Biombos Namban: retratos dos "bárbaros do sul"

Em 1543, um acontecimento histórico marca o inicio dos contactos entre o Ocidente e o Extremo Oriente: os Portugueses desembarcam no Japão. Este encontro de civilizações e as trocas culturais e comerciais que se desenvolveram ficaram registados nestes compartimentos móveis chamados biombos namban. Artistas japoneses narraram através da pintura como o seu país contactava pela primeira vez com o exterior.


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Até ao século XVI, o Japão era um país fechado em si mesmo. Com hábitos e tradições extremamente fortes, o contacto com outros povos era praticamente inexistente. A sociedade japonesa da época estava organizada segundo criteriosos padrões que não viam com bons olhos a influência do modo de vida ocidental. Só em 1543, quando os Portugueses aí desembarcaram pela primeira vez, é que o país começou a estabelecer ligações com o mundo exterior.

Um encontro de civilizações

Os contactos entre Ocidente e Extremo Oriente desenvolveram-se através de um intercâmbio cultural e comercial. Portugueses e Japoneses adoptaram entre si traços culturais e religiosos e fizeram trocas de variados produtos comerciais. Os sacerdotes da Companhia de Jesus tinham embarcado com a missão de evangelizar os habitantes locais. Até 1593, mais de 150 mil pessoas tinham-se convertido ao cristianismo, e foram construídas dezenas de igrejas.

As Naus dos Portugueses traziam também objectos de grande valor. Por já serem frequentes as suas trocas com a Índia e a China, transportavam sedas, peças de mobiliário, porcelana e animais exóticos. Bens que os Japoneses ambicionavam, mas, por estarem proibidos pelo Imperador de qualquer transacção com os chineses, foram os portugueses a actuar como intermediários.

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A constante presença ocidental no país e a curiosidade que oa estrangeiros despertaram acabou por influenciar - entre muitos aspectos - a própria arte japonesa. A arte Namban, desenvolvida sobretudo nesta época, retrata este encontro de civilizações tão distintas.

Os “bárbaros” pintados em biombos

Os japoneses não compreendiam muitos dos hábitos trazidos pelos estrangeiros. Comer com as mãos em vez de usarem pauzinhos por exemplo, era algo pouco educado. A forma como se vestiam e também como falavam ou expressavam as suas opiniões em nada se parecia com a sua. Para eles, os portugueses eram pouco sofisticados, pouco civilizados. Por isso foram apelidados de “namban-jin”, ou seja, bárbaros do Sul. Uma leitura de Peregrinação, biografia fascinante de Fernão Mendes Pinto - um dos primeiros europeus a pisar aquele território -, mostra por exemplo, e com boa dose de humildade, as filhas de aristocratas japoneses a fazerem representações teatrais em que troçavam dos costumes portugueses.

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O nome destes bárbaros do Sul deu origem à arte Namban: minuciosas pinturas narrativas feitas em biombos. Estes compartimentos móveis, que servem para dividir espaços, contam os acontecimentos ligados à presença portuguesa no Japão. Normalmente executados aos pares, a história do primeiro continuava no segundo. Com uma estrutura de madeira e cobertos por sucessivas folhas de papel, era na sua superfície que o pintor as narrava usando têmpera e cores fortes, sobre um fundo folha de ouro. Eram ainda rematados com uma fina moldura em laca. Numa época em que o país emergia de uma crescente estabilidade económica e política, estes biombos foram encomendados para espelhar o ambiente provocado pela chegada dos “bárbaros do sul“ ao porto de Nagasáqui.

As cenas representavam a chegada da nau, o seu aspecto e os carregamentos que trazia; os cortejos das tripulações; os portugueses e os seus trajes; os escravos que acompanhavam os seus amos carregando mercadorias ou os enormes guarda-sóis que os protegiam do calor e a presença dos missionários jesuítas. Certos pormenores fazem-nos sorrir - por exemplo, o tamanho enorme dos narizes dos europeus, segundo a opinião dos artistas japoneses.

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O detalhe e a forma sequencial com que os protagonistas e cenários foram produzidos permitem-nos ainda hoje “assistir” a este encontro com grande vividez. Uma das maiores colecções de biombos namban encontra-se no Museu da Cidade de Kobe no Japão. Há também vários exemplares no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Sophia de Mello Breyner Andresen, uma das grandes poetas do século XX português, escreveu um poema sobre estes objectos artísticos:

Os Biombos Namban Os biombos Namban contam A história alegre das navegações Pasmo de povos de repente Frente a frente Alvoroço de quem vê O tão longe tão de pé Laca e leque Kimono camélia Perfeição esmero E o sabor de tempero Cerimónias mesuras Nipónicas finuras Malícia perante Narigudas figuras Inchados calções Enquanto no alto Das mastreações Fazem pinos dão saltos Os ágeis acrobatas das navegações Dançam de alegria Porque o mundo encontrado É muito mais belo Do que o imaginado

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diana ribeiro

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