A aurora real das muralhas de Vauban

Nada fazia prever que em plena época absolutista, cuja máxima “L’état c’est moi” do rei Louis XIV, rei do Sol, desvendar-se-ia uma arte bélica – a arte de cercar o inimigo. Conheça os segredos do arquiteto do rei, Sébastien Vauban, que evitou que o amanhecer do território francês se cobrisse com tons de vermelho, através das suas fortificações.



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Na sala de espelhos, em Versalhes, é possível visualizar modelos de monumentos de arquitetura, reflectidos na colectânea Plans en relief. Estes são preservados nos Musées des Plans et Reliefs, em Paris. O plano de Neuf-Brisach, região da Alsácia e as fortificações de La citadelle du Château-d’Oléron cicatrizam um único nome – Sébastien Le Prestre de Vauban, o arquiteto do Rei.

Na segunda metade do século XVII, a guerra em França girou em torno de cercas e não de batalhas. A Guerra da Devolução (1667-68), que envolvia a Espanha e França foi uma das provas à resistência das barreiras de Sébastien.

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Sébastien Vauban foi soldado, engenheiro militar de fortificações, artista bélico e arquitecto do rei. A sua função? Desenhar e conceber métodos de fortificação e consolidar barreiras francesas. Havia que tornar França defensável, cercar as terras em redor, evitar riscos de incêndio e a penetração do inimigo, criar obstáculos ao atacante e melhorar o design da arquitetura militar quer ao nível das técnicas utilizadas para o seu ataque quer ao nível da proteção dos recursos e avanços inimigos.

ZZ07C1F8D1.jpg Sébastien Vauban

Vauban não só efetuou apenas o design das fortalezas individuais, como também, vestiu-as a pré-carré, ou seja, reforçou as fortalezas com uma linha dupla na fronteira vulnerável do nordeste de França. O método da fortificação tinha por objetivo queimar pólvora e derramar menos sangue [“burn gunpowder and spill less blood”].

Vinte das cinquenta e três cercas de Vauban foram aproveitadas pelo rei, formando círculos de glória. O aqueduto que fornece a água em Versalhes e que liga o Mediterrâneo ao Atlântico também faz parte da sua obra que concebeu, em 1684, o canal du Midi (Canal dês Mers).

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Nomeado Comissário das Fortificações (1678), Vauban tem aperfeiçoado, desde então, técnicas defensivas e obtido conhecimentos importantes sobre a interação com as estruturas arquitectónicas e a eficácia das cercas aos inimigos. França enchia-se de cortinas que a fortaleciam contra o inimigo.

Os cercos de Vauban resumiam-se a: sistemas de paralelos numa frente ampla, caminho aberto para o coração da cidade com a desintegração da parede principal e fortificações que ricocheteavam o fogo para varrer as muralhas inimigas. Este era calculista e previa o tempo exato da elaboração de cada cerco, previamente à operação: cálculo da “marcha do cerco” de modo a que as tropas atacantes estivessem menos expostas ao fogo inimigo e se procedesse a inovações na defesa e ataque à fortaleza, arquitectando locais de refúgio.

Vauban conclui sobre a viabilidade do seu projeto, proferindo a Louis XIV que seria mais fácil dominar a lua com os seus dentes do que tentar aquele lugar, como façanha. “Sire, il serait plus facile de saisir la lune avec les dents que de tenter en cet endroit pareille besogne”.

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Em 1707, o último suspiro de Sébastien revela projetos por publicar, estudos topográficos e novos pensamentos sobre as fortificações. Os seus textos foram colecionados em “Les Oisivétés”/ “Idle thoughts”.

O ataque nas fortificações tem sido considerado um dos elementos de arte bélica, cujo desafio se prende com a conquista e conservação de território. O autor alemão H. Behr refere que as batalhas de campo são dificilmente um tema de conversa. Na verdade, toda a arte bélica parece regressar a ataques com astúcia e de fortificações com arte.

“Field battles are in comparison scarcely a topic of conversation... Indeed... the whole art of war seems to come down to shrewd attacks and artful fortifications”.

branca dias

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