Lee Hadwin: o artista que desenha a dormir

O título é explícito. Lee Hadwin, inglês, é conhecido por desenhar enquanto dorme, mas é a primeira pessoa conhecida a produzir arte nestes termos. Curiosamente, a arte nunca lhe interessou, até ter descoberto o seu talento. Mesmo assim, não consegue produzir arte senão a dormir. Um fenómeno sem paralelo que ainda não tem uma explicação clara. Mas se a arte segue um rumo, qual será, então, o sentido desta arte?


lee hadwin artista do sono

(Mais) um caso?

Aos 4 anos, a mãe de Hadwin apanhava-o a fazer desenhos enquanto dormia, com carvão, canetas de feltro e lápis, o que estivesse à mão. Era o início que, embora básico (de acordo com a idade), ficava expresso nas paredes da sua casa. Mais tarde, seria em mesas, roupas e jornais usados. Por volta dos seus 20 anos, os seus “trabalhos nocturnos” passaram a ganhar maior detalhe e profundidade. Hadwin deitava-se, nessa altura, com material de desenho ao lado, na esperança de acordar com mais trabalhos feitos. O “artista do sono”, como é conhecido, nasceu em 1974, é de North Wales, Grã-Bretanha, e é enfermeiro. Gosta de ver filmes, viajar pelo mundo e divertir-se. Também se interessa pelo cosmos espacial, pelo universo, em geral, e pelas matérias de ordem espiritual. Apoia acções de caridade como as da organização social “Missing People”.

Nunca se interessou por arte nem desenvolveu essa feição, não tem um talento artístico particular e nunca conseguiu reproduzir alguma obra acordado. Apesar de ser um caso curioso, para o director do “Sleep Center”, de Edimburgo, “as pessoas fazem coisas invulgares enquanto dormem”. Alguns fazem sexo enquanto dormem, comem durante a noite sem acordarem e até conduzem veículos. Alguns dos terapeutas interessados explicam este fenómeno como sendo um sinal de um trauma mental. Sabe-se que Hadwin perdeu 5 pessoas próximas em idade precoce, mas nada mais ficou provado.

lee hadwin artista do sono

lee hadwin artista do sono

lee hadwin artista do sono

Uma visão do subconsciente? As obras de Hadwin, dentro da subjectividade da circunstância em que são realizadas - aqui não é a intenção consciente que as rege - variam entre a figuração concreta e a abstracção. Parecem sair directamente do subconsciente, sem tratamento cognitivo racional, como se se representasse a génese da ideia “transmitida”. Como será ver representado, em papel, o que está no subconsciente de alguém e que pode, eventualmente, exercer influência sobre a acção do indivíduo? Como será observar constructos da subconsciência quando, por via da normal consciência, não se consegue lá chegar?

De certo modo, temos oportunidade de observar tais representações desde que a corrente surrealista surgiu, no período entre guerras mundiais, com André Breton. Nestas obras, assim como nas de Hadwin, precisam de ser interpretadas tendo em conta o seu simbolismo. No entanto, os quadros surrealistas, por muito que tentem representar o subconsciente humano, partem ou, pelo menos, acabam sempre por passar pelo consciente no momento da concepção. Os pintores do surrealismo nunca criaram obras a partir de um estado subconsciente puro. Ainda assim, na ânsia de se atingir o subconsciente, enquanto corrente vanguardista, os surrealistas, em diversas ocasiões, criaram arte colocando-se em “situações-limite” para a consciência do indivíduo, como as de fome, sono ou de consumo de drogas. Estes estados envolvem sempre alguma activa consciência individual. Já Hadwin não tem controlo sobre a sua aptidão nem, muito menos, sobre o resultado desta. O estado consciente, durante o desenho nocturno, é mínimo ou praticamente nulo. Mais do que a forma única de criar arte, as obras de Hadwin podem ajudar a que se obtenha um maior conhecimento de uma parte da mente a que não acedemos quando estamos conscientes.

lee hadwin artista do sono

lee hadwin artista do sono

Uma visão artística ou científica? Lee Hadwin intitula-se de “sleep artist” na sua página do facebook e no seu site. No entanto, há quem duvide que o que Hadwin faz é “arte” e apenas conceba esta como o resultado do desenvolvimento obtido através do trabalho constante e progressivo e não através de “magia”. Então, quando é que a arte é mesmo “arte”? O argumento atrás exposto poderá não ser o melhor para defender a tese correspondente. Pelo menos, é claro que existem diferenças entre Hadwin e qualquer outro artista.

Se compararmos, Hadwin sempre desenhou sem ter consciência disso, sem intenção e sem que consiga sentir o trabalho encetado na obra criada. O próprio não consegue oferecer uma explicação, mas é certo que a criação advém de Hadwin e do seu talento, “não controlável”. Não lhe é exterior mas, curiosamente e neste caso, acabará por ser. Não poderá isto ser, na mesma, arte? Também, pelo modo como as obras são criadas, pelas suas capacidades “escondidas” e pelo reconhecimento geral e científico de Hadwin como um “case study”, até que ponto este caso é artístico ou, apenas, cientifico?

lee hadwin artista do sono


Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp //Luís Pereira