127 horas: janela de graça e dor

127 horas foi candidato a seis estatuetas, e não levou nenhuma. Mas só pelo diretor e suas fotografias impecáveis já vale a pena assistir ao filme. Ademais, é uma história que merece ser contada.


127, boyle, danny, franco, horas, james, sobrevivencia

Não espere nada além do que a história se propõe contar. Em 2003, o alpinista Aron Ralston (James Franco) ficou com seu braço preso entre uma pedra e a parede, numa fresta no Blue John Canyon, em Utah, e se salvou exatamente da maneira que você deve imaginar: cortando o próprio braço. 127 horas, de Danny Boyle, feito com base no livro escrito por Ralston, narra os momentos desse acidente.

Boyle tem incrível apuro visual e isso é constante no filme. Mas os que esperam por algo mais profundo podem se decepcionar. Para sustentar o filme de 94 minutos, viajamos junto com a personagem em suas lembranças e delírios. Até que se passem as 127 horas.

Dado isso, o filme não pode ser classificado como angustiante. A aflição aparece, sim, mas em momentos pontuais - o barulho da pedra esmagando o braço de Ralston contra a parede ou o som de quando o cego canivete encosta nos nervos é ensurdecedor. Dói. As câmeras estão em constante movimento. Quando não são closes, estão distantes. Elas mostram o quanto o local é ermo e qualquer ideia de que alguém possa aparecer é anulada. Assim, Boyle nos regala imagens deslumbrantes do grande e vazio cânion.

127, boyle, danny, franco, horas, james, sobrevivencia

Os closes tentam passar a ideia do que é uma situação extrema: nada é comum, da luz do Sol à sede, tudo ganha outra dimensão. Os segundos contados para o próximo gole de água. As lentes de contato secas nos olhos. Os batimentos cardíacos acelerados. É um filme de sons e Boyle os encaixou muito bem em cada cena, até naquelas em que não há barulho algum; são eficazes, mantêm a tensão. A sonoplastia comenta o filme o tempo todo.

Ralston foi imprudente, inconsequente, egocêntrico. Mas não há interpretações ou análises no filme. Há uma única parte em que se mostra certa autorreflexão da personagem, quando ele simula uma entrevista a um programa de auditório e ironiza a forma como o “super-herói autodeclarado” eliminou qualquer chance de ser salvo não contando a ninguém seus planos. É uma cena divertida.

127, boyle, danny, franco, horas, james, sobrevivencia

O que levou ou não Ralston a ser tão displicente a ponto de praticamente cavar sua própria cova torna-se segundo plano diante de como ele age tentando sobreviver. Não perde a cabeça, nem o humor, nem tenta um suicídio. Foi pelo pior caminho, se salvou e levou uma lição. É nisso que Boyle se detém.

Franco merece crédito com sua atuação. Ele soube como tinha de olhar, gritar ou perder a voz. Nos minutos finais do filme, o desespero da personagem suga a nossa atenção e aflige. Dá um nó na garganta.

Com cinco dias, um sobrevivente, um documentário e um livro de mais de 400 páginas, Boyle se focou em narrar a agonia daquelas horas, abriu uma janela e mostrou um pedaço de um enorme campo. A sede, o frio, a fome, a raiva, as tentativas frustradas de se livrar, a sanidade. 127 horas vale a pena para quem não quiser sair com as pernas tão bambas assim – exceto pelos minutos da cena em que ele corta o braço. É uma desventura contada com graça.

127, boyle, danny, franco, horas, james, sobrevivencia


mariana carrillo

se contenta se falar e for ouvida.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 7/s/cinema// @obvious, @obvioushp //mariana carrillo