Comboios: marcas do mundo eterno

No final do século XIX, o escritor português Eça de Queirós dizia que a cultura chegava a Portugal em caixotes, nos comboios que vinham de Paris. É difícil hoje imaginarmos o impacto que este meio de transporte trouxe à vida das pessoas - tanto a nível material, como a nível cultural ou mesmo espiritual. O mundo passou a ser outra coisa. Hoje, o comboio permanece como um meio de transporte útil, necessário e actual.


comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Azulejo alusívo aos caminhos de ferro (wikicommons).

“Esse comboio de corda que se chama coração”

Fernando Pessoa relaciona o comboio à “férrea” sensibilidade que representa o coração, “que nas calhas de roda, gira, a entreter a razão”. Para os apreciadores, este transporte é muito mais do que isto mesmo: um símbolo do progresso profano, capaz de despertar sensibilidades sagradas quando percorre territórios. “Irrompeu no imaginário e conseguiu um lugar considerável no mundo dos símbolos”, para Chevalier e Cheerbrant.

A rede de transporte e comunicação criada através dos caminhos-de-ferro, que liga regiões, países e até continentes, numa malha multi-cruzada, permitindo contactos e trocas de mercadorias, faz lembrar a imagem da vida colectiva em sociedade ou do peso carregado da vida, em direcção ao destino. Nunca se sabe, ao certo, se a composição vai na direcção certa ou errada, se nos pode conduzir a novas vidas. É aqui que este produto da evolução material, pode, igualmente, ganhar um espectro imaterial.

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Caminhos de Ferro do Funchal, Monte (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Caminhos de Ferro Bélgica, 1875 (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Caminhos de Ferro Polónia Ocidental, 1952-1953 (wikicommons).

Em tempos de novas modas, por todo o mundo, os caminhos-de-ferro não são esquecidos e, em alguns casos, constituem um autêntico património “classificado” na sensibilidade das pessoas que vêm a história como um posto nosso. Desenham geografias e ligam destinos e pessoas, prazeres, culturas, diferenças e mudanças. Veiculam a constante mudança que os faz sobreviver.

O caminho-de-ferro desenvolveu e desenvolve. Símbolo do mundo moderno, o comboio tem já uma história de séculos, mas foi desde a Revolução Industrial britânica até à actualidade que ganhou relevância, em todo o mundo. Quase todos as ocorrências com importância histórica, seja a nível mundial ou local, tiveram no comboio um propulsor de avanços técnicos, culturais, tecnológicos e intelectuais. O progresso industrial e económico da Grã-Bretanha, a afirmação dos E.U.A. como potência mundial ou as duas Guerras Mundiais, entre outros, foram exemplos.

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Bolo alusívo aos caminhos de ferro, Voiture Restaurant (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Comboio no Museu do Comboio no Entroncamento (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Locomotiva na cidade do Entroncamento (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Caminhos de Ferro de Gruyere (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Caminhos de Ferro da Bretanha (wikicommons).

Alargaram-se mercados de comércio e de consumo, também ideias e horizontes intelectuais, os povos puderam sair de suas terras mais facilmente, esbateu-se o isolamento territorial. Fundamentalmente, o comboio teve o mérito de aproximar pessoas, despertando nelas uma vontade de evolução humana por via do contacto cultural e civilizacional. O “habitat” de cada indivíduo deixou de ser local, a terra natal e/ou as zonas vizinhas passando a ser bem mais vasto. Por tudo o que permitiu à sociedade, este transporte é muitas vezes visto à luz da sensibilidade.

Em direcção ao Oriente…

Sobre os carris da história, o mapa mundial ferroviário é composto por diversos comboios históricos, muitos deles ainda em funcionamento, com carisma reconhecido pela população. A relação tempo/espaço de funcionamento do comboio consagrou estas composições, ao nível da própria cultura de um povo, de um país.

A Europa conhece de perto alguns dos comboios mais antigos, ainda em funcionamento, apesar de boa parte das linhas ferroviárias já não corresponderem, totalmente, ao que foram no passado. O “Sud Express” realizou a sua viagem inaugural em Outubro de 1887, partindo de Lisboa até Paris, passando por Madrid, em 45 horas. Este comboio, inaugurado pela mesma companhia que tinha inaugurado previamente o “Expresso do Oriente” (Londres-Paris-Istambul), concretizava o sonho de Georges Nagelmarkers de ligar Lisboa até Moscovo, num só comboio. Os nacionalismos vigentes no continente europeu não o permitiram. Em 1895, este percurso seria alterado, trocando-se Madrid pelo norte de Espanha, destinando-se já até Hendaye.

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano História dos Expresso do Oriente (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Caminhos de Ferro de North Wingfield (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Eurostar St Maurice, Bourg (wikicommons).

Considerado o último dos históricos expressos europeus, este “Sud” liga com o “TGV” francês, este que vai até Paris (desde os anos 80), cidade que também recebe o “Eurostar”, que liga Londres a Bruxelas desde 1994. Ambos primam pela rapidez. Desde 1883, por lá passa, igualmente, o “Expresso do Oriente”, já mencionado e considerado, na altura, um dos comboios mais luxuosos do mundo. Tendo a sua rota, até hoje, sido alterada várias vezes, só em 1889 (até 1977) é que chegou à Turquia. A companhia responsável pela sua inauguração não só promoveu a rota original deste comboio como outras modalidades tais como o “Alberg”, o “Simplon” ou o “Direct Orient Express” (para destinos como Belgrado ou Atenas), até ao declínio. Hoje, apenas circula até Viena. À custa da fama deste “Expresso”, o inglês James Sherwood fundou um serviço caro, o “Venice-Simplon Orient Express”, em 1982, entre Londres e Veneza, que em nada se relaciona com o original de 1883, ao contrário do que afirma. Do Sudeste ao Ocidente

No lado Euro-Asiático, o “Transiberiano” é uma rede ferroviária que liga a Rússia europeia ao Extremo Oriente (Mongólia, China e Mar do Japão). A linha principal “Transiberiana” permanece, em conjunto com mais duas (o “Transmanchuriano” e o “Transmongoliano”) que entroncam na linha principal. A sua construção durou de 1891 até 1916 Foi primeiramente pensada, em parte, para transporte de mercadorias, atingindo um recorde de despesa orçada, para a Rússia imperial, superior a 1,455 mil milhões de rublos, apenas superada pelos gastos com a I Guerra Mundial. Liga Moscovo a Vladivostok em aproximadamente 6 dias.

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Caminhos de Ferro de Prokudin-Gorskii (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Comboio russo (wikicommons).

comboios, comunicacao, sudexpress, tecnologia, transportes, transsiberiano Comboio a passar em Karoo (wikicommons).

O comboio a vapor “Puffing Billy”, na Austrália, circula desde 1900 pela remota floresta vitoriana, mas entre Belgrave e Gembrook a partir de 1955, devido a uma derrocada. Em África, foi no Egipto que surgiu, em 1852, a primeira linha ferroviária mas é o “Blue Train”, na África do Sul (Pretoria – Cape Town), um dos mais conhecidos comboios, pelo luxo e paiasgens associados. Já no continente americano, destaca-se o comboio transcontinental, “Golden Spike”, a partir de 1869, em Utah, que revolucionou o modo de vida e a economia do Oeste americano. Entre muitos outros, tal como nos exemplos anteriores.


Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".
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