O desabafo lo-fi dos Grizzly Bear

De um apartamento de Brooklyn para o mundo, o caminho é tortuoso - a testemunha na ribalta é Ed Droste, fundador e vocalista dos Grizzly Bear, a banda que começou do fim.


blue valentine, folk, grizzly bear, indie, veckatimest © Grizzly Bear, "Horn Of Plenty".

Os bons discos são aqueles que, mais do que agradar ao ouvido, são capazes de transportar-nos exactamente para onde gostaríamos de estar. Os discos excepcionais são aqueles que nos fazem sentir bem exactamente onde estamos. Droste e companhia são exímios nesse trabalho de casa permanente que é (sobre)viver às mágoas e amarguras universais. E fazem-no em confidência, à média-luz, no espaço de um quarto pequeno demais para a sofreguidão de existir.

A viagem começa com uma história de amor falhada em mãos. Daí nasce “Horn of Plenty”, um álbum de catarse concebido originalmente a solo, com Ed Droste em experimentação total com o sofrimento e a harmonia, sem nunca esperar uma audiência. E dessas primeiras confidências – às quais se juntou a contribuição vocal, instrumental e metódica de Chris Bear -, veio a vantagem: em vez de mais um lamento perdido no denso ar de Brooklyn, o mundo ganhou uma obra de arte.

Esta estreia valeu aos Grizzly Bear uma série de rápidas catalogações e comparações – Animal Collective é o primeiro nome na ponta da língua -, mas isso de nada vale ao duo tornado quarteto em 2006: estes rapazes vivem num coro só deles. “My love’s another kind”, cantam (qual confirmação) em “Reprise”, tema do primeiro disco com Chris Taylor, também produtor da banda, e Daniel Rossen.

blue valentine, folk, grizzly bear, indie, veckatimest © Grizzly Bear, de Simon Fernandez (wikicommons).

O colectivo multi-instrumentalista cria temas complexos que, sem o devido repeat, correm o risco de não serem apreendidos totalmente. A densa camada de harmonias refinada em “Yellow House” (referência à casa da mãe de Droste, onde foi realizada grande parte da gravação) é, ao vivo, sempre um desafio. Mas no palco, o ambiente intimista é não só replicado como intensificado. Fora da segurança entre quatro paredes, não há fuga possível: convergimos para o olho do furacão que é a brutal honestidade em câmara lenta dos Grizzly Bear. Devagar, devagarinho, esfaqueiam-nos temas como “Easier”, “Colorado” e – vamos dar-nos ao luxo de ser óbvios – “Knife”, o single de apresentação do disco.

blue valentine, folk, grizzly bear, indie, veckatimest © Grizzly Bear, "Veckatimest".

E eis-nos em 2008, o ano da grande apresentação da banda norte-americana ao mundo: “Two Weeks”, a primeira amostra de “Veckatimest”, rodou nas promoções televisivas de duas conhecidas marcas de automóveis e levou os Grizzly Bear ao mainstream, agora fazedores de uma pop explosiva e acessível até àqueles que torciam o nariz à sonoridade mais melancólica de trabalhos anteriores. Advertência: o tema é altamente contagioso.

É verdade que Droste, Bear, Taylor e Rossen parecem ter encontrado um lugar mais soalheiro no mundo – tal como o comprovam a canção de abertura “Southern Point”, “Ready, Able” e a própria evolução do artwork presente nos álbuns (da monocromia de “Horn of Plenty” à explosão de cor em Veckatimest). Mas a necessidade permanente de confissão em sussurro persiste e soa ainda mais perturbadora, no sublime tema de encerramento “Foreground”.

Não é por acaso que a quase totalidade da banda sonora de “Blue Valentine” (o excelente filme realizado por Derek Cianfrance sobre um casamento em ruínas) é da responsabilidade dos Grizzly Bear - eles que tão bem sabem que o fim pode ser o início de uma bela história.


Debora Canbé

Nunca foi nerd, mas gostava de o ser. Mesmo assim, acredita ser capaz de dar um ou outro bitaite sobre uma série de assuntos relativamente interessantes.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/música// @obvious, @obvioushp //Debora Canbé