Guerra em cena: o cinema do conflito civil espanhol

A Guerra Civil Espanhola inaugurou a utilização massiva do cinema sonoro como meio de propaganda bélica. Com a eclosão do conflito, em julho de 1936, muitas salas de exibição foram fechadas e centenas de técnicos, atores e diretores exilaram-se. Contudo, a produção cinematográfica persistiu servindo a diferentes lados do conflito como registro deste insólito capítulo da história.


Os rebeldes nacionalistas concentravam-se no norte, apoiados pela Alemanha nazista e pela Itália fascista. Os republicanos resistiam em Madri, nas províncias bascas, no sul e no leste, com o apoio da URSS, do México e de milhares de civis antifascistas. A França e a Inglaterra enviaram armas, mas ativeram-se ao pacto de não intervenção, violado pela Itália e Alemanha.

história; cinema; artes Guernica.

Mas o episódio mais lembrado da Guerra ocorreu a 26 de abril de 1937, quando 26 bombardeiros da Legião Condor, força de intervenção alemã, despejaram 45 toneladas de bombas sobre Guernica. Após três horas de uma tempestade de fogo e aço, a aldeia basca foi destroçada. Ao receber a notícia, Pablo Picasso, que pintava um painel encomendado pelo governo republicano, decidiu nomeá-lo Guernica.

Os republicanos controlavam a indústria cinematográfica de Madri e Barcelona. E cada uma das facções de esquerda tinha sua própria produtora cinematográfica, transmitindo diferentes visões do conflito e de como levar a cabo a revolução.

história; cinema; artes General Franco.

Os anarquistas, que produziram, entre todos os grupos em luta, o maior número de filmes, criaram o Sindicato Único de Espectáculos Públicos e lançaram documentários militantes de curta-metragem que demonstravam seu antifascismo em imagens chocantes de repressão e violência. Outra organização anarquista, o Sindicato de la Industria del Espectáculo (SIE) produziu dezenas de curtas-metragens enfatizando a necessidade da revolução social durante a Guerra.

Embora a luta sangrenta constituísse uma temática imperativa, entre 1936 e 1938, os anarquistas produziram filmes de gêneros diversos, como dramas sociais, comédias musicais e filmes de denúncia, compondo um variado e insólito mosaico de expressões visuais.

Já as Juventudes Socialistas Unificadas e o Partido Comunista Espanhol ressaltavam em suas produções cinematográficas a necessidade de vitória na guerra sob a disciplina de um único chefe, identificando os franquistas com os nazistas alemães e fascistas italianos, a fim de obter a unidade popular espanhola contra o “inimigo externo comum”.

Em meio a esta profusão de mensagens, o filme España leal en armas (1937) foi encomendado a Jean-Paul Le Chanois por Luis Buñuel, que escreveu, produziu e editou o documentário, narrado pelo poeta Pierre Unik. O objetivo era comover a opinião pública internacional a fim de romper o pacto de não intervenção.

história; cinema; artes Luis Buñuel.

Por seu lado, além de executarem produções próprias de cunho nacionalista, os franquistas também recorreram aos aliados salazaristas, fascistas e nazistas, fazendo com que filmes externos do gênero tivessem grande penetração na Espanha durante toda a guerra civil.

Uma linha de coproduções teve início quando o valenciano Joaquín Reig foi enviado a Berlim para realizar a peça mais valiosa da propaganda franquista: España heroica (1938), um documentário narrando a evolução do conflito desde a queda da Monarquia até o início da República, quando, segundo o filme, a Espanha “caiu nas mãos de correntes políticas incompatíveis com sua psicologia étnica”.

O relativo êxito do filme deu lugar a uma série de cinco coproduções em longa-metragem de ficção germano-espanholas, pelas produtoras Hispano-Film-Produktion (HFP), Cifesa e Saturnino Ulargui, em parceria com a alemã UFA. Depois dessas primeiras experiências, por razões econômicas, políticas e ideológicas, o contrato entre a UFA e a HFP não foi renovado.

A guerra civil terminou oficialmente no dia 1 de abril de 1939, deixando um saldo terrível de mortos e feridos. A destruição material, incalculável, incluiu a famosa biblioteca de Cuenca e os primeiros quadros de Goya em Fuentodos. Depois da guerra, Franco não buscou a reconciliação nacional: antes, iniciou um processo de desinfecção total, região por região, fuzilando os vermelhos.

Na Espanha franquista, o cinema renasceu exaltando os valores do regime. Estabeleceu-se uma preferência pelos filmes históricos, patrióticos e religiosos, como Rojo y negro (1942), de Carlos Arévalo, produzido pela Compañía Española de Propaganda, Industria y Cinematografia. Outro símbolo da época é o filme Raza (1942), de José Luis Sáenz de Heredia, baseado em conto escrito pelo Generalísimo Franco (sob o pseudônimo de Jaime de Andrade).

O fuzilamento de Federico García Lorca, o maior poeta espanhol do século XX, continua a ser o marco universal da crueldade franquista. Um pequeno tributo cinematográfico de onze minutos foi realizado em Granada, pouco depois de sua morte: A Federico García Lorca (1937), de Justo Labal.

"Conta Otero Seco que próximo ao local onde caiu Lorca havia um trigal. Aí foi ele enterrado pelos seus assassinos. Os lavradores de Granada - poetas a seu modo - desde a morte do conterrâneo, não mais semearam sobre o retângulo de terra que é a sua sepultura. Assim, quando as espigas amadurecem, um jardim de papoulas, semelhante a um tapete tinto de sangue fresco, assinala o ponto em que García Lorca foi sepultado. (...) Ainda, conclui Otero Seco, não nasceu um tenente da guarda civil capaz de aprisionar e de fuzilar as papoulas”. Trecho do livro Garcia Lorca, de Edgar Cavalheiro (1944).

história; cinema; artes Propaganda comunista na Guerra Civil Espanhola.


andreia mendes

Andreia Mendes é feita de livros, filmes, sonhos, memórias, medos e muito chocolate. Gosta de ouvir o silêncio, mas não suporta a solidão. Agradece por cada pessoa, cada noite e cada dia. Está aprendendo a ser feliz.
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