A década de 1960 foi um período de grandes mudanças culturais e ideológicas. Foi como se o mundo desse voz ao seu “Lado B” através de movimentos que ficaram conhecidos sob a designação genérica de contracultura. Proclamados como “Anos Rebeldes”, os anos 60 na verdade podem ser descritos como a década da juventude que explorou ao máximo as idéias de liberdade e autenticidade. E nada melhor para dar voz a esses jovens que a música, em especial o rock and roll.

© Capa de album de Jackie Brenston.
Para entender a importância do rock nos anos 60 é preciso voltar um pouco no tempo e na história. Com o fim da II Guerra Mundial, em 1945, o mundo vivia um período de reestruturação. Duas novas potências emergiam, EUA e URSS. Os países ocidentais viam um surto de nascimentos, o baby boom e o “sonho americano” era aclamado nos quatro cantos do planeta. É nesse contexto, no final da década de 40, que surge um novo estilo musical, com raízes no blues nos subúrbios norte-americanos, que ficou mundialmente conhecido como rock. A juventude americana logo se identificou com o rápido ritmo do novo estilo, porém, o rock ainda era tido como música negra. Era o som de Jackie Brenston, dos subúrbios norte-americanos, isso em uma época de intensa segregação social e racial. Mas em meados de 1954 eis que surge um jovem branco, de requebrado inconfundível, que viria mais tarde a ser conhecido como o rei do rock’n roll: Elvis Presley. E estava dado o passo para que o novo ritmo saísse dos guetos e ganhasse o mundo.

© Elvis Presley (Wikicommons, Metro-Goldwyn-Mayer, Inc.).

© Beatles " (Wikicommons, United Press International (UPI Telephoto).
Já na década de 60, o rock embalava uma juventude eufórica em se fazer ouvida em diversas partes do globo. Se os jovens almejavam grandes vôos nos anos 60, já em 1961, tivemos a ida do primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin. A sua famosa frase “A Terra é azul” só reiterou que é possível ir além, sim, estimulando ainda mais as mentes juvenis. Ainda em 61, o mundo viu consolidar a tensão bipolar da Guerra Fria com a construção do Muro de Berlim. E eis que em 1962 o som dos garotos de Liverpool, The Beatles, estoura nas rádios com “Love me do” e "P.S. I Love You". O som clean e pacifista era um contraponto à tensão armada vivida na época. Mas se a música do quarteto era inicialmente comportada, a de seus conterrâneos ingleses The Rolling Stones, liderados por Mick Jagger, seguia a linha mais rebelde. O seu auge chegou em 1965 com o single Satisfaction, do álbum "Out of Our Heads". A resposta norte-americana à invasão inglesa na música veio em 1965 com o pop rock do The Monkees e com o The Doors, sob a liderança de Jim Morrisson. Apesar das canções da primeira metade da década de 60 possuírem um tom mais comedido e lírico, algumas se destacaram pelo tom de protesto, ainda que suave, como "Oxford Town, 1962", de Bob Dylan, que fala de James Meredith, primeiro negro a ingressar na Universidade do Mississipi.
A política e a música, bem como os demais movimentos culturais, estiveram estreitamente ligadas nos Anos Rebeldes. A juventude queria lutar contra a situação em que vivia, mas não queria pegar em armas e contra isso usou a música. O sonho americano não era mais suficiente, o consumo em excesso, estimulado no pós-guerra, e o conservadorismo social passaram a ser questionados. Que mundo era esse que proclamava um modelo de felicidade e enviava seus jovens para lutar em uma guerra com a qual não concordavam - a Guerra do Vietnã (1959-1975)? Em 1965 os EUA enviaram tropas para ajudar o governo do Vietnã do Sul e milhares de jovens norte-americanos se viram parte de uma guerra e bem longe dos sonhos que almejavam. A Guerra gerou uma onda de protestos da juventude americana. Mas não era só contra a Guerra que se manifestavam: também queriam igualdade de direitos. Em 1963, o ativista Martin Luther King Jr., líder na luta pelos direitos civis dos negros, profere “I have a dream”, o discurso lendário sobre igualdade racial.

© Martin Luther King, Jr. durante o discurso "I Have a Dream" (Wikicommons, Dick DeMarsico, World Telegrapher).
Na segunda metade da década de 60, os jovens tornam seus protestos mais ativos, se contrapondo à inocência juvenil da primeira metade dos Anos Rebeldes. O mundo passa a conhecer o movimento hippie e sua máxima “Peace and Love”. O não ao recrutamento militar e a não-violência marcaram os protestos pós-1965. O que também marcou a segunda metade dos anos 60 foi uma valorização cada vez maior da liberdade pelos jovens, que exploravam ao máximo os limites do corpo e da mente: isso mesmo, sexo, drogas e rock’n'roll. A figura de Timothy Leary é marcante nesta época. O professor de Havard proclamava o LSD como uma das bases do progresso humano. Maconha, cocaína e heroína também eram comuns na época, mas nenhuma droga foi tão marcante nos anos 60 como o LSD. A onda psicodélica não atingiu somente as drogas, mas também a música, que explorava temas como a subjetividade e a loucura. Jefferson Airplane foi uma das bandas pioneiras de rock-psicodélico nos EUA. Os Beatles passaram por essa onda entre 1966 e 1967, com o disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Há quem afirme que "Lucy in the Sky with Diamonds" é uma clara alusão ao LSD. O Pink Floyd, liderado por Syd Barrett e famoso pelas experimentações musicais, também é um dos representantes do gênero. No Brasil, Secos e Molhados e Mutantes também fizeram jus ao som.

Capa do album Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
O ápice da rebeldia jovem dos anos 60 foi em 1969. Enquanto Neil Armstrong dava “um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para a humanidade”, ao ser o primeiro homem a pisar na lua, em uma fazenda em Bethel, nos EUA, acontecia aquele que é considerado um dos maiores festivais de música de todos os tempos. O Woodstock Music & Art Fair, que depois ficou conhecido apenas como Festival de Woodstock (apesar de não ter sido realizado na referida cidade) foi anunciado como “3 dias de paz e música”. O que era um evento pago para 200 mil pessoas se tornou um festival para meio milhão de pessoas, que derrubaram cercas e tornaram-no gratuito.

© Woodstock, por S.Sgt. Albert R. Simpson, Arlington, Virginia, 1967. Arquivo público.
O festival, que misturou artistas de rock, blues e folk e contou com grandes nomes da música como Janis Joplin acompanhada da Kozmic Blues Band, Jimi Hendrix, The Who, Tim Hardin, John Sebastian, Creedence Clearwater Revival e muitos outros, totalizando 32 artistas em 3 dias, não deixou de fora o tom de protesto. Joan Baez, grávida, subiu ao palco e contou que seu marido, David Harris, fora preso por recusar ir para o Vietnã. O festival foi um marco para os anos 60, não só pela liberdade demonstrada pelos artistas e pelo público no evento. Woodstock fechou a década reafirmando a máxima dos Anos Rebeldes: é preciso se rebelar, mas não pegando em armas. É o ideal de paz e amor... ao som de rock’n'roll.

Capa do album Pink Floyd.

Capa do album de Janis Joplin.
Comentários
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pyetro guilherme
li seu artigo fazendo diversas pesquisas, Foi demais!
A década de 60 foi emocionante. Ouvir os primeiros sons do rock e saber dos ideais daquela juventude foi de fato inspirador.
Carlos
Muito bom, simples e esclarecedor.
Henrique
Ótimo texto. Essa fase inicial do rock and roll é justamente a que mais me agrada.
Luiz
Boa noite . Esse tal de rockenroll , não sucedeu bem bem assim como vem aí.
Na verdade já na década de 50 tinha muito branco e muito negro em pequenos clubes meio cavernas clandestinas a tirar um som diferente , com uma batida já meio estranha do jazz improviso e meio shaker , quer nos Eua , quer na inglaterra e alemanha. Em 60 , primiro veio um estranho rebolado meio baixada de santo que era o twist , precursor de hully-gallys da vida . Rock mesmo , com o compasso troglodita e de 3 quartos repetindo a segunda só nos finais de 60 .
O povo não queria nada de início sem consciencia política , só queria mesmo era dançar , tirar um sarro com as minas e fumar uns baseados , consciencia politica e social nenhuma , necas de pitibiriba isso veio vindo depois . é como agora o pessoal quer celular , trepar , fazer pouco gastar muito e quem não faz é considerado mané.
Esse tal de roque em roll que se faz hoje não é pior que o de ontem e as aspiraçoes de todos os tempos saõ igualmente VAZIAS.
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