Mais realista que a realidade

Não, não se trata de um programa televisivo. O hiper-realismo afigura-se como uma “corrente vanguardista figurativa do novo milénio”, segundo Antonio López Giménez. O passado parece repetir-se… No contexto da arte contemporânea, a via conceptual começa a ceder espaço a este tipo de figuração.
Mas ao chamar a nós a realidade meticulosa, que tipo de ilusão se está a criar? Que verdade é esta, “mais verdadeira do que o real”?


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A “vanguarda” dos novos tempos

A relação entre esta corrente e as vanguardas europeias do início do século XX não será óbvia, pelas diferenças políticas e sócio-culturais claras entre estes dois momentos históricos. Pelo menos, no Ocidente geográfico. No entanto, ambos simbolizam um advento de um tipo de modernismo e de modos fracturantes de olhar a realidade que observamos. Ambos sugerem, pela força da sua expressão, formas de olhar o meio e de interpretá-lo. Ambos cortam, ou querem cortar com alguma coisa.

O hiper-realismo propõe reproduzir a realidade com maior fidelidade e objectividade do que a própria fotografia, podendo ir para além do foto-realismo, que baseou esta corrente. Esta característica poderá contornar a possível perda de interesse do público em ver uma arte que copia a realidade ou a fotografia, a exemplo do que aconteceu com o foto-realismo. Quando esta última decaiu, a conceptualização da arte encontrava-se em impulsão, a partir da década de 70 do século passado. Este protagonismo crescente acabou por quebrar limites da própria arte da altura, em evolução, com a disseminação quase desenfreada, para Antonio López, de “um tipo de instalação conceptual com tendência para o minimalismo, simples na sua concepção, simples na sua execução e ainda mais simples nos desenvolvimentos teóricos”.

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Desde que surgiu o hiper-realismo americano, em finais dos anos 60, passando pelos restantes países do núcleo anglo-saxónico, pelo hiper-realismo hispânico e pelo núcleo asiático, esta corrente, em geral, só nos últimos anos viu a sua exposição ao público ocorrer de forma mais concertada e relacionada entre os núcleos artísticos espalhados pelo mundo. Criou-se um novo contexto baseado na aposta e no trabalho das novas figurações, ao mesmo tempo que se dá o retrocesso da via conceptual mas sem perder de vista o equilíbrio das duas vertentes, não só para o público como, também, para a própria formação do artista.

Esta corrente toca o vanguardismo de início do século XX, pela sua preocupação com a experimentação estética e pela proposta de uma nova visão da arte. Automaticamente, acaba por promover uma forma distinta de atingir o progresso social. Mas toda a interpretação corre riscos e a interpretação hiper-realista não foge à regra.

Hiper-realismo e Hiper-realidade

Assim como outras formas de arte, esta também pretende suscitar a reflexão, apesar das suas características “mais realistas do que o real”. Mas a realidade representada é isso mesmo, uma representação, uma ficção criada a partir do gesto humano e da sua cognição, por mais que possa ser baseada em fotografias. As próprias fotos, cujo conteúdo, à partida, parece representar mais fielmente a “tela” real, estão, igualmente, sujeitas a pontos de vista, no momento da sua concepção. Este momento é o aspecto que se relaciona com a actividade cognitiva humana. Constituindo-se uma ficção, quanto mais visivelmente próxima da realidade, maior poderá ser o risco de o indivíduo viver mais o cenário ficcionado em vez do real, o que, a ser mais e melhor explorado, poderá criar hábitos e percepções da “verdadeira” realidade nefastas. A criação da hiper-realidade caracteriza-se como sendo um “aperfeiçoamento” da realidade e pode provocar a perda da habilidade da consciência de diferenciar a realidade da “cópia”. Este conceito aplica-se na filosofia dos nossos tempos.

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Existem alguns exemplos de hiper-realidade como a pornografia, que significa, neste âmbito, “mais sexo do que o próprio sexo”. O âmbito pornográfico pode, frequentemente, gerar a vontade e a tentativa de ir para além da realidade possível ou “normal”. O desejo de viver, como se fosse real, aquilo que nasce como uma representação, acaba por deslocar o indivíduo para a hiper-realidade. Igualmente, as revistas com fotografias de modelos “trabalhadas” por “photoshop” ou a mediatização de locais que se tornam autênticos mitos como Las Vegas ou a Disneylândia, podem revestir formas de hiper-realidade.

Este “espectáculo da realidade” artística não é, claro está, um “reality show” televisivo, apesar de ambos terem características que os assemelham, debruçarem-se sobre a mesma realidade que observamos e, na maior parte das ocasiões, parecerem satisfazer mais do que qualquer interacção com a realidade “real”. Ainda assim, de realidade em realidade, é sabido que, empiricamente, todos partilhamos uma mesma realidade mas, cientificamente, cada um tem a sua.

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Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".
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