No tempo em que as máquinas não falavam

Quando a tecnologia avança a uma velocidade que o ser humano mal consegue acompanhar, surge a necessidade de aliar o presente ao passado, de encontrar uma base familiar naquilo que é novo, de garantir que o que outrora foi importante não seja esquecido. Evoluímos então em dois sentidos aparentemente opostos, que tentam de alguma forma complementar-se: a tecnologia de ponta e o culto do que é retro.


high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

Vivemos numa época em que a tecnologia muda tão rapidamente que parece uma tarefa vã a tentativa de nos habituarmos aos novos objetos e às suas funcionalidades, pois logo são substituídos por outros e outros numa corrida desenfreada. E assim, os objetos que vamos adquirindo sofregamente depressa são esquecidos, uma vez que não houve tempo para criar aquela afeição que costumamos sentir pelas coisas que nos acompanham ao longo da vida.

Contudo, se olharmos um pouco mais para trás, lembramo-nos com nostalgia de objetos e tecnologias que mudaram realmente a nossa vida e a dos nossos antepassados e, esses sim, deixam saudades.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © Luis Seco, Dreamstime.com

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © Billyfoto, Dreamstime.com

Por esse motivo, a par da procura incessante pelo mais recente e mais moderno, foi-se criando também um culto ao considerado retro, que se manifesta de várias formas. Por um lado, temos os re-makes de carros como o Volkswagen Carocha e o Mini, das Polaroid que têm agora uma versão digital, dos óculos de massa novamente na moda, entre muitos outros exemplos. Por outro, multiplicam-se as aplicações para telemóveis e tablets que imitam tecnologias hoje totalmente obsoletas, como jogos arcade, relógios analógicos e efeitos fotográficos como os obtidos com câmaras Polaroid e Lomo. E para aqueles que prefiram um contato mais direto com os objetos e que desejem conhecer mais sobre a sua história e funcionalidade, foram criados os museus de objetos tecnológicos obsoletos.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © Nicolaas Weber, Dreamstime.com

O 20th Century Technology Museum (Museu de Tecnologia do Século XX) é um museu tradicional, situado no Texas, em cuja coleção, ainda em fase de expansão, se encontra desde computadores e telefones a eletrodomésticos, automóveis, aeronaves e aparelhos médicos e agrícolas.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

Já o Museum of Obsolete Objects (Museu de Objetos Obsoletos), aproveita as tecnologias atuais para divulgar os objetos do passado com um toque de humor. Trata-se de um museu interativo, através de um canal do Youtube, onde podemos conhecer ou relembrar as funções de vários objetos, como a disquete, o fax, a lâmpada incandescente e a máquina de escrever, referindo-se ainda o ano de criação de cada um e o ano em que caiu em desuso. Cada objeto tem um vídeo onde se exemplifica o seu uso tradicional e, por vezes, também os usos alternativos. Este é o caso da calculadora de bolso que, quando virada de cabeça para baixo, permitia ler textos, consoante os números que surgissem no ecrã. Ou do ábaco que, uma vez deitado, servia como aparelho de reflexologia para os pés. Ou ainda do gira-discos que, ao suspender o disco e inverter a posição da agulha, permitia escutar a música do fim para o início e “ouvir vozes do outro mundo”. Algumas das falhas destas tecnologias e as formas inventivas de lhes dar a volta são igualmente representadas, como no caso da cassete de música que, com demasiada frequência, emaranhava a fita magnética, sendo necessário enrolá-la novamente com a ajuda de uma caneta.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

Por fim, existem ainda os que se manifestam contra a ideia da tecnologia por si mesma, como fétiche, considerando que esta deveria ser meramente um meio de permitir ao ser humano executar determinadas tarefas com maior conforto e facilidade e criticando o fato de se estar a tornar cada vez mais um fim, sem qualquer objetivo que não o de possuir. Para este grupo, onde se enquadram vários artistas, é necessário intervir, chamar a atenção para a futilidade de nos rodearmos das mais recentes tecnologias sem que com isso a nossa vida melhore. O caso mais premente é provavelmente o da evolução das telecomunicações que inicialmente surgiram para permitir o contato entre pessoas geograficamente distantes (impossível de outra forma) e cada vez mais parecem aumentar a distância entre pessoas que moram na mesma cidade - às vezes, na mesma rua.

Parece então que, por mais que o ser humano procure o novo e o melhor, as raízes ao passado, a necessidade de relembrar o caminho percorrido que nos permitiu chegar onde estamos, estão sempre latentes, encontrando diferentes meios para regressar à atualidade, para que não percamos o rumo.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.

high, low, museu, nostalgia, obsoleto, retro, tech, tecnologia © 20th Century Tech.


Inês Petiz

Inês Petiz é artista. E não poderia ser nenhuma outra coisa.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/tecnologia// @obvious, @obvioushp //Inês Petiz