E no sétimo dia o robô descansou

Vida artificial e arte não-humana. Através desta conjugação, o artista português Leonel Moura deu fôlego a uma nova forma de conceptualizar a criatividade: abram alas para a Arte Robótica. Das suas mãos nascem pequenas máquinas que criam arte e para isso basta dar-lhes autonomia e liberdade. Depois de o ser humano substituir Deus no centro do cosmos, chega a vez de os robôs tomarem o lugar… e também eles serem criadores. Será isto o próximo passo evolutivo?



arte, artificial, inteligencia, leonel, moura, robo, robotica, rpbot, tecnologia © Leonel Moura.

O pequeno prisioneiro passa os seus dias confinado a uma vitrina, à mercê dos olhares mais curiosos que o observam do exterior, como se fosse uma bizarra criatura que faz coisas proibidas. “Aquilo é mesmo arte?”, sussurram entre si os forasteiros. Incólume aos mexericos que vêm do lado de fora da jaula de vidro, o artista passeia-se por cima de um enorme rolo de papel branco, esforçando-se, com as suas canetas coloridas, por pintar manchas de cor que à primeira vista parecem não fazer qualquer sentido . RAP, como é conhecido, é um artista fora do comum, e disso ninguém tem dúvida. Ou, como prefere dizer Leonel Moura (o seu grande mentor), ele “é um artista abandonado à sua sorte num espaço confinado e que se dedica por sua conta e risco à criação de obras originais, produto da sua própria percepção sobre o pequeno mundo em que vive”.

RAP – um acrónimo de Robotic Action Painter – é afinal um pequeno robô com nove olhos (sensores), que se move para ali e acolá, de forma aleatória, com a ajuda de umas pequenas rodas. Para grande espanto dos humanos, os desenhos que rabisca são determinados por si, cabendo-lhe o juízo de decidir quando é que estão acabados. Cá está mais um criativo que gosta de ser senhor do seu nariz. Além do mais, e talvez por ser vaidoso (será que robôs compreendem o que é a vaidade?), só começa a desenhar quando sente a presença dos visitantes.

arte, artificial, inteligencia, leonel, moura, robo, robotica, rpbot, tecnologia © Leonel Moura, "RAP - Robotic Action Painter".

Além de mentor, Leonel Moura é ainda o homem que criou esta máquina que vive para a arte, uma máquina pensada e elaborada para, precisamente… criar, tal e qual como se fosse um humano. Os desenhos da sua autoria “são o produto da criatividade de um robô confinado a uma vitrina e sem qualquer intervenção externa”, explica Leonel Moura, tanto mais que a única manutenção humana que lhe é feita consiste na mudança das canetas.

arte, artificial, inteligencia, leonel, moura, robo, robotica, rpbot, tecnologia © Leonel Moura, "Obra criada por RAP - Robotic Action Painter".

arte, artificial, inteligencia, leonel, moura, robo, robotica, rpbot, tecnologia © Leonel Moura, "Obra criada por RAP - Robotic Action Painter".

As zonas coloridas e os pequenos padrões são o mais importante para RAP, pois são eles que vão ditar se o trabalho já está perfeito ou se ainda precisa de mais uns retoques artísticos. Basicamente, RAP tenta gerar “manchas de colorido”, numa prova de que “o seu processo de criação de um desenho não assenta exclusivamente no factor aleatório”. Cada desenho é único, podendo demorar duas semanas a ficar concluído, e quando “vistos em conjunto fazem lembrar imagens de galáxias, com grandes concentrações de estrelas ou em rota de colisão entre várias concentrações mais pequenas”. Eis, portanto, um exemplo de arte robótica, tal como Leonel Moura conceptualiza. Mas será isto heresia? Afinal de contas, não é a criação artística uma característica intrinsecamente humana?

Deus, o ser humano… e por fim a máquina

Voltemos atrás e comecemos pelo início. Afinal, que tipo de arte é esta? Foi precisamente isso que a Obvious quis saber, dando o direito de resposta a Leonel Moura. “A arte robótica é por sua natureza uma arte não-humana”, começa por nos resumir. “De momento ainda temos bastante controlo, mas o importante é perceber que devemos perdê-lo, aliás, essa é a novidade do meu trabalho por oposto aos artistas que usam máquinas e robôs como mera ferramenta tecnológica da sua própria arte”. Autonomia para os robôs, portanto. Um desafio a superar em nome da arte, pois claro.

Nascido em Lisboa, em 1948, este artista (bem humano) não está por meias medidas quando se trata de traçar as metas para o seu futuro e para o da arte em geral. “Sou um artista ambicioso, no sentido em que desejo deixar a minha marca numa história da arte que vejo como uma permanente evolução, não só das formas e processos, mas sobretudo das ideias. A arte robótica permitiu-me abrir uma enorme porta para o território ainda desconhecido de uma arte que está para lá da restrita visão do antropocentrismo. Só temos tudo a ganhar se percebermos que não somos, definitivamente, o centro do Universo.”

Tal como se sabe, o Renascimento retirou os deuses do pedestal do mundo para colocar no mesmo lugar o ser humano. Este passava a ser o centro de toda a criação. Mas, meio milénio depois, os robôs abrem caminho para ocupar o lugar dos antigos mestres e criadores. A história repete-se, mas com actores diferentes. Afinal, também nós deixaremos de ser a medida de todas as coisas.

"Costumo dar um exemplo trivial mas revelador. Temos tendência a pensar que as flores, com o seu exuberante colorido, são belas para nos agradar, sobretudo às mulheres. Mas na realidade as flores são belas para agradar aos insectos. As flores não querem saber dos humanos para nada. Por outro lado, a nossa capacidade de percepção é limitada. Voltando às flores, estas usam bastante o ultravioleta que nós não conseguimos ver, mas as abelhas sim. Ou seja, para além daquilo que é perceptível para nós, no sentido conceptual e visual do termo, existe muito mais mundo. O que conduz a uma necessária reformulação de certas características que se pensou serem exclusivas dos humanos. Por exemplo, a inteligência. Sendo assim, e porque não a criatividade? Afinal, tudo o que é vivo é por natureza muito criativo. Algumas máquinas também o são.”

arte, artificial, inteligencia, leonel, moura, robo, robotica, rpbot, tecnologia © Leonel Moura, "ISU".

A arte do futuro será criada por robôs

ISU, o robô poeta, gosta dos poemas mais conhecidos de Baudelaire e Mallarmé, ao que junta uma predilecção pela letra do Hey Joe, de Jimi Hendrix. Uma lista de nomes associados à história da cultura ocidental é algo que também não dispensa. Tanto assim é que este poeta, igualmente criado por Leonel Moura – e muito parecido em tamanho e aspecto com o seu amigo RAP –, usa e abusa das letras e palavras que surgem em todo o reportório anterior, sobrepondo-as umas por cima das outras, numa amálgama quase indiscernível. No fundo, a máquina acaba por ter autonomia, mas para isso ocorrer ISU tem que estar equipado com meios sensoriais e ser dotado da capacidade para recolher informação do meio ambiente, para depois fazer decisões através de uma análise computacional. Qualquer semelhança com um homem ou mulher de carne e osso, não é pura coincidência.

arte, artificial, inteligencia, leonel, moura, robo, robotica, rpbot, tecnologia © Leonel Moura, "Obra criada por ISU".

“A vida artificial está a seguir o essencial da evolução da vida natural”, constata o artista. “Basta pensar nas seguintes características da vida: autonomia; sensores para interagir com o ambiente; análise da informação recolhida; feedback que altera o ambiente que por sua vez altera o organismo, por reacção, mutação ou evolução. Desse processo nasce a inteligência, a consciência e a criatividade.”

Robôs a criar, e por arrasto a arte a evoluir por novos caminhos, sem nada que a restrinja. Leonel Moura parece não duvidar disso: “O próximo grande passo da evolução artística é reconhecer o valor e a importância da arte não-humana, feita por animais ou robôs. É um salto maior do que a passagem do figurativo à abstracção já que nos abre as portas a uma criatividade quase ilimitada. Costumo dizer que as pinturas dos meus robôs são uma espécie de caverna de Lascaux da robótica. Irão evoluir. E quanto maior for a autonomia dos robôs menor será a sua parecença com a arte produzida pelos humanos. Chegará o dia em que nós não saberemos o que os robôs andam a fazer. Aliás, já hoje muitas vezes não sei bem o que os meus robôs estão a fazer. Surpreendem-me. Inventam coisas.”

Uma das melhores formas de encontrar ou gerar surpresas consiste em juntar vários robôs e esperar que da dinâmica entre todos algo nasça. Foi com essa ideia em mente que Leonel Moura fez surgir o Robotarium, uma espécie de zoo para cinco robôs, em que pela primeira vez cada máquina tem a habilidade de comunicar entre si através do som. Cada um é autónomo, com a capacidade de recolher energia através de painéis fotovoltaicos, o que os mantêm activos e propícios a demonstrar o mais diverso tipo de comportamentos.

arte, artificial, inteligencia, leonel, moura, robo, robotica, rpbot, tecnologia © Leonel Moura, "Robotarium".

E se as máquinas pudessem reproduzir-se entre si? Essa sim, seria a maior surpresa de todas. “A reprodução dos robôs ainda é feita por nós, mas é inevitável que um dia se consiga dar origem também a essa capacidade. Então assistiremos à verdadeira explosão câmbrica da robótica.”

arte, artificial, inteligencia, leonel, moura, robo, robotica, rpbot, tecnologia © Leonel Moura, "Actores (humanos e robôs) contracenam em R.U.R.".

Todavia, esta ideia não é nova, pois já na década de 20 do século passado a peça de teatro R.U.R., do checo Karel Capek, explora essa possibilidade. Um clássico da ficção científica e da robótica de onde surgiu, pela primeira vez, a designação robô (robota). Também aqui Leonel Moura não quis ficar atrás, pois se antes havia actores humanos a interpretar os robôs, o artista português teve a audácia de fazer uma adaptação em que os robôs… são mesmo robôs.

joão lobato

não gosta de verdades absolutas e sente-se feliz por ainda ter a curiosidade de uma criança.
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