A versatilidade musical da banda Cake

Graças a uma sincronização matemática de estilos musicais, a banda Cake mostra uma rara combinação sonora, ao mesmo tempo técnica, agradável e atemporal. Ninguém fica indiferente ao trabalho do Cake, seja pelo espetáculo quase sinfônico que seus músicos executam ou pelas letras que questionam ironicamente o modo de viver da sociedade atual.


alternativo, cake, pop, rock © Cake. Foto de: Shawn Jean Thomas Wolf.

Nos últimos anos, a maneira parcial e indiferente de a indústria fonográfica avaliar talentos e conduzir o mercado foi substituída pela força criativa da música independente, que alavancou, sobretudo, graças à internet. Esta descentralização de poder resultou numa safra de grupos e técnicas completas, e de grande capacidade artística. Entre elas se destaca Cake, que é capaz de transitar pelos estilos mais improváveis e criar uma fórmula sonora única.

Formado em 1991, o quinteto de Sacramento conta com a engenhosidade de seus músicos, surpreendendo a cada novo trabalho. O inconfundível vocal de John McCrea recita histórias recheadas com um humor sutil sob um pano de fundo crítico ou reflexivo, acompanhadas por melodias excepcionais. O sempre eficiente trompete e teclados de Vince Di Fiore, a guitarra criativa de Xan McCurdy, o baixo hipnótico de Gabriel Nelson e a bateria impecável de Paulo Baldi parecem onipotentes, por tocarem com a mesma facilidade rock, folk, e até tangos.

Embora classificado como rock alternativo, é difícil rotular o estilo e influências do Cake. Cada uma de suas canções é um universo particular, que percorre caminhos sonoros diferentes permeados por interligações primorosas entre arranjos vocais e instrumentais. Assim, quase todas as músicas do arsenal artístico da banda mostram igual competência em cativar os ouvintes, seja o divertido hit pop Never There, o elegante bolero Frank Sinatra, o rock de guitarras explosivas The Distance ou o folk jazzístico Italian Leather Sofa. Seus covers notáveis merecem igual destaque, como I Will Survive de Gloria Gainors e War Pigs de Ozzy Osbourne.

alternativo, cake, pop, rock © Cake. Foto de: Shawn Jean Thomas Wolf.

Por ser independente, o quinteto não precisa se adequar a prazos e pressões de gravadoras, o que resulta num trabalho construído pacientemente, arquitetado para que alcance a satisfação coletiva. Seu mais recente álbum, Showroom of Compassion, de 2011, foi o primeiro de inéditos em sete anos, e seu resultado apenas comprova a polivalência da banda, que vai do pop eletrônico de Long Time ao country saudosista de Bound Away.

O grupo também tem particularidades interessantes, como o visual minimalista e similar da capa de seus discos, o uso habilidoso de instrumentos incomuns, como o vibraslap, e uma filosofia engajada que reflete diretamente em seu trabalho. Durante as impecáveis performances ao vivo dos músicos, McCrea não só interage com a plateia, mas levanta questões de grande importância social, com discursos envoltos em críticas e num perspicaz sarcasmo. Um show da banda consegue equilibrar virtuosidade melódica, precisão harmônica no vocal e nas segundas vozes e um sagaz idealismo.

Cake é uma das poucas bandas com o privilégio de reinar em um território sonoro exclusivo, graças à identidade singular e característica que emprega em qualquer melodia e estilo que toca. Sua longevidade na cena alternativa e comercial está garantida. E independentemente de planos futuros, o quinteto já está consolidado como um dos casos de múltipla personalidade musical mais bem sucedidos da história.

alternativo, cake, pop, rock © Cake. Foto de: Shawn Jean Thomas Wolf.


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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