Tim Burton e a angústia do homem

Imagine um Natal em que você ganha de presente um gato morto, um bando de morcegos e uma mão medonha que te ataca. E, pior, o Papai Noel sumiu e uma figura esquelética o substitui. Pode ser um pesadelo? Não, esse é um clássico do cinema contemporâneo que nasceu da mente de Tim Burton, habitual criador de mundos fantásticos e seres extraordinários, que vivem no imaginário de milhares de pessoas. E que refletem muito sobre as pessoas.


Halloween, Natal, Nightmare before the Chistmas, O estranho mundo de Jack, Tim Burton © Miverel | www.tim-burton.org.

“The Nightmare Before Christmas” - ou “O Estranho Mundo de Jack” - tornou-se um clássico da animação stop-motion, técnica comum desde os tempos do cinema mudo, mas pouco utilizada em longas. O filme, que foi lançado pelos estúdios Disney em 1993, ao contrário que muitos pensam foi dirigido por Henry Selick e produzido por Tim Burton. Mais do que produzir, foi Tim Burton que criou o fantástico universo que quase 20 anos depois ainda seduz muitas pessoas.

A longa teve o roteiro baseado nos poema de Tim Burton e também em seus desenhos, fortemente influenciados pelo expressionismo alemão e pelos antigos filmes de horror dos anos 1940 e 1950.

Burton escreveu o poema durante a década de 1980, enquanto trabalhava na animação de desenhos da Disney. Mesmo tendo participado de diversos trabalhos como O Cão e a Raposa, seu espirito surreal já era intenso. Uma prova foi sua primeira animação para a Disney, Vincent (1982). A animação conta a história de um garoto neurótico que finge ser personagens de Edgar Allan Poe. O ator Vincent Price, símbolo clássicos de terror, emprestou sua voz ao curta.

Esse primeiro trabalho abriu os olhos da Disney para outros projetos de Burton, entre eles, “Nightmare Before Christmas.” Pensado para ser um curta, depois para entrar em um especial de feriado para a TV, o projeto levou anos para ser concretizado e somente em 1990 – após três filmes de sucesso de Burton - um acordo de produção foi estabelecido. Era a primeira vez que a Disney pensava fora do óbvio.

Um esqueleto maníaco-depressivo é a figura central deste conto de Natal. O próprio Burton se inspirou em diversos especiais de Natal para TV como “Rudolph the Red-Nosed Reindeer”, "How the Grinch Stole Christmas!" e o poema "A Visit from St. Nicholas" de Clement Clarke Moore. Até mesmo antigos filmes B de ficção científica serviram de inspiração, assim como os poemas de Dr. Seuss. A ideia de Burton era criar seu próprio conto de Natal.

Halloween, Natal, Nightmare before the Chistmas, O estranho mundo de Jack, Tim Burton © Miverel | www.tim-burton.org.

O poema apresenta algumas diferenças em relação à animação. Personagens como o Bicho-Papão e a Sally foram incorporados, assim como algumas cenas que só existem no longa. Sendo que no poema original, os personagens claros são apenas Jack, seu cão Zero e o Papai Noel. Mas a base da história é a mesma, um tema quase universal: a insatisfação do homem.

Em um lugar de onde vêm todas as festividades do “mundo real”, a Cidade do Halloween é onde habitam múmias, vampiros, morcegos, esqueletos, lobisomens, bruxas e todos os monstros que fazem parte de nossas fantasias. O líder dessa cidade e idealizador de todas as travessuras da festividade é “O Rei das Abóboras”, Jack Skellington.

Mas a rotina de sustos está acabando com sua felicidade e cada dia sente-se mais farto de repetir os mesmos truques, danças macabras e assombrações. E aquilo para que ele foi destinado, não lhe satisfaz mais: uma dor intensa tortura seu ser. Assim, ele se encontra cansado de sua vida e nem mesmo o sucesso que alcançou pode preencher o vazio, que só aumenta.

Caminhando pela floresta com seu fiel cão-fantasma Zero, Jack é empurrado pelo vento para uma árvore onde se encontra a Cidade do Natal. Lá, o “Rei das Abóboras” encontra um mundo de presentes e luz, que despertam a felicidade que Jack tanto ansiava possuir.

Halloween, Natal, Nightmare before the Chistmas, O estranho mundo de Jack, Tim Burton © Miverel | www.tim-burton.org.

Inebriado, "o esqueleto sem cor" leva para seu mundo neve, presentes, brinquedos e uma foto do Papai Noel para mostrar a seus amigos. Mas Jack traz consigo uma ideia desastrosa: fazer o Natal. É aqui que mete os pés pelas mãos, ao tentar roubar o Natal e até mesmo sequestrar o Papai Noel. Um verdadeiro anti-herói confuso, cheio de dúvidas e boas intenções, mas gerando diversos problemas a todos.

A história do poema reflete a situação de Burton no momento – e talvez de muitos de nós: como o emprego dos sonhos pode se tornar o pior pesadelo. O ato mecânico que parece se tornar eterno, as ações sem sentido que vão tornando a alma mais vazia a ponto de fazer querer desistir de tudo e buscar algo totalmente diferente. Burton expressava em poema – e filme – a própria angústia de seu trabalho na Disney.

Danny Elfman, colaborador de longa data de Burton, criou toda a trilha sonora da animação. As músicas refletem também a angústia da insatisfação, que o próprio Elfman experimentava na época – ele saiu da banda Oingo Boingo buscando se realizar como compositor.

Mais que uma história de Natal, Burton acabou por criar uma fábula sobre o homem contemporâneo. Um anti-herói que vê que alcançar os sonhos nem sempre traz satisfação e, principalmente, percebe que o discurso que incentiva essa eterna busca pela satisfação pode na verdade ser um grande erro. Jack traz em seu lamento a tristeza de um mundo que cria ilusões e percebe que acreditar nelas é verdadeiro engano. O “Rei das Abóboras” não deve ser visto como um personagem trágico, mas um espelho irreal do mundo real.


carolina carmini

gosta de pensar que se não tivesse nascido, alguém a teria inventado.
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