Galileu, Kepler e o céu

A Terra gira em redor do Sol, tal como Júpiter e os seus satélites, com as suas trajectórias a descreverem belíssimas elipses. Quem disser o contrário arrisca-se a ser considerado estúpido ou ignorante, mas há 400 anos atrás Galileu e Kepler tiveram que sofrer na pele os dogmas da religião e a chacota dos velhos sábios para que este conhecimento científico saísse do seu colete-de-forças.


galileu galillei kepler astronomia Retrato de Galileo Galilei por Justus Sustermans (1597-1681)

A Terra gira em redor do Sol, tal como Júpiter e os seus satélites, com as suas trajectórias a descreverem belíssimas elipses. Quem disser o contrário arrisca-se a ser considerado estúpido ou ignorante, mas há 400 anos atrás Galileu e Kepler tiveram que sofrer na pele os dogmas da religião e a chacota dos velhos sábios para que este conhecimento científico saísse do seu colete-de-forças.

Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) e Cláudio Ptolomeu (século II) estiveram na origem de um modelo do Cosmos que tinha um pequeno grande problema: descrevia um mundo muito aborrecido, onde tudo é imutável e os astros se deslocam em círculos perfeitos. No centro deste universo esférico, completamente imóvel, estava o nosso planeta, a Terra. De uma simplicidade bastante elegante e simpática… mas errada.

E assim estivemos durante mais de um milénio, até que surge Nicolau Copérnico (1473-1543), o qual bate o pé à astronomia clássica e argumenta que afinal é o Sol que está no centro do Universo – a teoria heliocêntrica. Estava aberta a porta para novas ideias.

Observação, experimentação e masturbação

Estamos no final do século XVII e o local é a universidade de Pisa, onde o jovem matemático Galileu Galilei (1564-1642) começa a dar nas vistas com a sua incrível perspicácia. Transforma a sua casa num laboratório e começa a advogar a observação e a experimentação como métodos fundamentais para desvendar os mistérios da Natureza, muito mais do que a repetida (re)interpretação dos conhecimentos antigos, uma prática bem comum junto dos ‘empoeirados’ escolásticos de então – que assim constituíam uma força de bloqueio às novas ideias.

Aliás, as regras e práticas escolásticas eram motivo para Galileu dar uso ao seu sarcasmo. Num dos seus poemas satíricos (sim, ele também era poeta) o italiano mostra-se desagradado com o uniforme obrigatório das universidades, a toga, porque ela nem sequer permitia que os professores fossem aos bordéis com a discrição que tal ida exigia. Pior ainda, garante que esse impedimento obrigava a que estivessem dependentes da masturbação, que além de pecaminosa era muito menos satisfatória.

O computador humano

Por sua vez, e ao contrário de Galileu, o alemão Johannes Kepler (1571-1630) teve uma infância infeliz (os colegas zombavam dele) e uma adolescência cheia de privações (faltava o dinheiro). Contudo, isso não o impediu de se tornar um matemático brilhante. Crente no protestantismo, Kepler teve o infortúnio de passar toda a sua vida a fugir das sangrentas guerras religiosas entre protestantes e católicos, saltando de cidade em cidade. Mas mesmo nas piores situações jamais parou as suas investigações e continuou a publicar. Era um autêntico viciado em trabalho, aproveitando todas as oportunidades e os momentos mais calmos para produzir de forma frenética.

galileu galillei kepler astronomia Johannes Kepler (1571-1630)

O seu objectivo era o de descobrir as leis escondidas do Universo, pelo que em 1596 publica Mysterium Cosmographicum (“Mistério Cosmográfico”), no qual afirma acreditar na existência de uma lei geométrica capaz de descrever todas as órbitas dos planetas então conhecidos.

Entusiasmado, envia dois exemplares do livro à universidade de Pádua e, por capricho do destino, um deles chega às mãos de Galileu. Contudo, e sem que jamais se tenha compreendido o porquê, o italiano pensa que o livro lhe estava endereçado, pelo que decide escrever uma efusiva carta de agradecimento.

galileu galillei kepler astronomia Mysterium Cosmographicum

Uma nova astronomia a caminho

Contudo, os tempos ainda eram avessos aos homens de ciência e, na carta que envia, Galileu acaba por fazer uma revelação pessoal: “Desanima-me o destino de Copérnico, o qual é o nosso mestre. Adquiriu fama imortal entre uns poucos, mas muitos troçam dele e ridicularizam-no, porque abundam os néscios no mundo. Atrever-me-ia a fazer públicas as minhas ideias, se houvesse mais pessoas com a vossa atitude, mas como não é assim, não o farei.”

Porquê tanta cautela? Segundo Thomas Posch, investigador do Observatório Universitário de Viena, Galileu era muito diferente de Kepler, existindo muitas provas sobre os traços de personalidade do italiano. Galileu era arrogante, por vezes insolente, alentado pela sua grande perspicácia. Aliás, nas cartas que envia ao colega alemão, dirige-se-lhe de um modo altivo, como se desde logo quisesse fazer uma diferenciação social. Mesmo assim, e ao contrário de Kepler, era muito reservado e raramente se comprometia nas suas cartas. A verdade é que Galileu tinha grandes ambições em ascender socialmente, pelo que guardava muitos dos seus pensamentos para si próprio, de modo a salvaguardar-se dos ataques dos seus inimigos.

A resposta do alemão não se vez tardar, pois “calar e consentir” não fazia parte do seu léxico: “Só poderia desejar que tu, que tens uma tão profunda perspicácia, pudesses escolher outro caminho. Aconselhas, pelo teu exemplo pessoal, […] a retirar perante a ignorância geral e a não nos expormos ou a opormos aos violentos ataques da gentalha escolástica. Mas depois de uma gigantesca tarefa ter começado no nosso tempo – primeiro com Copérnico e depois com vários matemáticos muito instruídos, e quando a asserção de que a Terra se move já não pode ser considerada algo novo –, não seria melhor puxar a carroça até ao seu objectivo […] e gradualmente, com vozes poderosas, calar essa rebanhada? […] Anima-te, Galileu, e dá a conhecer as tuas ideias publicamente.”

galileu galillei kepler astronomia Este diagrama do "Mysterium Cosmographicum" mostra o padrão recorrente da conjunção de Júpiter com Saturno, um dos grandes eventos astronómicos.

Com esta resposta, a semente da dúvida fora implantada em Galileu. Deveria, ou não, dizer o que pensava, indo contra o pensamento dominante… e arriscando a que se tornasse persona non grata junto das elites a quem queria bajular?

Entretanto – e após oito anos de trabalho árduo em que analisou os dados observacionais do colega dinamarquês Tycho Brahe –, Kepler descobre que a órbita do planeta Marte não é circular e uniforme, antes descrevendo uma trajectória elíptica. Fantástico! Uma das vacas-sagradas do saber antigo era assim “abatida”, com o alemão a sustentar as suas ideias no livro Astronomia Nova.

O meu telescópio é fantástico!

Galileu não quis ficar atrás e consegue aperfeiçoar o telescópio – que ao contrário do que se costuma dizer não foi inventado por si. Entusiasmado com o que vê através da sua luneta, escreve em 1610 o “Mensageiro Celeste” (Sidereus Nuncius), no qual descreve um mundo totalmente novo. A existência de montanhas, crateras e vales na Lua são anunciadas ao público, desmontando o mito de que era uma esfera perfeita; os quatro satélites de Júpiter (Io, Europa, Ganímedes e Calisto) surgem pela primeira vez aos olhos de um ser humano; descobre-se que Vénus também tem fases, como a Lua; e para abalar os nervos dos que defendiam que a Via Láctea nada mais era do que uma exalação da atmosfera terrestre, Galileu revela que a nossa galáxia é afinal constituída por uma multidão de estrelas impossíveis de serem vistas a olho nu. O incrível passava a ser uma realidade e de uma só assentada a astronomia aristotélica e ptolemaica era atirada para o caixote do lixo.

Extasiado com o feito, Kepler envia uma carta cheia de elogios: “Deixaste todas as reservas aparte e permitiste que os teus olhos investiguem sem vacilar, orientando todos os espectros da ignorância”.

Mas apesar dos elogios, Galileu acaba por desabafar e partilha as agruras que tem agora de aturar: “Penso que nos iremos rir com a extraordinária estupidez das multidões. O que dirás dos principais filósofos da universidade de Pisa, a quem eu ofereci, um milhar de vezes e por minha vontade, mostrar os meus estudos, mas que […] nunca consentiram em olhar para os planetas, nem para a Lua, nem para um telescópio? De facto, tal como as serpentes fecham as suas orelhas, também estes homens fecham os seus olhos à luz da verdade. Estes são assuntos muito importantes, no entanto não ocasionam nenhuma surpresa. Pessoas deste tipo pensam que a filosofia é uma espécie de livro, como a Eneida ou a Odisseia, e que a verdade é para ser procurada, não no Universo, não na Natureza, mas (e aqui uso as suas próprias palavras) através da comparação de textos!”

Pobre Galileu… não admira que fosse difícil parir novos conhecimentos.

Apesar das queixas que faz, o facto é que o italiano não gostava de partilhar o segredo do telescópio (neste caso, os melhoramentos que introduziu) com os outros estudiosos, muito menos com possíveis rivais. Kepler chega-lhe a pedir uma cópia do instrumento, de modo a poder saciar o desejo de olhar e estudar os céus… mas Galileu nunca chega a enviar o exemplar, dando em troca desculpas pouco convincentes. E no que respeitava a algumas descobertas que fizera – como as fases de Vénus – não as deu logo a conhecer ao alemão, preferindo enviar charadas com a promessa de que as mesmas conteriam informação sobre o que desvendara. Obviamente, Kepler jamais foi capaz de as decifrar… e o objectivo era mesmo esse.

O carteiro deixa de bater à porta…

Em 1618 começam os horrores da Guerra dos 30 anos, levando Kepler a assistir, com impotência e agonia, à mortandade em larga escala de civis e inocentes. Em breve, nem a correspondência com Galileu o entusiasma mais, fazendo terminar a troca de ideias entre os dois homens. Doze anos depois, falece, deixando um legado invejável.

Nos dias de hoje, o seu trabalho está marcado pelas três leis que formulou para o movimento dos planetas e seus satélites naturais. A primeira afirma que as órbitas dos planetas são elipses, sendo o Sol um dos focos destas trajectórias. A segunda lei diz que um planeta percorre áreas iguais em tempos iguais, que é como quem diz: um planeta tem um movimento mais rápido quando está próximo do Sol do que quando está afastado dele. Por fim, a terceira postula que as dimensões das órbitas dos planetas estão relacionadas com o tempo que dura as suas trajectórias em torno do seu foco (podendo, neste caso, ser o Sol). A explicação para estes comportamentos planetários surgiria algumas décadas depois, com Isaac Newton e a suas leis sobre a gravidade.

ZZ5BAE5FEF.jpg Nicolò Copernico

…e a chama de Galileu apaga-se

Enquanto isso, na Península Itálica as ideias de Copérnico são banidas e os livros de Galileu e Kepler entram para o índex dos livros proibidos. A tese heliocêntrica e os ‘desvarios’ de quem a defende jamais poderiam contradizer as ‘verdades’ da Igreja católica, pois corria o risco de se ver desautorizada.

A Inquisição (que de ‘santa’ tinha pouca) entra em acção e obriga Galileu a ficar retido na sua casa até ao fim dos seus dias. Pior ainda, forçaram-no a retractar-se das suas teorias. Para um homem orgulhoso e convicto das suas ideias, este acabou por ser um dos piores castigos. Em 1642, já cego, exala o seu último fôlego.

A cúria romana suspirava de alívio, mas o júbilo não duraria muito tempo. A semente fora colocada e nada conseguiria parar a revolução que iria advir com as novas abordagens (científicas) de Galileu e Kepler. A observação e a experimentação, apoiadas pela matemática, viriam a dar um impulso decisivo às novas formas de estudar a Natureza, deitando por terra os velhos e inúteis métodos escolásticos. Ao mesmo tempo, a religião começava a perder credibilidade como fazedora de verdades. Tal como sentenciou Galileu: “Deve-se medir o que é mensurável… e o que não é deverá fazer-se mensurável”. Nascia um novo paradigma e com ele o céus (o Universo!) começaram finalmente a revelar os seus segredos.

galileu galillei kepler astronomia


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