Marlene Dietrich: a diva de cartola

Uma elegante cartola, um terno bem alinhado, uma gravata, um cigarro no canto da boca e uma expressão desconcertante e charmosa. Não, não me refiro a nenhum senhor garboso dos cinemas, muito menos a Diane Keaton. Refiro-me a uma diva - outra, para não ser injusta com Keaton. Refiro-me a Marlene Dietrich, um dos maiores ícones da história do cinema .


cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich, "Angel".

Com uma natural aura de diva, mezzo afetada, mezzo blasè, mezzo contralto, ela surgiu no começo da era de ouro de Hollywood. Foi, primeiramente, descoberta pelo apaixonado cineasta austríaco Josef von Sternberg, com quem consolidou várias parcerias, dentre elas "Der Blaue Engel" (O Anjo Azul , 1930), "Shanghai Express" (O expresso de Xangai, 1932) e "Morocco" (Marrocos, 1930) - por este último foi indicada ao Oscar, em 1931. E com o tempo provou ser digna de carregar a classificação de diva. Uma proeza, diga-se. Já que conseguiu destaque num período em que o cinema adotava uma frota de mulheres que não eram simplesmente mulheres, mas eram uma espécie de força da natureza, capazes de representar todas as expectativas do homem e da sociedade por meio das telas - cumprindo a clássica função da sétima arte numa época em que todos buscavam refúgio da desolação existencial na qual os Estados Unidos se encontravam, depois da crise capitalista.

No entanto, Marlene Dietrich trilhou um caminho cheio de falhas e tropeços até a ascensão de sua carreira. A atriz e cantora alemã cativava a todos com sua voz rouca, com sua beleza e, sobretudo, com sua ousadia. Encantou até mesmo corações petrificados como o de Hitler, que a convidou para protagonizar filmes pró-nazistas. Recusou e o deixou ofendidíssimo. Deu de ombros e virou cidadã americana, bradando aos quatro ventos seu desgosto com sua terra natal e com o nazismo. Considerada traidora pelos nazistas, foi cantar em terras ianques e, mais, cantou para os soldados das forças aliadas.

cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich, "Blue Angel".

cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich, "Blue Angel".

Atitudes ousadas como esta faziam Marlene Dietrich destacar sua personalidade ácida e intensa. Tinha uma presença tão forte que a impressão é a de que perante ela o resto dos mortais sentia-se submisso e enfeitiçado. Não é para menos. Dona de uma voz singular, de um corpo escultural e dos olhos mais tristes depois de Bette Davis, alcançou merecida fama com seu talento artístico, ainda que este talento fosse explorado num contexto de hipersexualidade. Mas qual diva não passou por tais dias? E com esta fórmula pronta de Hollywood ganhou notoriedade por manter inúmeras relações amorosas, tanto com homens como com mulheres. Deslumbrantemente feminina, tinha fama de devastar corações desavisados, inclusive de Ernest Hemingway. Nas rodas dos poderosos de Hollywood era conhecida como "amante voraz" e o levantar de uma de suas sobrancelhas era tão temido como deliciosamente sedutor.

cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich, "Desire".

cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich, "Morocco".

Divas como Dietrich povoavam o imaginário não somente de homens, que insistiam em errar os passos na fidelidade afetiva voltada às esposas, mas também das próprias esposas, que viam nela um exemplo de coragem e personalidade que se fazia notar perante uma sociedade masculina. Era polêmica e adorava sê-lo. Um de seus mais geniais comportamentos foi o de ser das primeiras mulheres a usar calças em público, e virou ícone fashion sendo, até hoje, considerada semi-deusa pelas feministas.

Marlene tinha convicções políticas muito bem definidas e freqüentemente disparava frases que abalavam as concepções tradicionalistas não só na política, mas também na moda, na indústria do entretenimento e na religião. Uma de suas frases mais polêmicas foi dita quando abandonou sua fé protestante, afirmando que "se Deus existisse, ele deveria rever os próprios planos".

cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich, "Seven Sinners".

cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich, "No Highway in the Sky".

Era, de fato, uma mulher de pulso firme e sua determinação beirava a intransigência, como afirma sua única filha - fruto de seu único casamento - Maria Riva, na biografia que publicou sobre sua mãe, intitulada "Marlene Dietrich" (1992), na qual revela um lado mais frio e autoritário da atriz. Mas, como toda a diva que se preze, há de se ter um pouco de histeria - ingrediente principal para o glamour decadente. E Dietrich tinha um acentuado lado anti-diva, lado mais evidente do que ela mesma admitia.

Sua última performance para o Cinema foi no final dos anos 70. Durante toda a sua carreira, Dietrich foi indicada ao Oscar uma única vez, em 1931, pela sua atuação em "Marrocos". Sua vida sofreu as típicas turbulências que todas aquelas que possuem diva como nome do meio estão sujeitas. Porém, nem toda diva vira lenda: há algumas que viram abóbora. E Marlene definitivamente não está neste grupo. Pelo contrário, em 1999 o American Film Institute nomeou Dietrich entre as dez primeiras estrelas de todos os tempos. Um status almejado por muitos, alcançados por poucos.

Sua morte foi tardia, somente aos 90 anos, de falência renal. Alguns acreditam que Dietrich sofria de Alzheimer. Morreu em Paris, foi sepultada em Berlim. Estava colocado o ponto final em um dos capítulos mais emocionantes dos bastidores de Hollywood. Pois Marlene Dietrich era um espetáculo por si só. E um bom espetáculo ampara o bom drama, o de uma figura que assume todos os sintomas da afetação e do estrelismo, resultado da exposição que só Hollywood é capaz de dar. Ou era isto, ou era anos de terapia. Mas eu duvido que a diva se sujeitasse ao divã.

cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich, "Destry Rides Again".

cinema, dietrich, marlene, sex, sternberg, symbol Marlene Dietrich in Israel, 1860.


rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/cinema// @obvious, @obvioushp //rejane borges