Ouçam este Filho da Mãe

Não é xingamento ou expressão chula: essa é alcunha escolhida por Rui Carvalho para denominar seu projeto acústico solo, que ganha o primeiro registro através do álbum Palácio. Música que impressiona tanto pela beleza como pelo virtuosismo dos temas.


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Talvez seja a influência dos meus colegas de além-mar, mas a música de Portugal anda cada vez mais presente em minhas playlists, quase sempre por caminhos mais alternativos. Linda Martini, Dead Combo, Riding Pânico, Boite Zuleika e Indignu são alguns dos conjuntos que me apontaram um lado novo e altamente criativo da música lusitana. A última descoberta desta safra não vem de uma banda, mas de um homem só, munido com um violão e uma musicalidade arrebatadora. Um Filho da Mãe - melhor dizendo: O Filho da Mãe.

A expressão que batizou a empreitada acústica de Rui Carvalho é a versão suavizada daquilo que vem à cabeça quando testemunhamos qualquer artista em performance inspirada ("como esse cara faz isso? É um filho da..."), e faz todo o sentido depois que o assistimos tocar os temas de seu recém-lançado álbum, "Palácio". O dedilhar nas cordas é contínuo e fluido, sem rodeios; fluxo de consciência em forma de notas. O som é o mais direto possível, com um ataque quase urgente mas mantendo de alguma maneira a sutileza. Sensações e descrições que parecem opostas, mas que estão presentes na maneira de tocar de Rui.

Essa intensidade sonora é explicada, em parte, por um background musical fundamentado no rock (seu lado elétrico pode ser conferido no som dos If Lucy Fell) e num aprendizado autodidata do violão, resultando em um estilo carregado de tensão e mudanças de dinâmica. Ao mesmo tempo que é desprendido da técnica erudita, a estrutura de sua música está longe de ser básica. De acordes cheios com pegada beirando o punk a complexas sequências de arpejos, o Filho da Mãe acaba por unir o melhor dos dois mundos.

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Tudo isso pode ser observado nos vídeos que ilustram este artigo. Entre tragadas de cigarro, pedais e efeitos de guitarra - outra influência moderna utilizada em algumas músicas do disco -, é perceptível a entrega de Rui ao tocar; como o próprio definiu em outra entrevista, "o instrumento controla-me a mim com muito mais facilidade do que o contrário acontece. Acho que parte da piada de Filho da Mãe vem daí. Sou eu a tentar controlar aquilo de alguma maneira, é uma perseguição." Em certos momentos, o transe é tamanho que já não se sabe mais onde começa o homem e termina o violão.

Mas o trunfo de "Palácio" reside nas canções, indo além do apelo técnico que tanto atrai músicos e entusiastas de álbuns instrumentais. Cada tema parece contar uma pequena história, uma divagação em nossas cabeças. É uma narrativa arriscada pois o violão, assim como outros instrumentos acústicos, prima pela sinceridade: o que se escuta é exatamente o que foi executado, sem truques. Um risco que Rui Carvalho abraçou como Filho da Mãe, e que revisita sempre que empunha seu instrumento. A platéia agradece, e indaga: "como esse cara faz isso? É um filho da...!"

Realizado e editado por Ricardo Tabosa

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fabio machado

ainda não se decidiu se é um jornalista que desenha ou um músico que escreve textos. Enquanto isso, continua fazendo um pouco de tudo.
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