Um copo de cólera: um conflito sexual

Se o estilo é, como dizem, a impressão digital do escritor, tê-lo, no entanto, não é assim tão natural e displicente como esses riscos que todos nós possuímos na ponta dos dedos. O estilo é um monumento que se vai construindo aos poucos, sob o peso dos anos, a cada assassinato simbólico dos escritores prediletos e exorcismo das obras mais influentes. É assim que costuma ser.



conflito, literatura, Nassar, novela, Raduan, relacionamento © Fotografia de Lelena Terra.

Muito raros são os escritores que desde a estréia possuem dicção própria. Raduan Nassar é um desses casos raros das nossas letras. Seu primeiro livro lançado, Lavoura Arcaica, alcançou tal nível de excelência na linguagem que se tornou um clássico imediato. Foi lido, relido, estudado a exaustão nas academias, foi e continua sendo assunto recorrente em rodas de leitores de literatura brasileira. Raduan Nassar sugere nesta novela que o conflito e o sexo podem ser coisas bem parecidas, senão iguais.

Não há quem não atribua à alta qualidade literária de Lavoura Arcaica o motivo pelo qual Raduan veio deixar de escrever logo após sua estréia. À sombra de sua obra-prima, o escritor se sentiu ameaçado de não conseguir superá-la. Bom, se isto não corresponde à verdade, não deixa de ser uma possibilidade a meu ver bem plausível. O fato é que hoje em dia Raduan mora tranquilamente em um sítio no interior de São Paulo e é um pacato criador de galinhas.

Embora lançado três anos depois de Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera foi escrito cinco anos antes, 1970. Essa informação é necessária para que se perceba que os cinco anos que separam uma obra da outra não flagram assim uma evolução (leia-se mudança) tão nítida na maneira de Raduan escrever. Até ao contrário. Esse tempo transcorrido serve para atestar que a linguagem em Lavoura Arcaica não foi obra do acaso, e sim de alguém que já sabia muito bem o que estava escrevendo.

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A novela Um Copo de Cólera narra basicamente os acontecimentos de uma noite de amor e da manhã na vida de um casal, quando a aparente harmonia entre eles se rompe por um motivo insignificante e eles partem para um bate-boca absurdo, onde, segundo a própria orelha do livro, "as paixões afloram, um palco se ilumina e os personagens ressurgem de manhã fazendo o mesmo que fizeram à noite: voltam, de certo modo, a tirar a roupa do corpo". Um jorro frenético de verdades veladas, desejos reprimidos, visões de mundo antagônicas e ofensas gratuitas é deflagrado.

O enredo é simples: preocupa-se em mostrar como os relacionamentos estão fadados à falta de comunicabilidade e como o ser humano pode não ser tão coerente assim em todos seus atos. "...eu não entendo como você se transforma, de repente você vira um fascista", constata a personagem feminina em um dos momentos da narrativa.

Mas o que torna mesmo essa novela uma autêntica obra-prima é o poder que Raduan confere à linguagem, dando a todas as passagens uma vibração e uma beleza só possíveis pela escolha certeira de cada palavra. É recorrente a afirmação, entre poetas e estudiosos, de que não se faz poesia com idéias, mas com palavras. Acho que essa máxima serve muito bem para a prosa nassariana, que é uma prosa essencialmente de palavras: sonoridades, eloqüências.

É claro, além da arma da linguagem, Raduan emprega também técnicas narrativas muito felizes para a dinâmica do enredo. O fluxo de consciência, por exemplo, de que o escritor se vale para traçar o perfil psicológico do personagem masculino, um misantropo de rompantes infantis, é digno de nota. No capítulo final ainda temos o deslocamento do foco narrativo que passa do homem para a mulher, capítulo importantíssimo porque consolida uma das idéias centrais do texto: a verdade está com a pessoa que discursa.

ederval fernandes

Ederval Fernandes é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.
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