11 de Setembro: o terror, as vítimas - e milhares de sapatos

O maior atentado contra os Estados Unidos completa 10 anos. Nesse tempo, surgiu um novo projeto para ocupar o lugar do World Trade Center e Osama bin Laden morreu - uma morte comemorada por multidões . Mas, como uma bala de menta após o café, o gosto amargo continua na boca.


11, al, ataques, bin, de, iorque, laden, nova, qaeda, sapatos, setembro, terrorismo, terroristas © O símbolo do sistema financeiro destruído (U.S. Navy).

Pelo horário de Brasília eram 9h45; pelo de Lisboa, 13h45. A maioria das pessoas estava no trabalho ou na escola. Quem não tinha televisão, rádio ou computador por perto, ouviu apenas boatos. Boatos de algo tão aterrorizante que não pareciam ser verdade. O 11 de setembro de 2001 ficou marcado como um dia de terror.

Os plantões jornalísticos entraram no ar, os telejornais da noite mudaram completamente sua pauta. O assunto do dia era um só, no Brasil e em todos os outros cantos do mundo. Dez anos após o atentado, ainda é difícil falar sem um tom amargurado, como se nenhum tempo ainda tivesse passado.

A exemplo disso temos Hollywood. A indústria do cinema não deixou de lado a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã. Mas, neste caso, Hollywood se omitiu. Veio com super-heróis. Os dois filmes do atentado, “Voo 93” e “World Trade Center”, ambos de 2006, fracassaram nas bilheterias. O público não quer reviver esse dia.

Havia 430 empresas sediadas no World Trade Center. 50 mil pessoas estavam trabalhando nestes edifícios, cujas visitas diárias eram cerca de 140 mil. O intervalo de 52 minutos, na torre sul, e 102, na norte, entre a colisão e o desabamento, enterrou consigo 110 andares e 2.606 vítimas.

11, al, ataques, bin, de, iorque, laden, nova, qaeda, sapatos, setembro, terrorismo, terroristas © Pentágono (United States Federal Government).

Nos dois aviões que atingiram os edifícios, morreram 147 pessoas. No Pentágono, também alvo do ataque, foram 125, mais 59 que estavam no voo. No quarto avião sequestrado, mais 40 vidas foram levadas, quando o avião se despenhou num terreno da Pensilvânia. Ao todo, 2.977 vítimas. Quem hoje consegue não associar a data 11 de setembro com o que aconteceu? Quem perdeu alguém, ganhou uma enorme marca de lembranças e remorso e saudade.

11, al, ataques, bin, de, iorque, laden, nova, qaeda, sapatos, setembro, terrorismo, terroristas © Soldados no Afeganistão (United States Federal Government).

As chamas duraram 99 dias. Ainda antes de acabarem, 26 dias após o atentado, os Estados Unidos bombardearam o Afeganistão. Foram quase dez anos de guerra até que, no primeiro dia de maio de 2011, o líder da rede terrorista Al Qaeda, Osama Bin Laden – sempre tido como um dos mentores do ataque – foi morto. O presidente Barack Obama discursou. Em vários locais do mundo, mas sobretudo nos EUA, as comemorações não se fizeram esperar.

11, al, ataques, bin, de, iorque, laden, nova, qaeda, sapatos, setembro, terrorismo, terroristas © Times Square após a notícia da morte de Bin Laden (Josh Pesavento).

Esse foi o maior atentado que os Estados Unidos já sofreram. A maior cena de crime do mundo deixou muita poeira e cheiro de mortos. Por ordem do prefeito Rudolph Giuliani, tudo o que foi retirado das ruínas foi enviado para um ex-depósito de lixo, em Staten Island, rebatizado de “Ilha dos Mortos”. Era 1,5 milhão de toneladas de escombros.

11, al, ataques, bin, de, iorque, laden, nova, qaeda, sapatos, setembro, terrorismo, terroristas © Bombeiro pede ajuda de mais dez para o resgate (U.S. Navy).

11, al, ataques, bin, de, iorque, laden, nova, qaeda, sapatos, setembro, terrorismo, terroristas © Oitenta dias após o atentado (United States Federal Government).

Nesse depósito, esteiras rolantes ganhavam subdivisões com os nomes dos objetos – ou restos mortais – coletados para facilitar a identificação das vítimas. Em uma delas, “sapatos”. Milhares de sapatos. Segundo os policiais, um dos artigos que menos sofreram com a destruição.

Para esses sapatos, o dia começou como se espera que um dia comece, corriqueiro. Foram calçados. Alguns devem ter pegado metrô, andado bastante ou chegado a trabalho de carro. Muitos devem ter ficado a maior parte do tempo sob mesas. Com pausas para pegar água, café; ir ao banheiro.

No primeiro barulho de explosão, devem ter corrido muito. Mas muito. Por onde dava. Do jeito que dava. Saltos altos devem ter se quebrado. Muitos devem ter ficado para trás, arrancados.

Alguns voaram. Muitas pessoas naquele intervalo de uma hora se jogaram pelas janelas. Do lado de fora, apenas se viam sapatos voando.

Outros foram jogados contra o World Trade Center. Estavam no avião. Talvez calçados, talvez não. Descansando em voo. Preparando-se para pousar, pegar as malas. Também não tiveram muito tempo para assimilar o que estava acontecendo. Não podiam correr, fugir. Estavam presos em um avião cujo destino mudou totalmente a história dos anos que se seguiram. Eles foram atirados ao fogo.

Se grande parte do concreto virou pó, imagine o que aconteceu com as pessoas. Só sobraram sapatos. Empoeirados. Marcados. Nas esteiras rolantes. Alguns devem ter sido identificados e levado alívio e desespero ao mesmo tempo. Aquela perda de esperança misturada ao ponto final de uma história. A história de tantos sapatos que assim, simplesmente assim, foram descalçados.

11, al, ataques, bin, de, iorque, laden, nova, qaeda, sapatos, setembro, terrorismo, terroristas © Memory Foundation World Trade Center (SPI dbox).


mariana carrillo

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