Explorar os limites: as "combinações" de Robert Rauschenberg

A obra invulgar de Rauschenberg criou novos rumos na percepção da arte e da vida. O seu percurso singular combinou aspectos pouco relacionáveis, à partida, mas que resultaram numa “criação humana” sem paralelo. As suas “combines paintings” ligaram materiais, suportes e tipos de arte. E foi no limite das diferenças que atingiu a novidade.



combinacoes, combines, escultura, happening, performance, pintura, rauschenberg, robert © Robert Rauschenberg, "Mercado Negro", 1961.

Robert Rauschenberg nasceu nos EUA em 1925 e, até meados dos anos 40, conciliou os estudos em farmacologia com o serviço militar. Durante a II Guerra Mundial, esteve na Marinha Americana. Ainda estudou História de Arte, Escultura e Música, mas foi a partir de 1947 que o seu gosto, claramente, pendeu para o estudo das artes e para os trabalhos artísticos. - a que permaneceu ligado até à sua morte, em 2008.

O trabalho artístico “para conseguir uma coisa”

Em Paris, conheceu Susan Weil, com quem viria a casar-se anos depois, e com ela realizou um dos seus primeiros trabalhos, “Blue Prints”, utilizando impressões fotográficas sobre papel azul e mostrando os seus corpos em negativos e à escala real. A partir da década de 50, conheceu pessoas da vanguarda artística com quem viria a relacionar-se habitualmente e trabalhar, como Merce Cunningham, John Cage, Morris Kantor ou Jasper Johns. Desde então, passou a destacar-se e a ganhar mais notoriedade pelo tipo de materiais usados e pelos métodos de trabalho.

Na década de 60, prestou homenagem a Marcel Duchamp, que o influenciou nos seus modos de ver e de trabalhar. Mas foi na Bienal de Veneza, em 1964, que recebeu o Grande Prémio de Pintura (primeiro para um norte-americano) e atingiu um dos momentos altos da sua carreira. Nesse período, os Estados Unidos “substituíram” Paris como centro do contexto artístico mundial.

combinacoes, combines, escultura, happening, performance, pintura, rauschenberg, robert © Robert Rauschenberg, "Hip To Be Square".

Durante a sua vida, foi associado ao Surrealismo, à Pop Art e ao Neo-Dadaísmo. Certo é que o artista, para chegar ao reconhecimento que obteve, usou a contradição no seu trabalho “para conseguir uma coisa”, segundo o próprio numa entrevista.

“Odeio a ideia de que uma pintura é um rectângulo que está fixo.” Em 1952, Rauschenberg participou, pela primeira vez, numa performance, “Theater Piece #1”, de John Cage, e iniciou as suas “combines”. Estas não são mais do que um modelo inventado, híbrido entre pintura e escultura, cuja denominação surgiu após visitar uma exposição, em Nova Iorque, de Kurt Schwitters. São o produto de uma associação entre pintura e uma “assemblage” de materiais considerados vulgares. Fosse para “combines” ou não, a pintura e a escultura, bem como a colagem, a serigrafia e a transferência, davam liberdade suficiente ao artista para veicular as suas visões acerca da realidade, que quis introduzir nas telas, mas também as suas visões dos próprios materiais.

combinacoes, combines, escultura, happening, performance, pintura, rauschenberg, robert © Robert Rauschenberg, "Glut", 1992.

“Minutiae” (1954), “Untitled” (1955), “Monogram” (1955-59) e “Black Market” (1961) foram algumas das mais conhecidas “combines” que fez. Apesar de as suas temáticas variarem, mantinham aspectos similares, tais como uma superfície irregular com madeira, plástico, metal, vidro, folhas de jornal, fotografias, tecidos e pedaços de “posters” pintados e recortados, preenchendo toda a “tela”.

combinacoes, combines, escultura, happening, performance, pintura, rauschenberg, robert © Robert Rauschenberg, "Odalisca", 1955.

As “combines” acabam por expor uma visão tridimensional e completa, por estar subdividida, fazendo lembrar Picasso: pedem ao espectador que se debruce por toda a obra, pedaço a pedaço. Para Rauschenberg, é a “mente que junta tudo ou não”, porque “é o espectador que vai fazer a imagem".

A arte de combinar artes Desde fotografias, vídeos e gravuras até caixas de cartão, jornais, pneus, animais empalhados, madeira e pedras, o que para muitos poderia ser “lixo” era aproveitado e recebia uma nova importância nas suas obras. A própria “performance”, a coreografia, era vista como um sinal de vida enquanto material de exposição. O corpo seria o meio e o gesto e a actividade do corpo, o material. O “happening” como espectáculo de improviso espontâneo foi uma consequência disso.

combinacoes, combines, escultura, happening, performance, pintura, rauschenberg, robert © Robert Rauschenberg, "Monograma", 1955.

Ao experimentar aspectos semelhantes de diferentes modos, Rauschenberg reinventou a sua arte a cada exposição. A sua exploração dos limites ajudou a “libertar” mais um pouco o conceito de arte e aproximá-la do público. Modificou as perspectivas por experimentar “coisas” no limite das diferenças.

A sua vida e a sua obra foram bons exemplos de como o risco de “combinar” pode contribuir para o progresso, a partir da ruptura.

combinacoes, combines, escultura, happening, performance, pintura, rauschenberg, robert © Robert Rauschenberg, "Retroactivo I", 1964.

luís pereira

. Segundo José Saramago, "sempre chegamos aonde nos esperam."
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