Síria, do berço ao pó da civilização

Território que carrega as mais antigas crônicas do homem: Damasco é a mais antiga capital habitada, continuamente, do mundo. E seus muros e arquitetura nos levam a uma viagem milenar, com uma vasta e extraordinária bagagem sociocultural. Hoje, o que foi o berço da civilização é um amontoado de ruínas e um templo de terror, um povo que protagoniza uma das maiores crises migratórias de todos os tempos.


AP_9884488373331.jpg Refugiados a tentar atravessar a Macedônia.

Desde a antiguidade, a Síria é cravada de implacáveis conflitos e guerras, com uma civilização já acostumada aos ataques subversivos - internos ou externos - e já cansada de existir em um fatal terreno de instabilidade. Nos tempos bíblicos, seus reis armavam exércitos contra Israel, sua mais truculenta relação. Milhares de anos depois, as tensões não deixaram de existir entre as duas nações, entre a Síria e outras nações, entre a Síria e o seu próprio povo.

Este é um povo que já se levantou e foi às ruas em busca de soluções para os seus direitos injuriados. Já há tempos que o país se encontrava numa iminente guerra civil, passando por um grande período de violentos protestos, os quais tomaram as ruas sob a reivindicação de significativas reformas na política atual. A tensão entre os opositores e o governo resultou em manifestações armadas, com muitas mortes de civis, que não pararam de acontecer, num ambiente que se tornou cada vez mais violento e inóspito.

damasco.jpg Metade da cidade de Damasco está destruída pela guerra civil

syria-economy.jpg Baraa Al-Halabi--AFP/Getty Images

Depois de obter sua independência do mandato francês da Síria, em 1946, o país foi vítima de duros golpes militares, o que fomentou os conflitos internos, levando o país já a um emergencial estado de sítio. Nos anos que seguiram, a Síria se envolveu e passou por outros tantos conflitos, como a guerra com Israel, a tentativa de unificação com o Egito e a tomada do poder pelo partido socialista/nacionalista Baath. Essas circunstâncias fizeram o país rumar abalado para um futuro incerto, levando-o a ser dominado por uma onda de revolta: as forças opositoras reclamam seus direitos humanos violados, além de pedir a renúncia de Bashar al-Assad, herdeiro do caos desde 2000. O governo, por sua vez, denuncia o apoio estrangeiro às facções opositoras como uma conspiração, a qual tentaria tirar proveitos políticos de uma possível desestabilização do governo sírio. A partir daí, inicia-se a guerra diplomática entre a Síria e representantes das Nações Unidas, tentando aplicar-lhe sanções econômicas.

dama3.jpg Manifestações em Damasco, 2012.

A marcha pela paz, a marcha da revolta, a marcha dos direitos humanos não adiantaram e já não servem mais. Hoje, marcha-se para fora de um país que é cada vez mais arrasado pela guerra civil. Agora, o povo se levanta para fugir da violência que toma as ruas da Síria, das explosões, da angústia, do terror, da fome. Hoje, é de muros caídos e corações devastados que é feita uma das mais antigas civilizações do mundo, que busca refúgio no exterior, protagonizando uma das maiores jornadas migratórias de todos os tempos.

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migrants-idonmeni-_3435432k.jpg Grécia, Itália e Hungria foram as primeiras fronteiras alcançadas pelos refugiados.

macedonia4_3435232k.jpg Picture: AFP

Com a imigração em massa, as Nações Unidas viram-se obrigadas a pedir aos Estados europeus para abrirem suas fronteiras e planejarem estratégias para ajuda humanitária aos refugiados, com medidas urgentes. O diretor da Agência de Refugiados das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que a crise migratória é, em parte, resultado do fracasso dos líderes mundiais e, por isso, todos os líderes mundiais tinham sua parcela de responsabilidade. Ele ainda disse, em declaração oficial, que a crise não é uma invasão em massa e que a Europa tem a capacidade de oferecer asilo e ajuda a estes povos sem que caia numa crise econômica ou política. O primeiro país Europeu a ceder foi a Alemanha, colocando pressão em outros líderes europeus relutantes com a medida.

germany.jpeg Refugiados sírios agradecem a hospitalidade alemã ao chegarem na estação de Saalfeld. Picture: Jens Meyer

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295940_34962477.jpg Milhares de alemães dão boas-vindas aos refugiados.

Após um período de luta diplomática e física nas fronteiras - e após uma série de fotografias de refugiados em agonia e em luta pela própria vida, tentando sobreviver e salvar suas famílias, após imagens de crianças sendo expostas a todo o tipo de perigos e traumas, após imagens de crianças e adultos mortos em ruas, praças e barcos, após a imagem de uma criança morta afogada em uma praia - a consciência do público e das autoridades começou a doer. Os refugiados finalmente viram-se caminhando rumo às nações para as quais pretendem pedir asilo. No entanto, ainda sofrem grande preconceito por parte de grupos conservadores nestes países, que são contra as medidas de ajuda humanitária a esses povos, clamando que a Europa está sendo invadida por uma onda islâmica. Além dos sírios, há refugiados de países como Iraque e Afeganistão.

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syriN.jpg Refugiaods sírios à espera de ajuda humanitária perto da estação ferroviária de Idomeni, no norte da Grécia, para atravessar a Macedônia. Crédito: Santi Palacios / Associated Press

Além de lutarem por sua vidas, esses milhares de refugiados encontram outra luta, a do preconceito, a do racismo, a da xenofobia por parte de muitos europeus que, ao se posicionarem contra a ajuda humanitária aos refugiados, esquecem da própria história, de uma Europa contaminada pelo sangue de guerras e conflitos, levando milhares de europeus a buscarem refúgio externo. Outros esquecem de sua história mais recente, com a degradação econômica, outros milhares de europeus saíram ao mundo em busca de emprego e melhor qualidade de vida.

world-in-pic-7.jpg Refugiado sírio reza após chegada em terras gregas.

world-in-pic-9.jpg Polícia tenta conter refugiados de seguir adiante pela Macedônia.

É por causa desta ignorância que fez-se levantar uma bandeira para que a ajuda humanitária aos refugiados fosse melhor aceita. O jornal britânico The Independent têm exposto uma série de reportagens para que o público saiba da própria história antes de cair no cinismo e hipocrisia do preconceito contra a crise migratória, seguido pelo The Guardian que, um pouco mais reservado, se viu obrigado a trabalhar a fim de tentar conscientizar algumas mentes européias da necessidade de abrirem-se as fronteiras e os motivos políticos por trás desta decisão. O The New York Times tem publicado histórias de refugiaos europeus da Segunda Guerra Mundial a fim de lembrar algumas mentes confusas da ajuda humanitária que europeus buscaram desesperados em terras americanas.

migrantfather-v2.jpg Sírio Laith Majid com sua família, quase morreram afogados ao chegar na costa da Grécia. Essa imagem foi uma das primeira a impactar o público acerca da crise dos refugiados.

macedonia.jpg Refugiado sírio segurando o filho em conflito com a polícia na Macedônia.

Com o movimento a favor da ajuda humanitária aos milhares de refugiados criando cada vez mais força, o Papa Francisco também viu-se em posição de aconselhar aos cristãos católicos que apoiassem a causa e fizessem doações às agencias humanitárias, quando não abrissem suas próprias casas para receber uma família de refugiados. Isso emocionou a comunidade católica e deu forças à causa.

REFUGEES_Children__3431774k.jpg Crianças refugiadas dormem no chão, perto da cidade de Gevgelija.

Com predominância religiosa muçulmana e etnia árabe, banhada pelo mar mediterrâneo, a República Árabe da Síria possui importantíssimos sítios arqueológicos, uma tradição antiquíssima e uma cultura marcada por grandes acontecimentos, os quais mudaram o rumo de sua história. Uma complexa e remota história, datada desde o Velho Testamento e marcada pelos passos tropeçados, que parecem se repetir há milhares de anos, como se a civilização síria estivesse presa a uma sina ancestral e maldita.

Atualmente, a Síria está parcialmente destruída. Como um dia foi e agora é, novamente, transgredida e inglória debaixo dos holofotes da história, mas uma história da qual o mundo já não é espectador e sim agente humanitário, a dar auxílio a milhares de pessoas que lutam diariamente por suas vidas.


rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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