marcelo camelo em perspectiva

Muitas e contrárias são as opiniões sobre Marcelo Camelo. Mas se há algo próximo de um consenso sobre o cantor e compositor carioca: que ele figura entre os nomes de destaque dessa suposta geração “dois mil”.


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Entre 1999 a 2005, Marcelo Camelo e sua antiga banda, o Los Hermanos (hoje inativa), protagonizou pelo menos três momentos importantes para a atual conjuntura da música popular brasileira, ou ao menos para sua própria carreira (esta segunda opção vai para as pessoas mais sensatas). O primeiro momento, conquanto não seja algo inédito, foi, no mínimo, surpreendente: o improvável hit “Ana Júlia” habitou festas de aniversários de pré-adolescentes, esteve no carnaval baiano, nas festas de rodeio do interior paulista, e passou pelo mítico acontecimento de ter sido a última música gravada pelo beatle George Harrison, tocando guitarra para uma cafona versão em inglês feita pelo ex-Traffic Jim Capaldi.

O segundo momento se deve ao disco Bloco do Eu Sozinho. Após a apresentação da banda no Rock in Rio 2001, Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante deram entrevistas à emissora que cobria o festival. Perguntas sobre o segundo trabalho eram respondidas com metáforas. Rodrigo Amarante, por exemplo, não parava de repetir que o novo disco ia soar como uma “quarta-feira de cinzas”. Algumas notas dispersas sobre o álbum iam saindo em revistas (como a Bizz), blogs e sites dedicados à música. O baixista Patrick havia saído durante a pré-produção do disco por divergências musicais. O estúdio Nas Nuvens, do produtor Chico Neves, ficou conhecido naquela altura por um fluxo de instrumentos improváveis numa gravação de um disco de uma banda teen — toda sorte de oboés, clarones, clarinetes, violas, cellos, violinos...

camelo, dela, hermanos, los, marcelo, mpb, toque Los Hermanos, "Bloco do Eu Sozinho".

Boatos de que a gravadora da banda (a extinta Abril Music) não havia gostado do resultado do disco e que havia pedido modificações substanciais para que o trabalho ficasse mais palatável, mais radiofônico. Marcelo Camelo e os demais integrantes da banda bateram o pé e reivindicaram autonomia artística. Começou então uma queda de braço entre a banda e a gravadora. Ficou decidido que o álbum seria remixado, mas poucas modificações foram feitas, segundo a banda diz até hoje. Esse ato rebelde da banda causou frisson entre os ouvintes, e, quando o disco chegou às lojas, o mito já estava feito: a banda teen havia composto o melhor disco do ano, com canções meticulosamente arranjadas e formalmente impecáveis. Medalhões da MPB como Caetano Veloso, conhecido pelo oportunismo e pelo apurado senso histórico, elogiaram amplamente o disco.

Em termos de cifra, no entanto, o Bloco foi inexpressivo – como previa a gravadora. A banda perdeu cartaz na grande mídia e teve que sobreviver com o lado “alternativo” da força. E conseguiram. A cada show, para no máximo 800 pessoas, a cumplicidade entre público e banda foi crescendo assustadoramente, e novas datas foram sendo marcadas e remarcadas. Sem habitar a grande publicidade, o Bloco foi sendo propagado de ouvido a ouvido, ganhando status de obra-prima oculta. Quando a longa turnê do disco chegou ao fim, a banda era objeto de adoração dos fãs, que começavam a se tornar patéticos, ridículos.

Então chegamos ao terceiro momento: uma versão inacabada do Ventura vaza pela internet. Isso foi em 2003. Pela primeira vez na história da música brasileira um disco sai e é amplamente consumido pela rede. Hoje parece banal, dentro de uma realidade na qual o próprio disco físico é que é algo raro, mas há pelo menos 9 anos atrás, embora lá fora a coisa já estivesse a plenos pulmões, ter um disco conhecido primeiro na internet e só depois no formato tradicional foi algo inédito e histórico. Com o competente Ventura, os Hermanos ganharam mais visibilidade e mais alguns milhares de fãs. O disco, menos experimental e elíptico que o anterior, trouxe o amadurecimento de seus compositores como maior trunfo. Temos no disco ótimas canções como “Samba a dois”, “O Vencedor”, “Último Romance”, “Sétimo Andar” e “Além do que se vê”, sem falar da impecável produção de Kassin – outra revelação da geração “dois mil”.

camelo, dela, hermanos, los, marcelo, mpb, toque © Los Hermanos, de Rodrigo Senna (Wikicommons).

Quando o Los Hermanos avisou que iria passar um tempo inativo – o disco 4, de 2005, embora seja um bom disco, esteve longe de reeditar os melhores momentos do grupo em Bloco e Ventura - uma questão foi levantada: o que viria a ser de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante?

Rodrigo Amarante se juntou a Fábio Moretti, baterista do Strokes, e, ao lado da namorada de Fábio, Binki Shapiro, fundou o divertido Little Joy. Gravou um disco, fez uma porção de shows pelo underground estadunidense, europeu e brasileiro e ficou por isso mesmo.

Quanto a Marcelo Camelo, este optou por algo mais audacioso, mas não por isso necessariamente bom ou brilhante - quer dizer, pelo menos até chegar às lojas e aos blogs o Toque Dela, seu segundo disco solo. O disco parece de demorada compreensão e a sua qualidade, que está igualmente nas letras e nos arranjos, vai desabrochando e se deixando captar aos poucos. Eu mesmo demorei meses para ouvir a primeira faixa inteira – acreditem se quiser. Não por uma incapacidade minha ou do disco, mas por uma rejeição mútua. Alguma estranha inquietação me fazia apertar o stop.

Depois de muitas e esparsas tentativas, consegui de alguma forma captar a proposta do disco e por conseqüência a do próprio Marcelo Camelo. Nesse momento, Toque Dela se mostrou sensível e até mesmo bom, mas estranhamente fora do “tempo histórico” em que ele está inserido. A ironia está neste ponto: Marcelo Camelo, reconhecidamente uma das grandes revelações deste tempo, compõe um disco atemporal. E mais do que isso. Olhando seu trabalho por esta nova ótica, percebemos claramente que esta parece ser a obsessão de Camelo desde o Sou, de 2009: soar diferente do que se espera dele.

Tudo bem, isso não é exatamente novo, pois sabemos que este é o mesmo homem que compôs o Bloco e o 4, desapontando, primeiramente, sua gravadora e o jabá radiofônico como um todo, e depois, com o 4, seus fãs xiitas (a ausência dos estimados “sopros” da maioria das canções fez alguns fãs arrancarem os próprios cabelos), mas agora está claro que estes descaminhos não foram fruto necessariamente do seu então espírito jovem, trata-se de uma postura que ele traz para a sua madureza artística e que precisa, por isso, ser levada em consideração, mesmo que o resultado não seja tão satisfatório como foi em Sou. Quem sabe sua obra-prima não está cada vez mais próxima? Até lá, é duro, eu sei, mas temos que esperar Camelo se cansar das “morenas” e dos “marinheiros”. Vamos ter um pouco de paciência, gente.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
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