Marc Chagall: alguém viu um bode tocando violino?

Chagall evocava o mundo das ideias, pintava o onírico, usava tons que via em seus próprios devaneios. Usava o colorido da sua infância e do seu amor junto aos cinzas e pálidos de seus conflitos. Concedia à realidade uma nova forma, inconsciente. Sempre penso que a sua obra pode ser uma espécie de pintura de livre associação.


bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "La Vie Paysanne", 1925.

Eu gosto de suas combinações, tanto nas cores quantos nos elementos que compõem seus quadros. Chagall tinha uma imaginação que desafiava o fantástico, o qual parecia nunca ser suficiente para o pintor. Dispunha elementos díspares duma forma que lembra os surrealistas. Mas não pode ser associado a um único estilo artístico. O pintor sintetizava características do cubismo, simbolismo e fauvismo em suas obras. Foi um dos pioneiros do modernismo e também se destacou por pintar gravuras e vitrais. Em sua obra encontramos ainda ilustrações para fábulas e uma série de gravuras bíblicas, própria do início da temática de sua obra, que busca suas mais profundas raízes.

O artista francês, de origem russa, era judeu e como tal lutou para sobreviver à revolução bolchevique na Rússia e ao nazismo. Teve sua arte ignorada por muito tempo pela sociedade e pela própria família, que desaprovava sua escolha. Isso dificultou conseguir os recursos necessários para desenvolvê-la. Muito nos seus quadros remete à sua vida de menino em Vitebsk, denotando saudosismo numa linguagem lírica e moderna. Era um romântico: pintava quase essencialmente suas memórias e fez de sua obra uma verdadeira poesia fantástica, no mais amplo sentido da palavra. Para mim, um gênio.

Chagall felicita seu passado e sua história, assim como o amor entre ele e sua esposa Bella numa linda série de quadros nos quais a aura do sentimento mútuo contorna as figuras. E isso as acolhe, e elas, às vezes, flutuam. Quando sua mulher faleceu, o pintor se despediu com o lindo "Autour d'Elle” (Em Torno Dela).

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "La Vie Paysanne", 1945.

Sua arte não agrada a todos: há quem diga que é fantasiosa demais, há quem não goste da combinação das cores. E há, simplesmente, aqueles que não gostam de noivas, bodes, anjos, galinhas e violinos. Principalmente se estiverem dispostos juntos. Mas, gostando ou não de sua pintura, é impossível ignorá-la.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "The Bride", 1950.

Muitos o conheceram através de Julia Roberts, quando sua famosa personagem Anna Scott, em Notting Hill (1999), presenteou William Thacker, vivido por Hugh Grant, com o quadro “La Mariée” (The Bride). Ora, ela era apenas uma garota, parada na frente de um rapaz, pedindo a ele que a amasse. Uma cena bem romântica - e quando existe romance, existe Chagall, com toda a sua estranha noção de romantismo retratada por uma noiva e um bode tocando violino.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "The Bride and Groom of the Eiffel Tower", 1938-1939.

A primeira vez que vi um quadro de Marc Chagall foi numa página de revista numa sala de espera do dentista. Era “The Bride and Groom of the Eiffel tower”. Lembro-me que fiquei um bom tempo a observar o quadro naquela fotografia. Há alguém que flutua lá atrás, e lê um livro. Há um anjo de ponta cabeça, há uma vila, há a interpretação do amor nos noivos, e uma suposta celebração. Há a natureza, disposta no sol e na folhagem ao lado. E há uma espécie de galinha gigante. Mas, depois de ter observado esses detalhes, algo me incomodou muito: eu não parava de pensar por que motivo havia um bode tocando um violino. Não que os outros elementos fossem muito normais, mas era um bode tocando violino. E eu achei aquilo extraordinário.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Bride With a Fan", 1911.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Bride With Blue Face", 1932.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Circus in the Village", 1969.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Clowns at Night", 1957.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "I and the Village", 1911.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Le Violiniste", 1911.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Lovers with Daisies", 1949-1959.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Mother at the Oven", 1914.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Newlyweds and Violinist", 1956.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Paris Through the Window", 1913-1914.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Self-Portrait", 1959-1968.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "Solitude", 1933.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "The Fiddler", 1912.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "The Promenade", 1917.

bode, chagall, judeu, marc, pintura, romantismo, surrealismo, violino © Marc Chagall, "The Three Candles", 1938-1940.


rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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