Aos 27 anos: os fracassos extraordinários

A má fama dos 27 anos é que todos estão observando os passos que damos. Algum passo em falso é um insulto a um suposto iminente sucesso, que vai macular a nossa entrada para a fase adulta.


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Amy Winehouse morreu aos 27 anos, juntando-se à trupe dos que morreram com a mesma idade - por exemplo, Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones e Kurt Cobain. Uma circunstância que a mídia aproveita para santificá-los, salientando toda uma suposta mística que envolve a morte prematura de celebridades da música nesta precisa idade. Mas aponto aqui o verdadeiro problema dos 27 anos: a vida, não a morte. E este problema atinge não somente celebridades da música, mas todos os outros mortais.

Porque a vida aos 27 não é fácil. O problema é que ali residem as mais infaustas circunstâncias do final da juventude e começo da vida adulta. É a ponte na qual muitos de nós insistimos em olhar para baixo e arredar. Segundo alguns psicólogos, é uma das fases mais difíceis da vida.

Claro que teremos os mais otimistas a dizer que os 27 anos foram a melhor fase de suas vidas. E que não tiveram problema nenhum na passagem da juventude à fase adulta, que tudo correu muito bem, ostentando-a como uma particular era de ouro. Estes eu chamo de sortudos.

O seriado “Friends” foi, por exemplo, elaborado primeiramente para mostrar seis amigos que passariam pelos eventuais conflitos e infortúnios do começo da vida adulta, a partir dos 27 anos. Os produtores David Crane e Marta Kauffman afirmam que queriam salientar o momento da vida em que o futuro parece incerto e nos encara, implacável. E este momento é exatamente a fase na qual as responsabilidades crescem, assim como as exigências. A fase na qual todos ouvem o tic-tac dissoluto do relógio a fim de acompanhar nosso desespero, e desajeito, em colocar tudo nos eixos até os temidos 30.

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Aos 27 é quando começa, de fato, a corrida para alcançar o sucesso, uma vez que a esta idade, geralmente, se está preparado para o competitivo mercado de trabalho. Além de, supostamente, ter maturidade o suficiente para assumir um compromisso que leva à obviedade e regra da vida: família e filhos. E ai de nós se chegarmos aos 30 sem tais resultados.

E é por essa pressão que começa por volta dos 27 anos – de tomar decisões, ir de encontro a desafios, dar a cara (e, por vezes, a dignidade) à tapa – é que muitos acabam fracassando. É também pelo excesso de confiança que faz acreditar que se tem e que se é. Aos 27, somos jovens o suficiente para agüentar o mundo inteiro nas costas. E velhos demais para não aceitar a responsabilidade desse peso. O fracasso mora dentro desses pensamentos.

Lembro-me como se fosse ontem: no dia exato do meu aniversário, eu estava dentro de um avião fazendo a ponte Nova York - São Paulo. Foram aproximadamente nove horas de um sentimento sufocante de fracasso. Explico: fui para ficar, não fiquei. Por variadas razões, a que não darei destaque, meus planos estavam voltando comigo. Eu tinha sentimentos rasgados e sentia o cheiro da poeira da velharia que eu carregava dentro de mim, como objetivos não cumpridos e promessas não cumpridas, que não seriam mais esquecidos. Portanto, meus 27 anos também foram trágicos e, o que é pior, já nas primeiras horas, cumprindo com categoria o grande clichê que acompanha a idade.

Ao meu lado, no avião, acompanhou-me um americano de Seattle. Em meio à conversa contei a ele que fazia aniversário. No que ele observou, com um olhar paternal: “Você não parece muito feliz para quem está com 27 anos”. Soltei um sorriso tímido e disse que tentaria. Ele respondeu: “Tente com mais vontade”. E daí que eu nunca mais me esqueci de tudo o que aquele homem me disse com apenas uma frase que, para mim, é tão boa quanto a afirmação de Churchill: “O sucesso é saltar de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo".

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O fracasso é um direito individual – pensei ao sair do avião. E ao olhar para os meus pais, que me esperavam no portão de desembarque, imaginei que eles se perguntavam por que diabos eu estava sorrindo. E eu estava sorrindo. Abraçaram-me, pegaram minha bagagem e me olharam como se soubessem exatamente como me sentia. E, depois de alguns momentos, meu pai disparou: “Querida, eu já tive 27 anos”. E o que ele quis dizer foi: “Querida, eu também já fracassei extraordinariamente”.

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Logo, o problema que ronda os 27 é a vida. A vida que atrasa em nos ensinar como devemos fracassar numa fase em que o fracasso é quase uma regra. E o que é pior, é a vida que jamais nos ensina como devemos nos levantar de uma queda. Para aprender isso teremos que tropeçar e cair. E cair de novo e de novo e mais uma vez até que a nossa queda permita-nos levantar de modo teatral. E, cá entre nós, ninguém levanta de modo teatral aos 27. Nem com um pouco mais de entusiasmo. Aos 27 se cai de modo teatral, nada mais.


rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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