Ramón y Cajal: o homem que desenhou o cérebro humano

Médico, militar, barbeiro, professor, director, Ramón y Cajal marcou a história da medicina com um contributo notável: delineou as células nervosas cerebrais e as suas ramificações. O Nobel, em 1906, viria a premiar uma descoberta científica mas, principalmente, uma personalidade, outras formas de “rebeldia”. Do seu trabalho ficaram, além das descobertas científicas, ilustrações que são verdadeiras obras de arte.


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Rebeldia sem interesse na educação Santiago Ramón y Cajal (1852 – 1934) foi, para uns, o fundador da neurociência moderna e, para outros, um puro exemplo de polivalência. Marcou uma área científica pela sua obra. Não deixou de marcar, igualmente, a mentalidade de gerações pela sua vida e pela sua irreverência. Nasceu numa aldeia com baixos recursos, de Navarra, e viveu a juventude com os pais e irmão. Ainda criança, interessou-se pela pintura. Em 1864, tomou o gosto pela ginástica e, antes de iniciar os estudos de preparação para Medicina, em Saragoça, descobriu a fotografia. Entretanto, foi para Huesca com o irmão e trabalhou como ajudante de barbearia e aprendiz de sapateiro.

O pai, um barbeiro/cirurgião que depois se formou em Medicina, insistia que ele seguisse a mesma carreira, o que desagradou ao filho, mais interessado pela arte. A revolta não tardou: com 11 anos, foi encarcerado por ter destruído as portas da localidade onde morava com um canhão feito em casa. A rebeldia, alimentada pelo desinteresse na educação desejada pelo pai, marcou também os seus primeiros anos na Universidade. O futuro iria trazer mudanças inesperadas… ou talvez não.

“Um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe” O médico português Abel Salazar (1889-1946) celebrizou esta expressão que, claramente, caracteriza Ramón y Cajal. Desde a juventude até mesmo após a reforma, experimentou e desenvolveu os seus diferentes gostos, principalmente o da Medicina. Em 1873, terminou a licenciatura e foi nomeado médico no Corpo Médico Militar. Depois do curso e do doutoramento, interessou-se pela histologia/patologia e fez uma carreira académica brilhante.

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Em 1885/86, os seus estudos em histologia resultaram no Manual de Histologia, ainda hoje considerado relevante no estudo da Medicina. Publicou em 1904 A Textura do sistema nervoso do Homem e dos vertebrados uma das suas obras mais conceituadas. Afinal, prenúncio de uma carreira “premiada” de interesses vários que atingiu o júbilo quando, em 1906, recebeu em parceria com Camillo Golgi o Prémio Nobel da Medicina. Ainda teve tempo para recusar o cargo de Ministro da Instrução Pública de Espanha.

Desenhar o cérebro: as borboletas da alma Em 1903, Cajal iniciou a sua investigação sobre a fisiologia do sistema nervoso. Os avanços científicos que fez acerca da estrutura microscópica deste foram bastante importantes. Cajal estudou o percurso dos impulsos sensoriais na sua passagem pelo sistema nervoso central e a relação das células nervosas entre si. Usou o método de coloração do seu colega Camillo Golgi (com nitrato de prata e dicromato de potássio), aplicado em secções nervosas jovens. Cajal acabou por definir o sistema nervoso como sendo “um conjunto de unidades diferenciáveis e definíveis.” Defendia, portanto - ideia que demorou a ser aceite - que o sistema nervoso não era uma rede contínua, mas sim composto de células autónomas que se ligavam entre si por contiguidade, e não por continuidade. Os neurónios eram, portanto, as unidades anatómicas do sistema nervoso.

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Mas esta ideia carecia de demonstração. Durante anos, Ramón y Cajal dedicou-se à árdua tarefa de desenhar o que via nos seus preparados através do microscópio. São estes desenhos que nos chegaram e que, hoje como na época, impressionam pela sua qualidade técnica e artística - contributo do talento do cientista para as artes plásticas. Mesmo que não nos fascine o estudo científico, podemos deleitar-nos com a beleza destas estruturas. Muitos dos seus contemporâneos acharam, ao ver os desenhos, que se tratava de interpretações com algum grau de liberdade artística, e não de desenhos fiéis à realidade. Foi preciso que o espanhol mostrasse directamente os seus preparados a cientistas de renome para que estes reconhecessem o seu valor científico.

Olhando os desenhos delicados, é impossível não sentirmos o fascínio da investigação neurológica: afinal, o cérebro está hoje, cada vez mais, na vanguarda da investigação dos mecanismos biológicos responsáveis pela actividade da mente humana. Pensar que esta actividade do córtex, que nos torna uma espécie animal tão particular, decorre num meio com a beleza que Ramón y Cajal soube desenhar, faz-nos perceber o entusiasmo do espanhol ao descrever o seu trabalho:

"Era uma embriaguez deliciosa, um encanto irresístivel. É que, de facto, e deixando de lado os afagos do amor próprio, o jardim da neurologia brinda o investigador com espectáculos cativantes e emoções artísticas incomparáveis. Nele, os meus instintos estéticos encontraram plena satisfação. Como o entomólogo à caça de borboletas de matizes vistosos, a minha atenção perseguia, no pomar da massa cinzenta, células de formas delicadas e elegantes, as misteriosas borboletas da alma (...) a admiração ingénua da forma celular constituía um dos meus prazeres mais gratos. Porque, até do ponto de vista plástico, o tecido nervoso encerra belezas incomparáveis. Há nos nossos parques alguma árvore mais elegante e mais frondosa que o corpúsculo de Purkinje do cerebelo (...)?" (em Recuerdos de Mi Vida, 1917)

Cajal marcou irremediavelmente, não só a neurociência, mas a medicina, em geral. Nos anos seguintes, alargou o seu objecto de análise, deixando trabalho para o futuro estudo das patologias do sistema nervoso. Considerado por muitos como o maior neurocientista até hoje conhecido, a sua vasta vida profissional sai reforçada pelos traços pessoais: sem medo de seguir os seus interesses.

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Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".
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