Bibelôs Macabros: um olhar sobre a normalidade

O trabalho com objetos prontos que adquirem um novo significado através de novas interpretações é bastante utilizado no meio artístico e normalmente bastante revelador. Questionar a essência dos objetos ao nosso redor e experimentar novas formas de encarar o corpo são alguns dos desafios que a britânica Jessica Harrison nos instiga com a sua série “Broken Figurines”. Depois dela, os bibelôs da casa da sua avó não serão os mesmos.


bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Emily".

Nenhum ícone representa melhor a era consumista e veloz em que vivemos do que os bibelôs feitos em série pelas indústrias chinesas. Acabou-se o tempo em que cada peça era pensada e realizada de maneira única; hoje o que impera é o lucro e para ter cada vez mais lucro é preciso produzir em larga escala.

Quem nunca encontrou, delicadamente organizado sobre a estante na sala da casa da mãe ou avó, um anjinho, um animal com semblantes dócil ou uma moça recatada da idade média dançando ao som de nenhuma música? Pois é, esses objetos são parte do nosso imaginário, muitas vezes compondo cenas de nossas lembranças da infância ou de alguma bronca ouvida depois que um deles teve um encontro desastrado com o chão.

bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Barbara".

bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Caroline".

Jessica Harrison brinca exatamente com essa ordem preconcebida das coisas nossas de todo o dia. Num processo, que ela mesma diz ser mais de desfazer do que de fazer, ela desconstrói a imagem dessas mocinhas recatadas dando a elas feições macabras.

Alterando essas cerâmicas preexistentes com resina epóxi a artista brinca com o nosso imaginário e questiona a nossa visão de mundo. A familiaridade com os objetos deixa de existir e tudo passa a ser novo e suscetível a interpretações diferentes das conhecidas.

bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Bridget".

bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Elisabeth".

Segundo a artista, suas obras não são sobre violência contra o corpo ou contra esses objetos, mas sim uma reflexão sobre a nossa percepção das coisas ao nosso redor. Ela propõe, através da reinvenção das figuras que normalmente despertam o nosso zelo e cuidado, reconsiderar a relação com o que é normal ou considerado normal.

É uma tendência humana, e principalmente pós-moderna, acreditar na pureza dos objetos. Essa questão povoa o mundo das artes há muito tempo. Questionar o belo, o válido e o que é puro dentro desse universo é uma missão que, na maioria das vezes, não encontra uma resposta única.

A única resposta possível para esse dilema está dentro de cada um. Apenas eu, dentro de mim mesmo e com a minha visão do mundo, posso definir o que é belo ou aceito por mim. E nisso, o trabalho de Harisson faz uma ponte entre o corpo e os objetos. Pensar o corpo como um filtro para as sensações e percepções é o alvo desses bibelôs recriados.

bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Erin".

bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Fiona".

É impossível olhar para as obras de Jessica Harrison e não lembrar as teorias do sociólogo polonês Zygmunt Bauman a respeito da nossa tão conhecida e questionada pós-modernidade. Diz-nos Bauman: “A pureza é uma visão das coisas colocadas em lugares diferentes dos que elas ocupariam, se não fossem levadas a se mudar para outro, impulsionadas, arrastadas ou incitadas; e é uma visão da ordem."

E para você, o que é ser normal?

bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Grace-Anne".

bibelo, bibelot, harrison, jessica, kitsch, macabro, normalidade, pos-moderno © Jessica Harrison, "Kirsty".


Jéssica Parizotto

jéssica parizotto é uma proparoxítona, interessa-se por haicais, músicas pouco conhecidas e jogo de palavras. Queria voar de balão, mas tem medo de altura.
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