Uma Pedrada no Lago da Ciência

Um pedaço de uma civilização calado nas sombras da História. Segredos petrificados em caracteres espalhados nos templos e papiros sussurravam o Egipto – a estória desta “nossa” Humanidade. Das 7000 línguas deste mundo, os hieróglifos eram a saliva por provar. Até que um dia um soldado de Napoleão atirou uma pedra ao lago da ciência, na cidade de Roseta.



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A história da Pedra de Roseta é um must para se contar na mesa do café. Entre cigarros, café e pastéis de nata, podemos cavaquear que sem esta pedra seria certo que os Anunnaki construíram as pirâmides do Egipto. É isto que a ciência (supostamente) faz: “leave no stone unturned”. E, neste caso, literalmente.

A pedra de Roseta deu muito que falar. Hoje, a Roseta tem mais para ver, vitrinada a salvo dos dedos alheios num recanto do Museu Britânico, e muito mais para reflectir. Podemos partir do princípio de que é a língua que nos une. Salvando com fugacidade a sexy realidade da frase anterior, rectifico a palavra para “Língua”. Estamos unidos pela Língua, também porque “no princípio era o Verbo” e sem Ele nem eu nem o leitor nem este texto existiriam, mas essencialmente porque sem Ela, a Língua, somos mudos. E porque também sem essa nuance da comunicação muito se perde.

A Língua une-nos ao Passado, numa lambidela contínua que condensa a nossa História, tantas vezes áspera, errante, desenxabida. Tantas vezes cuspida. E é a Língua que torna possível essa mesma História, tal como a concebemos hoje. Engraçado pensar nisto assim tão incisivamente, mas é verdade: a Pedra de Roseta constrói-Nos. É uma ponte de pedra para o evidentemente nosso e ainda misterioso e místico (quase fantasioso) Egipto.

Observando a imagem acima podemos constatar, entre muitas, duas coisas: 1) que há na parede um tipo de escrita, aparentemente “algo naïf” – os hieróglifos; 2) que o cinema veio acrescentar uma importante dimensão à imagem que tínhamos da vivência dos egípcios – é sabido que até então tudo teria acontecido num único plano geométrico, com mulheres e homens de eyeliner (muito avant-garde), em filas “indianas” (!), bracejando estaticamente uma dança serpenteada.

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A deveras ingénua primeira abordagem aos hieróglifos serve de mote para flutuarmos momentaneamente no imbróglio que foi entender (decifrar) o que raio significavam aqueles complexíssimos e aparentemente aleatórios conjuntos de ícones meticulosamente alinhados. Algo mágico pairava sobre as paredes, e à luz de uma vela uma gloriosa história vivia, oculta, no ventre de cada decalque, nos contornos de cada pincelada.

Um dia, um soldado de Napoleão Bonaparte, durante a árdua tarefa de destruir e recolher paredes antigas da cidade de Rashid (Roseta), para ampliar o Forte Julien para as suas tropas, deparou-se com uma pedra. Fumou então um pensativo cigarro e teve uma óptima ideia …

Todos sabemos que o génio de Bonaparte ia para além do militarismo táctico. A campanha egípcia, no final do século XVIII, permitiria à França uma maior influência no Oriente; conquistar este país era da maior importância estratégica. Podemos dizer que, “felizmente”, os ingleses não gostaram muito deste movimento bélico francês e, assim que as tropas napoleónicas desembarcaram na costa do Egipto, em 1798, a marinha britânica destruiu todos os navios inimigos. Os franceses ficaram sitiados nas margens do Nilo durante 19 anos. Nada mau, penso.

Felizmente, também, Napoleão terá lido Sun Tzu e sabia que para governar um país é preciso saber tudo sobre o seu espaço e a sua cultura e criou, durante o isolamento, uma Comissão Científica e Artística – o Instituto do Egipto – ao qual o nosso soldado-herói-ocasional entregou o estranho fragmento polido encontrado na cidade de Roseta (foi esta a óptima ideia do referido soldado, conforme dito atrás).

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Bem… contextualizada a descoberta, vamos lá perceber o que é que esta pedra tem de tão especial e qual a “revelação” que incrusta.

Assim à primeira vista, de especial, nada. Um fragmento granítico de uma estela, 118 cm de altura, 77 cm de largura e 30 cm de espessura. Uns 700 quilos e umas inscrições. E, efectivamente, nada de extrema relevância se pode lá ler. Muito resumidamente, o que se passou foi que, cerca de 200 anos a.C., o faraó Ptolomeu V Epifânio concedeu ao “seu” povo uma série de benesses, e os sacerdotes, em sinal de agradecimento, ergueram uma estátua e, para que ficasse registado para a posteridade este acto de bondade, gravaram o acontecimento em diversas estelas comemorativas e mandaram colocar nos templos mais importantes – excelente ideia, diremos nós. De mais, o que se salienta com alguma curiosidade neste texto “estelar” (passo a errada aplicação da palavra) é o prolixo panegírico ao (já nem sei como o introduzir) faraó Ptolomeu. Cá vai uma breve recolha: “(…) senhor das coroas, glorioso, que criou o Egipto, e é piedoso com os deuses, superior a seus inimigos, que recuperou a vida civilizada do homem, senhor dos Banquetes de Trinta Anos (…); um rei, como o Sol, o grande rei das regiões altas e baixas; descendente dos Deuses Philopatores, aquele que foi aprovado por Hefesto, a quem o Sol deu a vitória, a imagem viva de Zeus, filho do Sol, Ptolomeu eterno, amado de Ptah (…); o rei, de acordo com a lei.”

Como as primeiras vistas, assim como as primeiras impressões, rareiam de profundidade (e até de verdade), um olhar mais cuidado denota que algo de mais relevante estava ali a acontecer para além da vontade dos sacerdotes de inscrever a mensagem para um vasto rol de leitores (e até, quiçá, prevendo a necessidade de uma chave de leitura para o tal misterioso desconhecido: afinal, quem eram estes ilustres sacerdotes?). Portanto, e agora que urge perceber porque, por exemplo, falamos da descodificação da cadeia de ADN como uma pedra de Roseta, e porque fica bem desvendar o essencial do conteúdo no final, passamos a explicar o porquê de todo este rebuliço. A Pedra de Roseta contém a referida mensagem em três línguas diferentes: em grego, em demótico e em hieróglifo. Ora, se o grego e o demótico eram inteligíveis, com os hieróglifos até os próprios gregos se viam gregos. A decifração surgiu em 1822 pela cabeça do pai da egiptologia, o linguista francês Jean-François Champollion, génio que aos dezasseis anos dominava 12 línguas. A Pedra de Roseta serviu de glossário de tradução dos hieróglifos – a “escrita (glyfus) sagrada (hiero)”. De alguma forma, podemos concluir que esta pedra foi a lápide que encerrou mais de 1400 anos de incompreensão de segredos do Egipto Antigo.

Esta pedra é um importantíssimo marco (ou alicerce) para a construção da Humanidade, principalmente da identidade egípcia. E não nos enganemos (eis a reflexão) – nós somos reflexo dos resquícios dos Passado, a descobrir nas lacunas uma nova e excitante identidade, a empilhar novas Pedras de Roseta.

Por fim, saberemos agora inferir que de todas as pedras que poderia encontrar no caminho, a Pedra de Roseta foi uma das mais preciosas em que a Ciência pôde tropeçar. E se as apanhar todas e um dia quiser construir um castelo, que não seja o de Kafka, porque desses castelos já sabemos nós. Desta vez, que seja uma pirâmide.

miguel oliveira

; possui o cérebro na ponta dos dedos. Pinta palavras em ecrãs de computador com aquilo que sintetiza do mundo e diz possuir um rádio no lugar da cabeça.
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