Antoni Tàpies: o espírito catalão

Muitas vezes incompreendido pelo público em geral, Antoni Tàpies produz obras enigmáticas, famosas pela paleta de cores limitada e pelo relevo acentuado. Na sua origem estão uma crítica à política, à sociedade e à moral, feita através de uma excessiva materialidade das telas e da violência da sua execução. Conheça aqui melhor a arte de Tàpies.


antoni, catalunha, escultura, pintura, tapies Antoni Tàpies, Pavilhão da Catalunha.

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, Antoni Tàpies desenvolveu uma obra que a muitos parece enigmática e obscura. A verdade é que o artista espanhol usa uma técnica e imagética bastante próprias, como resultado da sua pesquisa intelectual e confronto com a realidade social, política e moral.

Nascido em 1923 no seio de uma família catalã e burguesa de tradição cultural, Antoni Tàpies estava destinado a ser um advogado de sucesso. No entanto, desde cedo mostrou um grande talento artístico e uma paixão pelas artes em geral. Em jovem sofreu tuberculose, e dedicou grande parte do seu tempo à leitura e à reprodução de quadros de pintores famosos, como Van Gogh e Pablo Picasso. Uma convalescença que lhe permitiu alargar horizontes e chegar a uma claridade espiritual. A partir daí, desistiu do seu curso de Direito e nos anos 40 já expunha na cidade de Barcelona.

antoni, catalunha, escultura, pintura, tapies Antoni Tàpies, Homenagem a Picasso.

Depois da Segunda Guerra Mundial e do lançamento da bomba atómica, Tàpies criou um interesse pela terra, pela matéria e pelas partículas, começando a usar diferentes materiais nas suas obras. Ao longo dos anos foi introduzindo novos materiais nas suas obras como palha, papel de jornal, etiquetas, cordas e argila, usando técnicas de assemblage e ready-made. Em Tàpies, a presença de elementos figurativos é secundária em relação à materialidade da obra de arte. A aplicação de pigmentos em impasto espesso, reforçados com areia e outros materiais, dão relevo às suas peças e tornaram-se um dos traços mais característicos do pintor, a par da limitação da gama de cores que usa.

Durante o franquismo (ditadura espanhola que durou de 1936 a 1976), através das suas obras abstractas consideradas Arte Informal e executadas com energia e violência, Tàpies espelhou a sua frustração. Os muros e as portas fechadas também são recorrentes na sua obra e reflectem a opressão que se vivia em Espanha, traduzindo obstáculos e limitações. Muitos dos seus quadros são críticas mudas à violência e opressão do regime ditatoriais. Homenageou também artistas espanhóis acossados pelo regime e defendeu a identidade catalã em obras como "Espírito Catalão" (onde usa as cores da bandeira da Catalunha, entretanto proibida) ou "Suite Catalã". Chegou a ter contactos com a polícia quando tentou criar um sindicato estudantil.

Apaixonado pela Filosofia e pela música, a sua obra espelha também a sua introspecção de influência existencialista. Em Imagem Original (1988) inspirou-se no célebre compositor de O Anel dos Nibelungos, Richard Wagner. As telas de Tàpies também têm uma grande aproximação à leitura e daí as ligações entre a linguagem visual e verbal. Nelas aparecem linguagens indecifráveis e símbolos aparentemente sem sentido através dos quais o artista questiona a comunicação. Por fim, Tàpies representa também partes fragmentadas do corpo humano como o braço, o pé ou as axilas e objectivos do quotidiano: estes elementos são transformados num enigma, num desafio irracional que sublinha a materialidade humana e dos objectos.

antoni, catalunha, escultura, pintura, tapies Fundação Antoni Tàpies.

Grande parte da obra deste artista catalão encontra-se na Fundació Antoni Tàpies, em Barcelona, um espaço que além da exposição, oferece o acesso à biblioteca pessoal do artista e a um auditório. Um espaço que, além de desejar mostrar a sua obra ao mundo, ambiciona ser um lugar de encontro e dar a conhecer o contributo da arte moderna e da tradição oriental para a sociedade. Ao longo da sua carreira recebeu vários prémios, como o Prémio da Fundación Wolf de las Artes (1981), a Medalha Picasso da Unesco (1993) e o Prémio Velázquez de Artes Plásticas (2003). Em 2010 o rei D. Carlos I outorgou-lhe o título de Maquês de Tàpies.


Diana Caldeira Guerra

A Diana gosta de caracóis temperados no verão, canja de galinha no inverno e autores clássicos em todas as estações do ano
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