Do coração ao Paraíso: o guia egípcio da eternidade

Quarenta e duas portas trancadas. Sob a vigia de escorpiões enormes e esfomeados, o leitor deixará de existir caso erre a resposta às perguntas de quarenta e dois seres divinos. Terá que enfrentar a cerasta, uma das serpentes mais mortíferas. O escaravelho revelará o seu coração no julgamento final e há um livro que lhe dá a chave para o Paraíso. Boa sorte!


alma, deuses, egito, imortalidade, morte, rituais Livro dos Mortos, feitiço 17, do Papiro de Ani (Wikicommons).

Há vida depois da morte. Pelo menos, assim acreditavam os egípcios na altura do Império Novo, mais de mil e duzentos anos antes de Cristo. Quando o sol inicia a sua jornada nocturna, a travessia da alma do morto é feita num barco. Os amuletos que traz consigo colados ao corpo são o passaporte para o Além. Os rituais fúnebres e a mumificação dos mortos (processo em que se retiram os principais órgãos do corpo morto, dificultando a sua decomposição) advinham os obstáculos que se aproximam e são o veículo para o morto desfrutar a vida eterna. Há um livro que contém as instruções e encantamentos para vencer no Álem e que acompanha a fase pós-vida. Páginas em papiro, colocadas numa caixa decorada com a imagem de Osíris, deus do Além, junto ao sarcófago formam O Livro dos Mortos.

alma, deuses, egito, imortalidade, morte, rituais Nascer do sol na Criação (Wikicommons).

Apenas acessível à realeza e nobreza egípcia, o Livro dos Mortos é o manual de instruções que permite superar os obstáculos na nova vida, a salvação das almas e que conduz ao Paraíso. Desconhece-se o autor, porém, acredita-se que era replicado em série por quem dominasse a arte dos hieróglifos, ou seja, os sinais de escrita da antiga civilização egípcia.

No período pós-vida, qualquer morto tem como objetivo entrar no campo dos juncos, o local abençoado que promete a eternidade. Contudo, o caminho está armadilhado e qualquer erro pode ser fatal. Mais do que ser devorado por criaturas ou seres divinos, o maior castigo é cair no esquecimento (deixar de existir!).

alma, deuses, egito, imortalidade, morte, rituais Livro dos Mortos, feitiços 144 e 145, do Papiro de Ani (Wikicommons). Saudações a Anúbis (deus da mumificação, rituais fúnebres e da vida após a morte)! É o guia que ajuda os mortos em todo o seu trajeto. Mas desengane-se quem pensar que ele os protege. A sua tarefa é apenas garantir que o julgamento seja justo. Os sentidos também são recuperados nesta nova vida pelo feitiço concretizado por este deus, o feitiço da Abertura da Boca (número 23 do Livro). Todos os sentidos (visão, paladar, tacto, olfacto e audição) trancados no processo de mumificação, são agora despertados.

Não estarás só na execução de trabalhos manuais se trouxeres o capítulo 6 do livro dos mortos. O espírito é replicado em pequenos clones que executarão esses trabalhos. Os hieróglifos sobre papiro ainda desvendam o encantamento que permite fazer face a uma das serpentes mais horripilantes do mundo. Há que parti-la ao meio para evitar que esta salte e engula a viagem.

alma, deuses, egito, imortalidade, morte, rituais Livro dos Mortos, do Papiro de Pinedjem II, Pinedjem II numa oferenda ao Deus Osíris (Wikicommons).

Até à sala de julgamento, enfrentarás quarenta e dois deuses, guardiões de quarenta e duas portas diferentes. Para cada um deles, deverás renegar que cometeste diferentes pecados.Os critérios de avaliação seguem os juízos morais e a sua checklist tem por base os quarenta e dois mandamentos (muito semelhantes aos dez mandamentos presentes na Bíblia). As palavras da inocência e defesa da confissão negativa encontram-se presentes no Livro dos Mortos: “Não causei sofrimento aos homens. Não empreguei violência contra os meus parentes. Não substitui a justiça pela injustiça.. Não trabalhei em meu proveito em excesso.. Não matei e não mandei matar.. Não monopolizei jamais os campos de cultivo”. Cada hesitação ou silêncio ativam as quelas (garras em forma de pinça) dos escorpiões que vigiam as portas.

Segue-se o momento decisivo para a entrada no Paraíso: o teste da pesagem do coração. O coração é o músculo da Alma e inteligência que bombeia as emoções fortes, os pensamentos e a essência do ser. Sendo um órgão frágil, precisa de proteção sob a forma de um escaravelho (símbolo do renascimento no Egito, associado ao sol nascente). Este momento exige calma e serenidade, uma vez que o escaravelho do coração é pesado numa balança e comparado com a pena da deusa Maat que personifica a verdade, justiça, ordem e equilíbrio. A confiança na pureza do coração só ocorre quando o escaravelho do coração atinge o mesmo peso que a pena. Caso contrário, a alma é devorada pelo ser monstruoso Ahmit e considerada culpada na Sala de Julgamentos.

alma, deuses, egito, imortalidade, morte, rituais Detalhe do Livro dos Mortos, do Papiro de Sesostris (Wikicommons).

alma, deuses, egito, imortalidade, morte, rituais Detalhe do Livro dos Mortos, Anubis pesando o coração de Hunefer (cena semelhante no Papiro de Ani) (Wikicommons).

O livro dos Mortos permite ainda controlar o próprio coração. Nas costas do escaravelho, está inscrito o encantamento “Não menti, não roubei, não enganei, meu coração é bom”. A oração “Meu coração, não te oponhas a mim no tribunal. Não te mostres hostil a mim. Não digas mentiras sobre mim na presença dos deuses” permite controlar o pulsar do coração e das suas emoções.

Reza a história que Ani, escriba real – encarregado de registar todas as oferendas aos deuses – conseguiu a chave da vida eterna através do cumprimento das instruções do livro dos mortos. Preocupado com o seu lugar no outro mundo e assombrado com o dilema de cuidar do presente ou da eternidade, conseguiu entrar no Paraíso.

Atualmente, o costume de colocar flores nos túmulos, o acto de conversar com os mortos, a presença dos dez mandamentos, etc., leva a crer que alguns elementos da cultura do Antigo Egito, no que toca a estes rituais, passaram através dos tempos.

alma, deuses, egito, imortalidade, morte, rituais Detalhe do Livro dos Mortos, hieroglifos (Wikicommons).

alma, deuses, egito, imortalidade, morte, rituais Carl Richard Lepsius (1810-1884), Egiptologista e linguista, primeiro tradutor de um manuscrito completo do Livro dos Mortos (Wikicommons).


Branca Dias

é uma pessoa que troca a sua vida por um sonho.
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