmente cruel, assim como os críticos. É fácil minimizar o talento de alguém, apontando o dedo a certos detalhes. Diz-se que Satie pintava o cabelo de verde e que só comia alimentos brancos, evitando também apanhar sol. As histórias dizem ainda que na sua casa havia uma colecção de 100 chapéus-de-chuva e doze fatos de veludo cinzentos, exactamente idênticos. Talvez tudo isto seja verdade, mas não é mais importante do que as peças que ele compôs.

dadaismo, erik, gymnopedies, musica, satie Santiago Rusinol i Prats, "Chaminé" (retrato de Erik Satie em Montmartre, 1891)

Pessoalmente, ponho as Gymnopédies (um conjunto de três peças para piano) na minha lista de composições favoritas para piano. Orquestradas por Debussy, as Gymnopédies têm um certo hipnotismo harmónico a que ninguém fica indiferente. E, mais do que a estrutura das peças, são a interpretação e as emoções que marcam lugar. A inspiração veio de uma poesia lida por Contamine de Latour, amigo de Satie, mas também de danças em antigos rituais.

Durante os seus 59 anos de vida, Satie escreveu 150 composições para piano, incluindo as célebres Gnossiennes, as Ogives ou as Nocturnes. Uma coisa é certa: a música deste pianista francês nunca poderá ser rotulada de aborrecida. Nem mesmo em relação aos títulos das composições.

”Quatro Prelúdios flácidos (para um cão)”, “Novas Peças Frias”, “Sonata Burocrática”, “Coisas Vistas à Direita e à Esquerda, sem Óculos” ou “Três Doenças” são alguns dos intermináveis títulos originais dados às suas obras. Conta-se que “Três Partes em Forma de Pêra”, foram escritas em resposta às críticas de que as suas obras não tinham nenhuma forma. No fundo, foi esta veia de fino humor e despudorada ironia que tornou Satie numa referência para muitos dos jovens compositores que o idolatravam na Paris do virar do século.

Mas a originalidade não se esgota aqui. Aquilo a que hoje chamamos música ambiente foi criada porque o compositor (que lhe chamava musique d'ameublement) não suportava que o público ficasse parado a olhar para ele enquanto tocava, mas Satie tornou-se também pioneiro em bandas sonoras para filmes, numa altura em que o cinema era ainda mudo. Amigo de Picasso, Jean Cocteau, Picabia, Derain, Braque, Igor Stavinsky e de Débussy (pelo menos nos primeiros tempos, sendo depois seu rival), Satie soube como ninguém unir a música a outras artes, como a pintura ou a poesia. Prova disso é o Ballet Parade, um projecto que uniu Satie, Cocteau e Picasso, em 1917.

O corte feito com a música tradicional de piano é semelhante à ruptura feita pelas vanguardas na pintura (expressionismo, cubismo, surrealismo, dadaísmo, …), daí que Virgil Thomson não tenha hesitado em considerar que a estética de Satie é a única estética do século XX na música.

dadaismo, erik, gymnopedies, musica, satie Eric Satie, "Auto-retrato", 1913.

Posto isto, a excentricidade na vida particular perde relevo. Mas escrever sobre a vida de Satie é também escrever sobre «A Igreja Metropolitana da Arte de Jesus-Condutor», uma igreja fundada pelo pianista, da qual era líder e também o único membro. O que não surpreende, dado que o compositor foi excomungando os outros membros por não concordarem com a sua opinião. O objectivo era o combate à sociedade através da arte e Satie chegou mesmo a compor uma “Missa dos Pobres” para as cerimónias realizadas no seu apartamento.

Auto-denominando-se “gimnopedista” ou mesmo “fonometrógrafo”, termos que preferia usar para caracterizar a sua profissão ao invés de “pianista”, Erik Satie tem como nome de baptismo Eric Alfred Leslie Satie. Foi o próprio compositor que mudou a letra “c” para “k” no primeiro nome, logo a partir da primeira composição. Face ao percurso musical e pessoal que acabou por ter, a mudança parece ter sido visionária. Afinal, um simples “c” não estava à altura de tanta genialidade.


Marisa

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