Seinfeld: o melhor sobre nada

Não é sobre amor, não é sobre famílias disfuncionais ou residentes com crises existenciais. Seinfeld não é policial, nem drama, muito menos é sobre vampiros ou psicopatas. Menos ainda é Seinfeld sobre uma turma de amigos e suas relações. Não, não e não. Não é sobre nada. Ou melhor dizendo, é sobre nada. Confuso? Seinfeld é um dos melhores (e eu arriscaria dizer o melhor) TV shows já produzidos até hoje. Você me pergunta: porquê? Eu te respondo: por nada.



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O programa tinha a intenção de mostrar situações da vida cotidiana. Nada mais, nada menos. Episódios fundamentados na observação da vida das pessoas. No puro, realista e simples cotidiano. Mas tudo sob um viés irônico, cômico e exagerado. Porque é pilhéria, é piada. O programa ri de mim e de você, de nossas vidas patéticas. Convenhamos, geralmente nosso dia-a-dia não tem absolutamente nada, não acontece nada. Nosso cotidiano é tão desinteressante quanto uma tela em branco. É como um ritual de ações e atitudes clichês, as quais são disseminadas como uma epidemia de tiques nervosos em indivíduos-chavões. É o que Jerry chamaria de cotidiotando. É o que o show mostra, um cotidiano autêntico. Esse nosso nada.

O que prende nossa atenção a Seinfeld é exatamente seu descompromisso e desdém para com qualquer coisa que seja mais complexo do que decidir o que pedir do menu. Seinfeld é o TV show mais indiferente sobre você e eu. É quase um insulto. Lembro-me que gostava de chegar do trabalho e assistir ao seriado. Sentia-me descansada depois de meia hora de diálogos sem propósito.

Divulgado como “o melhor show sobre o nada”, obviamente que alguns elementos tiveram de ser introduzidos à trama, como personagens peculiares com características ridículas. O sitcom, que estreou em Julho de 1989 – primeiramente como “The Seinfeld Chronicles” – na rede americana NBC, foi exibido durante nove anos, desde seu piloto. Durante toda a década de 90 Seinfeld foi uma febre entre os americanos, garantindo o horário nobre da NBC, além de conquistar fãs por todo o mundo.

Jerry, George, Kramer e Elaine fazem as vezes de todos nós. Temos o cara sensato, o bizarro, o neurótico e a mulher, acrescentando toda a (des)graça do universo feminino. O homem que come chocolate com o garfo, o paletó comprado no bazar, as chacotas com “O paciente Inglês”, o tamanho do sanduíche, as vagas no estacionamento, uma caneta que não funciona, pretzels. Tudo isto é tema central dos episódios, temas tratados com tanta ênfase - e beirando o politicamente incorreto - como se fossem questões para as quais precisássemos de um momento de introspecção. Mas são os mais deliciosos diálogos da história da televisão.

cotidiano, humor, quotidiano, seinfeld, seriado, serie, televisao, tv Seinfeld em 2011 no Tribeca Film Festival.

Há quem não compreenda onde está a graça em diálogos tão cotidianos. Talvez sejam os mesmos que não entendem da graça e leveza do nada.

rejane borges

gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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